Era uma vez uma tartaruga

Ah, minha querida tartaruga, você não merecia isso. Logo agora, na véspera de um dos maiores eventos do planeta, quando todos os olhares estarão voltados para a cidade do Rio de Janeiro, você se enroscou numa rede de pesca, encalhou nas pedras do paredão da Urca, a maré baixou e, sem saída e socorro, morreu.

Pois é, eu sei que sua família vive nessas águas imundas da Baia da Guanabara há mais de 110 milhões de anos. Reconheço que um dos motivos da ameaça de extinção de sua espécie é o lixo que, sem nenhum pudor descartamos de qualquer maneira em nossos rios e esgotos, envenenando sua alimentação.

Adianta pedir desculpas? Ontem, quando encontrei seu corpo inerte, fui tomado por um grande sentimento de culpa, dor e impotência, da mesma maneira como todas as outras pessoas que ali passavam e viam a cena.

Hoje, voltei lá e seu corpo já havia sido removido. No entanto, como a a imbecilidade humana não tem limites, o mar, desta vez, estava todo manchado de óleo combustível, derramado de algum navio ou barco que navegou pelas imediações. Mais mortes à vista.

Tartarugas, gofinhos, cavalos-marinhos, peixes de todas as espécies, criaturas do mar, perdão. A Baia era de vocês e tanto fizemos que o paraíso virou uma imensa lixeira que mais cedo ou mais tarde vai acabar com nós mesmos, bípedes irracionais, irresponsáveis e irremediavelmente sem nenhum futuro.

oOo

Leia mais sobre as tartarugas:
Sea Shepherd Brasil
Projeto Aruanã
Projeto Tamar
Instituto de Arquitetos do Brasil

A sujeira da Baía

“A cada nova informação sobre providências do governo do estado para limpar a Baía de Guanabara com vistas às regatas olímpicas, cresce o temor de o Rio passar vergonha no ano que vem.

Sabe-se agora que, a pouco mais de 500 dias dos Jogos, será usado um programa de computador holandês a fim de despachar os barcos de limpeza para os locais exatos de concentração de lixo. Como se fosse algo milagroso.

Mais uma medida paliativa, pois a principal causa da poluição – a falta do saneamento básico nos municípios do entorno da Baía – continua intocada.”

oOo

Desta vez bato palmas, assino embaixo e trago para cá o pequeno e contundente editorial “Paliativo”, publicado na edição impressa de hoje, 13/3, do jornalão carioca O Globo.

Aliás, desde 1994, quando o governo japonês, de boa fé, colocou uma fortuna no programa de despoluição, já foram gastos mais de um bilhão de reais para nada.

O jornal tem razão, querem que acreditemos que erradicamos a miséria enquanto não conseguem (ou não querem) resolver os problemas crônicos de saneamento em sete municípios (inclusive a capital) do segundo estado mais rico da federação.

Será que algum dia teremos uma “Operação Lava-Jato” para apurar essa vergonha?