A guerra do Rio

Foto: Redes Sociais

A guerra entre facções criminosas nas favelas do Chapadão e da Pedreira, na zona norte do Rio, além da óbvia demonstração da insegurança beirando o caos que tomou conta da cidade do Rio reforça a sensação de idéia de jumento a possibilidade da construção de um autódromo na antiga e histórica área de exercícios de tiros reais do Exército, em Deodoro, no meio do caminho da batalha. Os depoimentos, fotos e vídeos mostrando balas traçantes cruzando a noite de um morro ao outro, ônibus incendiados em plena via pública, moradores aterrorizados procurando abrigo em unidades hospitalares e, infelizmente, os feridos e mortos ainda não contabilizados, estão disponíveis em toda a internet.

Minha irrestrita solidariedade aos meus conterrâneos cariocas. Nossa cidade não merecia ter chegado a tal situação de abandono. Minha solidariedade também e, principalmente, com os moradores das comunidades que foram esquecidas pelas autoridades desonestas, incompetentes e corruptas que infestam e são responsáveis por quase vinte anos da roubalheira generalizada e sem limites que quebrou o Rio. Elas são tão ou mais criminosas do que esses traficantes de merda que oprimem moradores e trabalhadores.

E a propósito, vão construir autódromo na… Deixa prá lá.

Foto: G1

Cancelando uma assinatura

Foto: Congresso em Foco

Por uma série de motivos que nem preciso explicar, resolvi pedir o cancelamento da assinatura da edição digital do O Globo, um direito meu, uai. Pois muito bem. O primeiro obstáculo foi encontrar no site onde ou como fazer tal solicitação. Procura daqui, assunta dali, revira o Portal do Assinante e nada, nem um telefone sequer. Fui até a seção “ajuda” para ver se havia alguma dica e bingo, descobri um link que levava a um aviso que o pedido só seria possível por telefone, um do Rio de Janeiro e um 0800. Muito aqui entre nós, uma solução antipática, contrariando a orientação do Procon.

Liguei, tive que explicar o porquê da desistência da assinatura, citar uns três ou quatro artigos, colunistas ou editoriais que tinham me incomodado, ouvir detalhes de uma oferta para pagar R$ 1,60 durante três meses, confirmar todos os meus dados pessoais, informar meu telefone celular (eles já tinham o fixo) para só então ter meu pedido aceito e recebido um protocolo. Ah, sim, a mocinha avisou que o processo estava em andamento e em até 20 dias eu receberia uma ligação do jornal confirmando o cancelamento. Caramba, o Procon sabe disso?

Uns quinze dias depois o telefone fixo toca. Era uma funcionária do jornal querendo saber toda a história de novo, porque eu queria cancelar a assinatura, o que eu não gostava, que era um absurdo ficar sem o Globo e disparou um falatório atordoante, de onde, às vezes, ouvia coisas como “temos 97 colunistas”, “somos o melhor jornal do Rio e do Brasil”.

Mandei a moça parar e disse que aquilo que ela estava fazendo era assédio e que se não mudasse sua postura, eu ia gravar o restante da ligação e dar queixa dela e do jornal no órgão de defesa do consumidor mais próximo. Nossa, a jovem ficou furiosa e, para manter minha sanidade, avisei que esperava que aquela fosse a última ligação para mim. E bati o telefone, sem dó!

Ontem o fixo tocou novamente. Era outra pessoa querendo conversar comigo sobre minha assinatura. Respirei fundo pedi desculpas e dispensei, claro, paciência tem limites. Sou de uma geração que cresceu sem a presença do O Globo em casa. Meu pai lia o Correio da Manhã e o Jornal do Brasil. Várias vezes comentava que o jornal do Roberto Marinho não passava de uma Tribuna da Imprensa (que ele odiava) com roupa de noite. Vale registrar que a oferta de jornais nos anos 50 era grande, para todos os gostos, ideologias e até times de futebol.

