Eleições em novembro?

Correio da Manhã (Rio)

Já vou logo avisando, não voto em ninguém nas eleições de novembro. Aliás, para ser mais claro, não vou e sequer posso descer a serra até o Rio para cumprir minha obrigação cívica. Os motivos estão na cara, uma quimioterapia ainda por terminar, uma última cirurgia ainda por marcar e os setenta anos de idade que garantem minha isenção. 

Esclarecido esse ponto, vamos ao que interessa, quem está ganhando com isso? A democracia? Ora, façam-me o favor, o Brasil faz parte de um “seleto” grupo de 24 países (Argentina, Bolívia, Chile, Costa Rica, Equador, Honduras, México, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana, Uruguai, República Democrática do Congo, Egito, Grécia, Líbano, Líbia, Nauru, Tailândia, Bélgica, Austrália e as cidades-estados Luxemburgo e Singapura) que ainda adotam o voto obrigatório, uma barbaridade colocada na Constituição de 1934, durante a de Getúlio Vargas.  

A Constituição de 1988, feita por políticos para políticos, repetiu a dose. Só não contavam com a expansão dos meios de informação que nos ensinaram que em 230 nações, entre elas todas as consideradas do primeiro mundo, o voto é… Facultativo! Em 2014, uma pesquisa do Datafolha mostrou que 61% dos brasileiros era contra o sistema vigente. Alguém ligou? Que nada, todo mundo com cara de paisagem se entocou no Congresso, Palácios, etc…  

Os últimos anos vem desanimando cada vez o cidadão brasileiro. O ex-presidente sociólogo que se considera o mais bem preparado de todos os que vieram antes e os que virão depois, inventou a reeleição, um verdadeiro câncer político, já que o “ungido” passa todo o primeiro mandato com a cabeça no segundo e depois, já reeleito, o povo que se dane, vamos eleger o sucessor e aproveitar o máximo possível.  

Mas o que mais me desanima são os 6 governadores presos, afastados ou processados por corrupção, o impeachment de dois presidentes, ler nos jornais, dia sim, dia seguinte também, as listas de “autoridades” e “empresários” presos ou conduzidos coercitivamente à polícia para prestar “esclarecimentos” sobre atividades escusas. Mais lamentável é quando a justiça, invocando cláusulas obscuras, perdidas nos inúmeros códigos penais, processuais e quetais, solta todo mundo de uma penada só…  

E piora. A incompetência e a má fé são contagiosas e se espalharam pelas casas legislativas de todo o país. Com as exceções devidas e de sempre, a sensação é que nossos representantes estão mais preocupados com suas próprias vidas do que com o povo que os elegeram. Falta transparência e sobram conchavos, acordões, acordinhos, o diabo a quatro.  

A primeira eleição a gente nunca esquece e a minha foi um desastre só. Estou me referindo a de 1961, que consagrou Jânio Quadros, o da vassourinha. Eu tinha apenas 10 anos, mas nunca vi tanta esperança e alegria pelas ruas de Copacabana foi anunciada sua vitória. Infelizmente, o presidente não regulava bem e após apenas sete meses de governo, renunciou. O resto é história. 

Tenho pena da gente honesta, trabalhadora e de boa fé que investe o que tem e o que não tem para tentar mudar alguma coisa nesse país e se vê envolvida por raposas felpudas, para não dizer outra coisa, além dos esquemas escusos de sempre. Hoje, com os recursos tecnológicos, ainda tem que conviver com fanáticos e robôs nas redes sociais, desqualificando seu trabalho, difamando sua honra e ameaçando sua família. É duro!    

Enfim, por uma questão de saúde e uma profunda decepção com o Brasil, em novembro não voto! Ainda mais quando vejo uma lista com 16 nomes querendo a prefeitura de Nova Friburgo, a cara de pau de candidatos enroladíssimos com a lei liderando a eleição no Rio e por aí vai. Dá uma tristeza enorme e a certeza de que nós, brasileiros, não sabemos votar e desconhecemos a força que nosso voto poderia ter. Uma pena. 

Boa semana para todos os leitores. 

Voto de cabresto

Foto: Carlos Emerson Junior

O que tem em comum o Brasil, Argentina, Bolívia, Congo, Equador, Egito, Fiji, Líbano, Líbia, Nauru, Paraguai, Singapura, Tailândia, Turquia e mais outros seis países? O voto obrigatório, uma excrescência adotada por aqui em 1932, durante a ditadura Vargas. Em contrapartida, em 236 repúblicas democráticas, o voto é facultativo. Isso quer dizer que nossa “elite” política acredita que ainda não sabemos votar. Pode até ser, mas eles também não sabem governar…

Na última eleição, mais de 1.800.000 cariocas não apareceram nas zonas eleitorais para cumprir sua “obrigação”. Junto com a turma que deixou em branco ou anulou seu voto, quase 40% dos eleitores do município deixaram um duro recado aos partidos e suas indicações desastrosas para disputar um cargo tão importante como a prefeitura carioca.

No fim o pior quadro prevaleceu e como a disputa ficou entre um bispo evangélico e um messias do PSOL, tenho quase certeza que os números da final do dia 30 serão bem maiores e mais contundentes. Tomara (que ingenuidade) que desta vez os “caciques” aprendam alguma coisa.

A propósito do título desta crônica, voto de cabresto é uma antiga expressão surgida no interior do Brasil, ainda na República Velha, onde o controle do poder político é feito através do abuso de autoridade, compra de votos ou utilização da máquina pública. Ou seja, o fazendeiro, coronel, prefeito ou raio que o parta colocava uma turma de peões num caminhão até a urna eleitoral e todo mundo tinha que votar no candidato que ele determinasse.

Ah, mas o voto eletrônico acabou com isso! Acabou? Aqui mesmo, no Estado do Rio, milicianos e traficantes desafiam o Tribunal Superior Eleitoral e chegam ao ponto de proibir a entrada e campanha eleitoral de candidatos “inimigos”, digamos assim, nas comunidades sob sua “influência”. Aliás, segundo o ex-ministro e ex-presidente do TSE Carlos Ayres, a milícia sempre afirmou que “a urna eletrônica não ofereceria essa transparência que se faz necessária e que seria possível saber quem votou em quem, como modo de inibir o voto livre e consciente”.

Pois é, voto livre e consciente. Como falar nisso se grandes regiões da cidade não são permitidas a qualquer um? Não adianta tapar o sol com a peneira, já diziam os antigos, a cidade foi partida, dividida e todo mundo faz de conta que não viu, que não tem nada a ver com isso. Os moradores (e quanto mais pobres pior), são os que mais sofrem. E ainda querem falar em voto útil, voto no menos pior, voto consciente, voto cidadão e outras babaquices?

Tenham dó!

Voto obrigatório é voto de cabresto. É a oficialização do coronelismo, é uma invenção de regimes ditatoriais, ultrapassados. O dia que o candidato tiver que seduzir o cidadão para sair de casa e ir até a urna eletrônica digitar seu voto, aí sim, teremos dado um enorme um passo na direção da verdadeira democracia. Porque o que existe hoje não passa de uma oligarquia. Da época de Vargas.

Em tempo, não sou candidato a nada.