Hora de invernar

Foto: Carlos Emerson Junior

E o mês de junho chegou, trazendo o frio do inverno serrano. Hora de ligar lareiras e aquecedores, tirar casacos, xales e meias de lã dos armários. Ficar mais tempo em casa, dormir embaixo de um bom edredom, tomar sopas quentinhas à noite com a companhia de um bom vinho tinto e, é claro, diminuir a água fria dos banhos.

Quem mora na serra sabe que a rotina muda completamente: o relógio desperta na mesma hora o ano inteiro mas agora lá fora ainda é noite, quando clareia você só enxerga o nevoeiro escondendo toda a cidade e faz frio, muito frio. O corpo e a mente só desejam voltar para a cama e suas cobertas.

Em compensação, com a típica escassez das chuvas nessa época do ano, os dias ficam incrivelmente solares, o azul do céu chega a ficar indecente de tão bonito. A cidade ganha um brilho novo, caminhar pelas ruas ganha um novo significado, se aquecer ao sol e redescobrir novos coloridos da natureza.

Somos a cidade mais fria do Estado do Rio de Janeiro mas, como em todas as cidades brasileiras, uma parcela de nossos cidadãos não tem o menor motivo para festejar a estação. Muito pelo contrário, o tempo frio cobra um preço alto e ingrato dos mais necessitados. Faltam casas, agasalhos, saúde, alimentação, perspectiva e esperança de dias melhores.

A população se mobiliza e ajuda como pode: distribuição de cestas básicas, doação de roupas e cobertores de frio, ajuda financeira, médica, odontológica. Fazemos o que nos é possível. O Brasil sente os efeitos da pandemia e de gestões federais, estaduais e municipais sem nenhum plano de governo, falta de empatia com seu povo, incompetentes, corruptas ou coisa pior.

Enfim, o inverno começa oficialmente no dia 21 de junho, uma segunda-feira, apesar das temperaturas, principalmente à noite, já terem chegado abaixo dos 2 dígitos, principalmente na zona rural de Nova Friburgo. As restrições impostas para o combate ao Coronavírus restringem o turismo e, mais uma vez, não veremos aquele povo de todo o país que gosta ou quer conhecer um inverno de verdade em plena região sudeste do Brasil.

Aliás, que tal aproveitarmos nossa melhor estação ajudando a quem precisa? Em vez de ficarmos destilando ódio (um sentimento horroroso) contra quem não pensa como nós, vamos procurar associações, ongues, igrejas e prefeituras que estão pedindo qualquer tipo de colaboração para amparar quem sente frio e fome e não tem como se proteger.

Depende apenas da gente.

Solidários, sempre.

Falam mal dos brasileiros. Que somos preguiçosos, ignorantes, violentos, desonestos, sem caráter, uns canibais mesmo. Pois é, dizem tudo isso por aí… No entanto, hoje, vendo o sofrimento do maquinista do trem, preso nas ferragens por mais de sete horas, assistindo o esforço quase sobre humano do pessoal do Corpo de Bombeiros, lutando contra o aço que insistia em manter o seu refém e a população angustiada diante de mais uma tragédia desse sombrio ano de 2019, agarrei-me ao sentimento que, apesar de nossos defeitos, somos solidários, sempre! Seja uma criança perdida em um shopping center, um idoso indeciso para atravessar uma rua, um tentativa de estupro em um bar (aconteceu ontem, no Leblon), até o colapso de uma represa em cima de cidades inteiras, se você precisar de ajuda, qualquer uma, logo aparece um de nós para socorrer, consolar, amparar, muitas vezes se expondo ao perigo e arriscando a própria vida.

Fiquei triste com a morte do maquinista do trem. Meus sentimentos para a família, os colegas e amigos. Sofremos juntos de vocês todos.. Mas tenho que deixar registrado o meu orgulho pela solidariedade, dedicação e persistência dos nossos Bombeiros, mais uma vez, os verdadeiros Heróis do Brasil. Temos que bater no peito e nos orgulhar, somos solidários!