A linha editorial do jornal mudou radicalmente após a morte do seu fundador, o Roberto Marinho. Nos últimos anos, gente com opiniões estranhas ou desconhecedores da realidade do Rio foram importados de sabe-se lá de onde e com qual critério. O pior mesmo, no entanto, são alguns editoriais, na linha do quanto pior,melhor ou apontando o dedo acusador para o desafeto da vez. Mas isso nem seria um problema. Já questionar meu direito de encerrar minha assinatura, é sim! Enfim, vida que segue, a assinatura está cancelada.

Ou não?

A tempestade atípica

Reprodução: redes sociais

Mais uma tempestade provoca o caos no Rio, deixando desta vez um saldo macabro de dez mortes. Nem sei se tenho alguma coisa a mais para comentar depois de assistir aqui de Nova Friburgo um filme muito antigo: desde sempre chuvas caem forte na cidade no início do ano e, infelizmente, também desde sempre os cariocas nunca estão preparados para reagir.

Minha primeira inundação carioca foi a de 9 de janeiro de 1966, há 53 anos. Tinha 15 anos e fiquei aturdido com os números e a proporção da tragédia: 250 mortos, 1.000 feridos e mais de 50 mil desabrigados. Aulas, trabalhos, transportes, tudo parou. Faltava água, a luz era racionada algumas horas durante o dia e em todos os rostos se via a mesma dúvida: como permitimos tamanha tragédia?

Quem mais sofreu foi a população pobre, moradora de favelas, mangues, beira de rios e até mesmo do mar. Não existiam sirenes, defesa civil, previsão regional do tempo, um centro de operações de crise sequer. O rosto cruel do Rio de Janeiro, a desordem urbana, tinha colocado seu rosto de vez para quem quisesse (ou não) vê-la. Um horror.

Pois é. O tempo passou, outras chuvas levaram vidas, a cidade se conformou (outra característica imperdoável) que seria sempre assim, eram as chuvas de março fechando o verão, uma glamurização absurda de uma situação perfeitamente contornável se tivéssemos juízo e um mínimo senso de civilidade. Mas como, se acreditamos piamente que todo o carioca é descolado, malandro, “experto”? Vão perguntar para os bombeiros se eles são descolados?

Essa segunda tempestade de 2019 como sempre deixou um número enorme de desabrigados, destruiu ruas, casas, praças, escolas, inundou hospitais, fábricas e, entre outras desgraças, derrubou um novo trecho da caríssima ciclovia que o Eduardo Paes fez na Av. Niemeyer, pode ser chamada de tudo menos de “atípica”, como teve a cara de pau de afirmar o atual prefeito, Sua Excelência (?) o Bispo Marcelo Crivella.

É claro que a culpa não é só dele. O problema se agrava quando o estado (e a sociedade) não veem o crescimento urbano desordenado, a ocupação irregular do solo, a destruição de matas e o despejo do lixo nos rios, arroios e mananciais. Algum prefeito tomou alguma medida concreta nos últimos, sei lá, 50 anos? É evidente que não! Prefeito gosta é de inaugurar praças, parques, aparelhos de ginśtica, tudo perfumaria. Obras de saneamento, de retificação dos cursos dos rios, contenção de encostas e sistemas de alerta e prevenção de enchentes e desabamentos nem pensar. Ninguém vê. Não dá voto!

E isso, infelizmente, vale para qualquer cidade, inclusive minha querida Nova Friburgo, outra vítima dessa política canalha, que troca votos por brinquedos, como se todos os eleitores fossem aculturados ou débeis mentais. Não, meus caros, a tragédia “atípica” só vai ter fim quando mudarmos nossa mentalidade, cobrarmos, participarmos e, principalmente, pararmos de acreditar que nosso futuro é um carguinho na prefeitura da vez.

Hoje, somos todos irresponsáveis!

Saúde!

 

copacabana 1940

Esse ‘causo’ aconteceu no longínquo e perdido ano de 2015, lá na ex-cidade maravilhosa.

Caminhada no final da tarde na praia, na direção do Posto Seis. Domingo, uma multidão saindo da areia na direção das estações do Metrô e pontos de ônibus e uma outra chegando para tomar um vento e ver as modas, como se falava antigamente, cruzavam animadamente o calçadão, mal dando espaço para andar. E não é figura de linguagem não!

