Ventos frios

Da janela da sala acompanhava o vento balançar os galhos de uma árvore no jardim, como se tentasse derrubar duas rolinhas que teimosamente insistiam em permanecer pousadas em um galho bem fino. De repente, uma revoada de maritacas, aos gritos espantou o casal, possivelmente irritados com a habitual algazarra. Achou graça, baixou os olhos e tentou retomar a leitura do jornal, apesar da completa falta de interesse.

Voltou o olhar para a janela. Apesar do sol brilhante, usava um casaco para quebrar o ar frio que insistia em entrar sem nenhum convite em sua casa. Sabia muito bem que os dias vão ficar mais curtos e as noites claras e geladas. As chuvas vão sumir até, pelo menos, meados de outubro. As chuvas vão escassear e quase todas as manhãs nevoeiros vão esconder as montanhas que rodeiam sua casa.

Tempos de acender a lareira e ligar os aquecedores. Tirar dos armários casacos de lã, edredons, meias grossas, cachecóis, gorros e até luvas. Trocar a cervejinha do almoço por um bom vinho tinto. Sair à noite? Só em ocasiões muito especiais, afinal, para deixar o quentinho de casa tem que valer muito à pena, como apreciar as estrelas no límpido céu noturno da serra, a quase mil metros de altitude.

O vento assoviou alto e se insinuou para dentro do apartamento, fechando uma porta com um estrondo. Assustado, sentiu um arrepio e perdeu completamente os pensamentos mas, deixa pra lá, a vida real não é um comercial de televisão. Cheio de preguiça conseguiu se levantar da poltrona, fechou as janelas, tomou os remédios da manhã e foi para a cozinha passar um café. Com ou sem ventos frios, o dia está apenas começando.

Nova Friburgo, julho de 2021