A solidão dos sapatos

Sapatos. Uma porção deles, empilhados no pedal de um velho suporte de uma máquina de costura Singer, transformada com o passar do tempo em uma mesinha para porta-retratos. Sapatos, tênis, sandálias. Qualquer coisa que sirva para ir à rua e ficar empilhado na volta.  

Ninguém repara. Os sapatos ao lado da porta de entrada do apartamento, estão meio esquecidos, aguardando alguém sair de casa. Só que andar do lado de fora ficou perigoso, não pode aglomerar, cuidado com o vírus… Aí tem dias que ninguém vai a lugar algum, ainda mais se chove ou esfria muito. 

Sei não, mas acho que sua única alegria é o dia da faxina, quando a pilha é desfeita e eles são limpos um por um, a mesinha é toda espanada, a poeira e o lixo retirados e, finalmente, eles são cuidadosamente arrumados e emparelhados. Oba! Hoje vamos passear, devem pensar. 

Não, sapatos, infelizmente não. Imagina, ainda tem muita coisa faxinar, esqueceram? Pois é, além de não ter graça nenhuma conversar com calçados, sei que é por minha causa que eles não andam, já que fico em casa o tempo quase todo e, para seu horror e revolta, só vou ao jardim com o meu chinelo, que nunca me cobra ou me olha de cara feia.  

Vai passar, gente, dias melhores virão e vamos todos nos abraçar nas ruas das cidades. Usando sapatos, é claro! 

Nova Friburgo, agosto de 2021

Só faltam 23 dias!

Google Imagens

Mais uma segunda-feira! Mais uma semana! Menos de um mês! 2021 vem aí! Sim, e daí? Sua vida vai mudar? O isolamento vai acabar? O vírus vai ter cura? E os empregos, vão voltar? Vamos viajar outra vez? Sair à noite, encontrar os amigos, festejar qualquer coisa, ir à Igreja rezar? Deixaremos de achar “normal” 6.605.245 casos de Covid-19? E as 177.006 mortes confirmadas?

Quando percebo que a gestão da pandemia, pelo menos aqui no Brasil, não passa de uma piada de péssimo gosto, comandada por gente sem a menor condição de conduzir sequer um pelotão, dando valor a “pseudo lendas” ao invés de se ater aos fatos reais, atiçando a cobiça dos corruptos eternamente de plantão, vendendo gato por lebre de olho em uma reeleição, fico com dúvidas se realmente 2021 será um “feliz ano novo”, cheio de esperanças, paz e saúde ou se os dias sombrios e mortais se repetirão.

Sei não… Parece que 2020 não tem data para terminar.

Casa de Marimbondos

Foto: Carlos Emerson Jr.

“Marimbondo furibundo
Vai mordendo meio mundo
Cuidado com o marimbondo
Que esse bicho morde fundo!”
(Vinícius de Moraes, 1970)

 

– Não brinca aí, menino, não está vendo a casa de marimbondos? Pois é, não vi mesmo; quando a gente é criança não presta atenção nessas coisas, não sabe que pode ser perigoso, acredita que tudo é implicância de gente grande. Dei sorte na vida (ou tive juízo) e consegui manter sempre uma distância cautelosa desses insetos. Afinal, como já diziam os antigos, o seguro morreu de velho…

Ferroada de marimbondo dói pra burro. Lembro de uma de minhas idas à parasidíaca Ilha Grande, no litoral sul do Estado do Rio, para acompanhar uma vistoria da Marinha do Brasil a um enorme terreno de propriedade da empresa onde trabalhava na época, ainda tomado pela Mata Atlântica. Lá pelas tantos, floresta adentro, o mateiro passou, o pessoal da Marinha foi atrás e eu dei de cara com um bando de marimbondos. O resultado final desse encontro foi o mateiro tirando o ferrão da minha mão com um facão, aplicando a seiva de uma planta nativa na ferida, garantindo que daria para guiar de volta ao Rio antes que a mão virasse um balão.

Deu para voltar para casa e sim, a mão inchou muito!

Que ninguém nos ouça, mas pessoalmente tenho muito mais medo de mosquitos do que de abelhas, vespas e cia., predadores naturais dos transmissores da dengue e outras pestes. E já que estamos falando em pestes, o famigerado Covid-19 também é de aterrorizar qualquer pessoa que tenha um mínimo de sanidade mental, o que não é o caso das hordas de idiotas que vagam alegre e irresponsavelmente por aí, em pétrea aglomeração e inabalável convicção de que podem superar a doença.

Cuidado com os marimbondos, pessoal!