Segurei a mão da minha mulher e lá fomos nós seguindo o fluxo que ia para o sul e desviando do contra fluxo rumo norte. Foi quando meu nariz começou a coçar. Aliás, quem tem rinite sabe o que estou falando. Sem dar tempo sequer de fungar, soltei um espirro de alívio, em alto e bom som que, como efeito colateral, assustou quem ia e vinha pela via. Minha mulher me olhou muito séria, com os olhos arregalados:

– Cara, que susto que você me deu! Precisava espirrar tão alto? Você tremeu tanto que pensei que tinha sido atingindo por uma bala perdida! Não faça mais isso, todo mundo se assustou. Só esse ano mais de 36 pessoas já foram atingidas por balas perdidas e dois casos foram aqui em Copa. Toma juízo!

Para meu espanto, uma pequena roda se abrira e as pessoas, me olhando com curiosidade, pareciam concordar com a bronca. Tá bom, espirrei alto, talvez herança dos espirros escandalosos que meu pai dava, sempre no meio da rua, que me levavam às gargalhadas. Só esqueci que isso foi há mais de 50 anos, quando o Rio ainda era uma cidade risonha e franca, sem balas perdidas, por óbvio.

Bons tempos.

 

Sem saída

Foto: Carlos Emerson Jr.

O Rio de Janeiro não é uma cidade maravilhosa, é uma paisagem maravilhosa para uma cidade” (Elizabeth Bishop)

Até quando vamos nos iludir? Quantas vidas mais a cidade levará para alimentar suas mazelas, sua malandragem, sua incivilidade? Que me perdoem os cariocas – meus conterrâneos – mas grupo de extermínio agindo em pleno centro,nas barbas das tropas do Exército, é o fim do mundo. Aliás, o fim de uma cidade que um dia foi cantada como a maravilhosa. Perdeu a graça, o viço, o senso e o amor de seus filhos. Sinceramente? Não acredito mais em alguma saída.

Que pelo menos identifiquem, prendam e punam os responsáveis pelo bárbaro assassinato no Estácio, sejam eles quem forem, estejam onde estiverem, tenham o nome que for. Já toleramos facções do tráfico, milícias, corruptos, assaltantes, pivetes e canalhas de todos os estirpes, engravatados ou não. Permitir a ação impune de grupos de extermínios é acabar com o pouco de ar que ainda se respira no Rio, concordar com o assassinato de qualquer um que incomode os donos do poder. É deletar a democracia. É voltar para o tempo dos coronéis.

Meus pêsames e desculpas aos amigos e familiares de Marielle Franco. Meus pêsames à população carioca.

A ponta da baioneta

Sentiu alguma coisa espetando suas costas com força. Tentou se afastar mas o incômodo persistiu, empurrando-o para a frente. Deu um impulso, girou o corpo para trás e, com horror e espanto, viu a baioneta, brilhante e mortal, cortando o ar em sua direção. O movimento seguinte foi rápido e nebuloso. Com o abdômen aberto, de uma ponta a outra, ajoelhou no chão. Curiosamente, não sentia dor. A visão turvou, uma fraqueza enorme fez seu corpo desabar de vez. Só conseguiu balbuciar a clássica expressão:

– O que foi que eu fiz?

Pois é… O assunto é sério e nosso personagem poderia muito bem ter sido vítima de uma baioneta perdida, principalmente se ele estivesse em um campo de batalha da Primeira Guerra Mundial, nas Guerras Napoleônicas ou até mesmo na Guerra do Paraguai. No calor da luta, no meio da soldadesca, ninguém tem sangue frio suficiente para procurar o inimigo. Ou racionalidade.

Até onde sei, hoje em dia nenhum exército faz a famosa “carga de baionetas”, aquele ataque – geralmente desesperado – onde a tropa avança destemidamente em direção ao inimigo, com as baionetas em riste na ponta dos fuzis, prontas para cortar o pescoço de quem aparecer pela frente. Uma carnificina que só os filmes de guerra antigos adoravam!

