O dia que Deus fez terapia

Faz tempo que eu não ia ao teatro. Azar o meu, é claro. Mas nesse último mês comecei a tirar o atraso e emendei dois trabalhos emocionantes e, talvez para mim, seminais: o surreal “The Old Woman”, do Bob Wilson, com o Willen Dafoe e o Mikhail Barishinkov e o comovente “Meus Deus!”, da escritora e jornalista israelense Anat Gov, com a minha querida Irene Ravache e o ótimo Dan Stulbach.

Saí das duas peças com a alma lavada e redimida. Ainda estou vivo!

Em cartaz desde o início de agosto no Teatro dos 4, lá no Shopping da Gávea, “Meu Deus” é uma espécie de comédia/drama/ficção não religiosa, mostrando o dia que Deus (Dan Stulbach), deprimido e pensando em suicídio, procura o auxílio da psicóloga Ana (Irene Ravache brilhante como sempre), uma terapeuta atéia.

Como bem colocou o crítico Maurício Mellone no site Aplauso Brasil, “mais do quer propor a personificação de Deus, Anat Gov, com esta peça, promove uma discussão mais profunda, a de que somos a criação divina e, por isso, somos Deus, temos a centelha divina em nossa essência. Assim, quem está em crise: Deus ou o homem? Quem precisa rever seus atos e se reavaliar de maneira radical?

Nada a criticar, tudo a elogiar. O belo e colorido cenário do Antonio F.erreira Junior, o figurino simples e eficiente do Fause Haten, a iluminação caprichada do Wagner Freire e a bem colocada trilha sonora do Jonatan Harold. A impecável (sem segundas intenções) direção do Elias Andreato realça a emocionante atuação dos dois grandes atores. Aliás, quase cometo uma falha imperdoável: completa o elenco o jovem ator Pedro Carvalho, interpretando o filho autista da Ana. O agradecimento final deixa a certeza que sentiram que seu recado foi passado e o público carioca recebeu “Meu Deus!” com o coração e os braços abertos. No mais, não tenha dúvida, um espetáculo imperdível!

Leia mais sobre a peça aqui.

Fotos: Uol e Contexto Cultural

The old woman

Willem Dafoe e Mihail Baryshnikov numa peça dirigida por Robert Wilson, no Rio? Pois é, a badalada e bem avaliada “The Old Woman” será encenada em agosto na Cidade das Artes e é uma rara oportunidade de assistir uma montagem moderna com dois artistas de alta qualidade. O texto é baseado num conto de vanguarda do escritor russo Daniil Kharms, adaptado para o palco pelo roteirista Darryl Pinckney.

Segundo o New York Times, os dois atores conseguem um tipo de sincronicidade digno de Stan e Ollie (o Gordo e o Mago), o Road Runner e Wile Coyote (a dupla do desenho animado Papa-Léguas e o Coyote) e até mesmo Fred Astaire e Ginger Rogers. E partem da premissa que fazer comédia não é fácil. Melhor ainda, mostram que o que nos faz rir é o que nos assusta. Isso inclui a morte, é claro, e a sensação de que estamos sozinhos em um universo sem sentido, onde tudo, animado e inanimado, está aí para nos pegar.

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Vale ler a matéria do NYT e a entrevista do diretor Robert Wilson para a Folha de SP. As fotos são de Ruby Washington/NYT.

Já estou providenciando os ingressos!