A solidão dos sapatos

Sapatos. Uma porção deles, empilhados no pedal de um velho suporte de uma máquina de costura Singer, transformada com o passar do tempo em uma mesinha para porta-retratos. Sapatos, tênis, sandálias. Qualquer coisa que sirva para ir à rua e ficar empilhado na volta.  

Ninguém repara. Os sapatos ao lado da porta de entrada do apartamento, estão meio esquecidos, aguardando alguém sair de casa. Só que andar do lado de fora ficou perigoso, não pode aglomerar, cuidado com o vírus… Aí tem dias que ninguém vai a lugar algum, ainda mais se chove ou esfria muito. 

Sei não, mas acho que sua única alegria é o dia da faxina, quando a pilha é desfeita e eles são limpos um por um, a mesinha é toda espanada, a poeira e o lixo retirados e, finalmente, eles são cuidadosamente arrumados e emparelhados. Oba! Hoje vamos passear, devem pensar. 

Não, sapatos, infelizmente não. Imagina, ainda tem muita coisa faxinar, esqueceram? Pois é, além de não ter graça nenhuma conversar com calçados, sei que é por minha causa que eles não andam, já que fico em casa o tempo quase todo e, para seu horror e revolta, só vou ao jardim com o meu chinelo, que nunca me cobra ou me olha de cara feia.  

Vai passar, gente, dias melhores virão e vamos todos nos abraçar nas ruas das cidades. Usando sapatos, é claro! 

Nova Friburgo, agosto de 2021