Mas os tempos mudaram, não é mesmo? As guerras modernas estão cada vez mais tecnológicas, dependendo de drones, mísseis inteligentes, satélites, blindados robôs, miras laser e mais uma infinidade de aparatos que, com certeza, ainda nem ouvimos falar. É claro que estou pensando nos países do primeiro mundo, donos de arsenais poderosos o suficiente para destruir a vida no planeta em questão de horas. Ou menos!

Bom, toda essa introdução (o quê, ainda vem texto por aí?) serve para mostrar a que ponto chegamos na mui heroica e leal cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Não estamos mais em guerra com o Paraguai, o Uruguai conseguiu sua independência e a Argentina perdeu o interesse nas provocações. Aliás, chegamos a um ponto tal que ninguém sequer pensa em perder tempo, dinheiro e vidas declarando guerra ao Brasil.

Não, nossa guerra é mais cruel, é interna. E nem é uma guerra civil, como a espanhola na década de 30 ou angolana, que durou de 1975 até 2002. No Rio, onde a situação está completamente fora de controle, sequer as forças armadas são respeitadas. A bandidagem, muito bem armada e orientada, parece ter um serviço de inteligência melhor do que o da polícia. Aliás, a fuga da favela da Rocinha do inimigo público número 1 da vez, furando um cerco feito pelas forças armadas e PM foi simplesmente uma vergonha. Será que já estão apurando quem “ajudou”?

Duvido.

Quem sofre com essa “guerra” é, sem dúvida, a população. Toda ela. A morte da turista espanhola chocou o mundo e, não duvidem, manchou indelevelmente a imagem já muito manchada da cidade. O assassinato do coronel comandante do 3º batalhão da polícia militar, em plena rua Hermengarda, no Méier, com 17 tiros, em plena manhã de uma quinta-feira, foi de um absurdo tão grande que me deu a sensação de estar em Aleppo, no meio de um daqueles combates ferozes. Ah, tá, lá a guerra é civil, aqui não.

A lista de mortes revoltantes, que era mensal, agora é diária. A população se retrai e se defende como pode, mudando horários, hábitos ou indo embora da cidade. O que vejo, sinto e acredito é que a guerra contra o tráfico foi perdida e nem foi hoje. Foi perdida quando favelas se expandiram e simplesmente fizemos cara de paisagem. Foi perdida quando trocamos saneamento básico por teleféricos. Quando glamorizamos a miséria como parte da “cultura carioca”. Quando colocamos serviços de gás, luz, telefone, internet e transporte público nas mãos de milicianos e traficantes. Quando esquecemos da educação e da saúde. E por aí vai.

Há quantos anos se combate o tráfico? Segundo a própria Polícia Militar, desde o final dos anos 70. Quarenta e muitos anos depois, milhares de vidas perdidas, milhões (ou bilhões) de reais torrados e nosso futuro jogado no lixo. Caramba, quem está lucrando com essa batalha interminável, cruel, sem sentido, sem bandeiras? Ainda não sabemos sequer quem compra e fornece drogas e o armamento pesado para a bandidagem. Ou será que, simplesmente, não ousamos (ou podemos) falar?

Enfim, chegamos a um ponto que a luta é por território, dinheiro. Gente muito poderosa está por trás dessa “indústria”, gente do topo da pirâmide. Ganha muito, com certeza. Li em algum lugar que com a derrocada das Farcs colombianas, a exportação da droga para os Estados Unidos e Europa está se fazendo pelo Brasil. Com um substancial aumento dos lucros, é óbvio. Gente, fico imaginando os valores que uma “Lava-Jato” do tráfico não revelaria. Os nomes. As empresas. As ONGs. Os militares. A justiça. A mídia. O executivo, o legislativo, a puta que pariu!

A ponta da baioneta está espetada nas costas da população, seja de que classe social for (balas perdidas não escolhem rostos). Temos plena noção de que tudo está errado mas ficamos em silêncio, inertes, paralisados pelo medo. Durante uma carga de baioneta, podemos correr, lutar, talvez até nos render. O problema é que a guerra do Rio não tem regras e todos somos alemães, inimigos de qualquer um. Que pena. Qualquer dia desses o Rio acaba. Ou se transforma em uma Faixa de Gaza tropical…

A cidade engana

enseada de botafogo
Foto: Carlos Emerson Junior

 

Vista assim, de longe, a cidade engana. Ou melhor, esse ângulo exuberante irremediavelmente nos leva para longe da realidade. Cidades podem ser maravilhosas em prosa e versos, em fotos e filmes. No entanto, será que resistem a um olhar bem atento? Um avião em baixa altitude sobrevoando quatro bairros residenciais antes de pousar, rugindo suas turbinas sem o menor pudor. As águas imundas e fétidas da enseada tão bonita. A crescente e desamparada população de rua, usando barcos abandonados e barracas nas praias para morar. A insegurança sempre presente, em qualquer lugar e a qualquer hora. Os ladrões que tomaram o poder e levaram tudo o que quiseram e puderam. Ah, meus caros, a cidade engana e como. E nós, reféns de lembranças de tempos melhores, apenas olhamos e murmuramos: pois é…

Foto: Cejunior

Canal do Mangue

Foto: Carlos Emerson Junior

As cidades tem seus recantos e encantos, mesmo quando cabem apenas na lente de um smartphone. Ou até mesmo quando você erra a regulagem, treme ou pisca e a imagem mostra alguma coisa que você não viu, mas algum dia imaginou. Pois é, essas árvores (sempre elas) estão na Avenida Francisco Bicalho, no centro do Rio, margeando o mal afamado e mal cheiroso Canal do Mangue. A luz da tarde de outono ajuda a compor ou talvez sonhar com uma cidade civilizada.

Bobagem, não é mesmo?

Assalto!

A carioca termina o plantão no centro cirúrgico de um hospital na Baixada Fluminense, no domingo, já bem noitinha. Ela mesma, recém saída de uma cirurgia, não pode guiar, mas conta com a ajuda inestimável do namorado, já a postos no estacionamento. O trajeto para casa é simples, trânsito bom, ruas vazias, todo mundo em casa vendo o Fantástico.

Todo mundo não. No meio do caminho, ou melhor, na entrada da Avenida Brasil, um automóvel toma a frente e para repentinamente, fechando o trânsito. De dentro saem quatro homens empunhando fuzis de assalto e mandam o casal entregar o carro, carteira, bolsa e celulares. Um deles toma a direção e desaparecem na escuridão, na direção da zona norte.

Os dois, atônitos, correm para uma birosca próxima. Uma patrulha da PM se aproxima, mas os policiais saem disparam a pé pela avenida para impedir um outro assalto alguns metros atrás. Uma jovem, penalizada, encosta seu carro e os leva até a delegacia de Ricardo de Albuquerque, onde conseguem registrar a queixa e avisar a família. Na atual conjuntura do Rio, todos respiram aliviados: estão inteiros, vivos.

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Pois é, a narrativa acima infelizmente não é ficção, aconteceu com minha filha mais velha no domingo passado. Estavamos entrando em casa, por volta das dez da noite quando recebemos sua ligação, pedindo que acionássemos a seguradora. Um susto enorme, sensação de impotência e alívio foram os sentimentos mais fortes. Como assim, nossa filha virou estatística?

Já tem algum tempo que parei de me iludir e deixei de acreditar que o Rio de Janeiro tem alguma saída. Não tem, meus caros, a cidade foi perdida pelo estado. Áreas enormes, geralmente encravadas em favelas, pertencem à bandidagem e ali ninguém entra. A prefeitura finge que governa, o governo do estado finge que dá segurança, o governo federal faz cara de paisagem e a população, acuada, tenta dar um “jeitinho” para conviver diante de descalabro, abandono e violência.

Não vou analisar as causas da violência. A situação chegou a um ponto que, todo santo dia um especialista na mídia explica suas causas. Não vou culpar A, B ou C por esse estado de coisas. Qualquer carioca sabe muito bem quem são os responsáveis, por ação e omissão. Não vou criticar a pobreza, educação, a justiça, a democracia, o capitalismo, o universo ou os deuses. Pura perda de tempo, ninguém liga.

Mas um belo dia, vamos perceber que estamos pagando impostos e pedágios para os bandidos e não mais às autoridades constituídas. Corremos o risco de virar uma cidade sem lei, bairros cercados por muros blindados, controlada por milícias, isolada do resto do Brasil e do Estado do Rio, ocupada por tropas e em permanente estado de guerra.

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Meu muito obrigado a todos que foram solidários com minha filha e seu namorado. Vocês são uma luz nessa escuridão que tomou conta do Rio de Janeiro.

Figueiredo com Copacabana

Atravessou a Avenida Copacabana apesar do sinal fechado, fora da faixa de pedestres, desviando de carros, ônibus e caminhões a medida que avançavam. Chegou, sabe-se lá como, do outro lado, subiu na calçada, parou, respirou fundo e foi atropelado sem dó por uma bicicleta de entregas, caindo junto com o ciclista pesadamente no chão. Pensa que o entregador ajudou? Que nada, xingou o coitado de tudo o que é nome, arrumou a magrela e seguiu em frente. Os pedestres, nem um pouco solidários, olhavam de lado, certamente considerando um absurdo um sujeito cruzar a avenida daquela forma e não prestar a atenção em uma reles bicicleta.

Revoltado, dolorido e humilhado, lembrou que tinha horário na clínica e estava atrasado. Levantou e foi correndo até a esquina da Figueiredo de Magalhães. Já tinha colocado o pé no asfalto para repetir a façanha de minutos atrás, mas o juízo falou mais alto e resolveu esperar o sinal verde. Ficou ali, quieto, olhando para os carros que não paravam de passar. De repente, o sinal abriu. Checou a ciclovia e, pela faixa de pedestres, disparou para o outro lado da rua. Nem chegou na metade. Foi atingido em cheio por uma viatura de uma repartição do governo do estado que, achando-se uma autoridade, resolveu passar no sinal fechado. Deu sorte! Logo atrás vinha uma ambulância dos bombeiros que parou para prestar os primeiros socorros. Tirando a perna quebrada e a consulta perdida, até que ficou barato. Decididamente não era seu dia.

Fazer o quê, não é mesmo?

Bondes

Foto: Carlheinz Hahmann

“No depósito da CTC, em Triagem, o funcionário vem com um galão de gasolina, espalha o combustível sobre os bancos de madeira do bonde e risca um fósforo. Em minutos, um inferno de labaredas devora toda a peroba do campo que formava a estrutura do veículo, deixando no chão apenas cinzas e partes metálicas enegrecidas.

A cena brutal, de desperdício ímpar, aconteceu ao longo de 1964 e 1965, os últimos dois anos de Carlos Lacerda como governador da Guanabara. O sistema de bondes do Rio, que já fora considerado pioneiro e um dos maiores do mundo, vinha sendo desativado desde o início daquela década. Antes operada por empresas privadas como a Light, a Cia. Ferro-Carril do Jardim Botânico e a Ferro-Carril Carioca, a rede passara ao controle do estado. Vistos como um entrave para o trânsito e o progresso, os velhos veículos foram aposentados na marra após seis décadas de serviços prestados. A ordem era substituí-los por uma frota de trolley-bus — ônibus elétricos importados da Itália — e, paulatinamente, sepultar seus trilhos sob mantas de asfalto. (O Globo, 8/6/2016)

oOo

O que veio depois é história. O ônibus elétrico foi um fiasco e, para não jogar mais dinheiro no lixo, acabaram adaptados para rodar com motores diesel convencionais, outra burrada. Depois dessa mixórdia os antigos lotações viraram empresas de ônibus, dividiram a cidade entre si, as prefeituras se omitiram ou coisa pior e, voilá, o Rio de Janeiro hoje tem um dos piores serviços de transporte público do mundo. E não é exagero, não, qualquer carioca aplaudiria minhas palavras de pé!

A nostálgica matéria do jornalista Jason Vogel, “Antigos bondes do Rio de Janeiro rodam nos Estados Unidos”, publicado no O Globo de hoje, conta a odisséia de alguns dos 12 sobreviventes do incêndio patrocinado pela diretoria da extinta empresa estatal CTC-GB que, de uma vez só, consumiu toda a frota. Enquanto lá fora esses bondes, em excelente estado de conservação e alguns com mais de 100 anos, ainda circulam em cidades, parques e museus ferroviários, aqui no Rio não restou um único exemplar para mostrarmos aos nossos netos.

Como sempre, por estupidez, arrogância, pouco caso ou má fé, colocamos fogo em nossa própria História…

Carioquices

 

Parece mentira, mas o ônibus que encostou no ponto era um daqueles novos, raríssimos, com piso baixo, motor traseiro, rampa para deficientes, suspensão pneumática, ar condicionado e, pasmem, motorista e cobrador educadíssimos. Não, não é pegadinha de primeiro de abril coisa nenhuma, acabou de acontecer.

No primeiro ponto de Ipanema uma senhora muito elegante faz sinal. O coletivo para, encosta, abre as portas, ela entra e com um enorme sorriso agradece:

– Ainda bem que o senhor veio com esse ônibus sem degraus. Meu vestido é muito justo para subir as escadas de um carro comum. Valeu!

Aí olhei, claro. Aliás, não só eu mas também os passageiros, o motorista e até a cobradora. Muito distinta, realmente usava uma roupa justa (com bom gosto e na medida certa) que realçava seu perfil esguio, completamente incompatível com os busões montados em chassis de caminhões, padrão aqui no Rio.

O motorista sorriu e só arrancou quando a passageira sentou. Pois é, como dizia o profeta, “gentileza gera gentileza”.

oOo

Tinha que ir do local A para o local B. Pensou em pegar uma condução mas a manhã estava tão agradável, um ventinho de sudoeste dando um refresco no mormaço que resolveu ir a pé mesmo, pela praia. Dito e feito, dobrou a primeira rua à direita e se mandou para o calçadão.

– Good morning, sir. There would be interested in doing a stand up paddle? The day may be gray but the sea is great. Uau, rimei em english!

Olhou desconfiado para os lados e percebeu que era com ele mesmo. Como assim?

– Oi, cara. Obrigado mas no mar eu prefiro é nadar mesmo. Ah, e não precisa gastar o inglês, somos conterrâneos.

– Caramba, é mesmo, desculpe, pensei mesmo que fosse turista. Deve ser sua roupa, parece coisa de gringo.

– Roupa de gringo? Só porque estou de bermudão florido, havaianas e camiseta de marca? Ô meu, estou trabalhando, acabei de sair de uma reunião e estou indo para outra. Isso aqui é roupa social, cara!

– Pensando bem, faz sentido. Pior sou eu que estou aqui, na areia, trabalhando só de de calção… Bom, tudo bem, quando quiser dar umas remadas, estamos às ordens. Boa reunião.

– Tá anotado. Bom trabalho prá você também!

oOo

Todo o dia é a mesma coisa. Basta parar no sinal fechado ali da Duvivier que o cidadão desprovido de bens não perde tempo e chega choramingando:

– Ô dotô, tô com fome, me arranja um dinheirinho prá comer.

– Eu não sou “dotô” e só tenho 4 reais no bolso prá pegar o ônibus. Não dá prá ajudar.

– Puxa vida dotô, o senhor só anda duro, qualquer hora dessas vou perder o ponto pro senhor.

– Mas você é abusado, heim? E o que posso fazer por você? Dinheiro eu não tenho e nem adianta pedir cigarro, não fumo.

– Celular velho! Será que o senhor não teria um prá me arrumar? Aí eu vendo e de repente consigo até uma comida decente.

– Celular, né? Bom, tem um encostado em casa. Tiro o chip e amanhã trago prá você.

– Vai tirar o chip? Faz isso não, dotô, deixa o chip e coloca um cinquentinha de crédito. Assim eu aproveito para fazer umas ligações pros parentes e resolver umas paradas aí.

– Celular, chip e recarga. Não está precisando de uma secretária para fazer as ligações?

– Bom, se o dotô quiser ir pro céu direto, pode mandar a moça. Mas tem que ser novinha e bonita, combinado?

Foto: Carlos Emerson Jr.

Passeando

A gente sai com a cachorra para passear. Atravessa a rua, faz uma paradinha para o xixi no canteiro do prédio da frente, entra na rua onde montam a feira aos domingos, passa em frente a casa do labrador velhinho, que nem liga mais para quem perturba seu sono e, de repente, dá de cara com um jardim, atrás das grades (estamos no Rio de Janeiro, uai!) de uma bela casa, com essa delicadeza em sua entrada que me remete ao interior.

Se bem que, de uma certa forma, a Urca é uma espécie de interior, não é mesmo?

Escadaria Selarón

Em 1990, o artista plástico Jorge Selarón começou a revestir a escadaria que leva ao convento de Santa Teresa com um mosaico de ladrilhos de cerâmica nas cores verde, amarela, azul e branca. São 215 degraus ao longo de 125m, cobertos pelo chileno às custas do dinheiro de seu próprio bolso, o qual arrecadava por meio da venda de quadros.

A escadaria de 215 degraus e 125 metros de comprimento, ligando os bairros boêmios da Lapa e Santa Tereza, no Rio de Janeiro, foi tombada pela prefeitura em 2005. Vale o passeio e informações úteis podem ser encontradas no site da Secretaria Estadual de Cultura.

Fotos: Carlos Emerson Jr.

Pedras Portuguesas

Publicado no Overmundo

O pessoal mais antigo conhece: esse desenho da calçada da Rua Barão de Ipanema, em Copacabana, é, ou era, a cara do bairro e estava presente em todas as ruas internas, inclusive na avenida N.S. de Copacabana e rua Barata Ribeiro. As famosas ondas só na praia, tanto as de verdade, como as de pedras portuguesas.

Além de dar uma cara para cidade, uniformizando seu tipo de piso, o calçamento com pedras portuguesas é robusto, durável e sustentável, já que as pedrinhas podem ser reutilizadas. E tem mais: é fácil de lavar e absorve com facilidade as águas das chuvas. Numa cidade como o Rio, isso é fundamental.

O grande problema mesmo é a falta de conservação. Tirando o calçadão da orla, projetado por Burle Marx , considerado o maior mosaico do mundo e devidamente tombado pelo patrimônio histórico e cultural, as calçadas nas ruas internas são de responsabilidade dos moradores. E nem sempre encontramos condomínios cuidadosos como o da foto.

Para piorar, lentamente as pedrinhas são trocadas por cimento, destruídas pelo estacionamento de carros nas calçadas (um péssimo hábito carioca) e desfiguradas por jardineiras, jardins e fradinhos, instalados para impedir justamente que automóveis parem sobre as calçadas!

A prefeitura se defende alegando que falta de calceteiros, o profissional especializado nesse tipo de serviço. E justifica o uso do cimento para melhorar a segurança dos idosos. Sei não, quem já esteve em Lisboa sabe que suas calçadas de pedras portuguesas parecem um tapete. Será que não temos capacidade de formar esses profissionais ou simplesmente estamos nos nivelando por baixo, como tudo neste Brasil?

Mas mesmo lá na terrinha a situação não está nada boa. A Assembleia Municipal de Lisboa aprovou o Plano de Acessibilidade Pedonal prevendo, entre outras medidas, a substituição das calçadas portuguesas (como são chamadas por lá) por um piso mais seguro e confortável, até 2017. O assunto é polêmico, mas parece ser irreversível.

A identidade cultural de uma cidade passa pelo seu mobiliário urbano. As pedras portuguesas são a nossa herança lusófona, um cartão postal do Rio, reconhecido no mundo inteiro. Não dá para abrir mão desse patrimônio. Ou esquecer que ele está sempre lá.

Foto: Carlos Emerson Junior