Deu no New York Times

Bom dia!

O editorial do NYT de hoje, traduzido e transcrito abaixo, é curto e grosso, apontando a irresponsabilidade,de uma elite política que só se preocupa com o povo na época de pedir seus votos. O castigo veio a cavalo, afinal o coronavírus não tem nada a ver com isso e uma quantidade enorme de participantes da festa está doente, inclusive o presidente dos Estados Unidos.

Parece até o nosso país, não é mesmo? O que os idiotas esquecem é que as vacinas ainda não estão prontas, os remédios são paliativos e sequer se sabe se quem já foi infectado está imune ao vírus. É claro que a quarentena não pode durar para sempre mas a abertura teve tudo menos critério científico e responsabilidade. Infelizmente as eleições de novembro estão aí e governadores, prefeitos e gente que não está nem aí para a saúde pública, agem às cegas, de olho apenas em sua votação. Aliás, a próprio evento em plena pandemia é simplesmente uma lástima!

Enfim, continuem evitando aglomerações, usem sempre a máscara e uma tenham uma ótima semana. Que Deus os abençoe.

Carlos Emerson Junior

oOo

Os sacrifícios de muitos

Por David Leonhardt (The New York Times)

Foto: Alex Brandon (Associated Press)

Milhões de americanos passaram meses sem ver alguns de seus parentes mais próximos ou seus colegas. Eles cancelaram casamentos e formaturas. Eles disseram adeus aos entes queridos moribundos por telefone.

Mas quando muitos dos líderes políticos do país se reuniram na Casa Branca há nove dias para comemorar a nomeação de Amy Coney Barrett para a Suprema Corte, eles decidiram que as regras da pandemia que se aplicavam a todos os outros não se aplicavam a eles.

Alguns deles presumiram, erroneamente , que, por terem recebido um teste de vírus de resposta rápida ao chegar à Casa Branca, não podiam ser infecciosos. Outros simplesmente optaram por não pensar no vírus, ao que parece. Em vez disso, dezenas deles estavam sentados, sem máscara, a centímetros um do outro . Eles apertaram as mãos, se abraçaram e se beijaram. Depois de começar ao ar livre, o evento mudou para um ambiente interno, onde os participantes continuaram a comemorar como se fosse 2019.

Agora há motivos para acreditar que a reunião foi um evento super-disseminador do coronavírus. O presidente e a primeira-dama estão doentes, assim como dois senadores presentes, um ex-governador, o presidente da Universidade de Notre Dame e vários funcionários da Casa Branca, jornalistas e outros.

E qualquer pessoa infectada na Casa Branca naquele dia pode ter infectado outras pessoas posteriormente.

Andrew Joseph, da publicação de saúde Stat escreveu neste fim de semana que o evento na Casa Branca “oferece um estudo de caso no que os especialistas dizem ter sido a imprudência do governo”. O Times compilou fotos do evento, com etiquetas que identificam muitos dos participantes .

Rebecca Ruiz do Mashable tuitou , em resposta a uma foto da recepção interna para Barrett: “Eu não abracei meus pais desde 8 de março e eles não abraçaram seus netos desde então. Eu queria desesperadamente dar as mãos ao avô no aniversário dela e eu disse não, não podemos correr esse risco. ”

David French, do site conservador The Dispatch, escreveu : “Que contraste impressionante com a maneira como tantos milhões de americanos viveram suas vidas”.

Talvez a resposta mais pungente veio do presidente da Notre Dame, o reverendo John Jenkins. Nesta primavera, Jenkins argumentou que as faculdades tinham a obrigação moral de reabrir , para o bem do “corpo, mente e espírito” de seus alunos. Mas Notre Dame faria isso com cuidado, ele prometeu. Quando alguns alunos violaram as regras do campus dando festas – sem máscaras ou distanciamento social – e um surto de vírus se seguiu, Jenkins cancelou as aulas presenciais por duas semanas como punição e precaução.

No início da semana passada, antes mesmo de ficar claro que a Casa Branca ajudou a espalhar o vírus, Jenkins escreveu uma carta à comunidade de Notre Dame expressando pesar por seu comportamento ali. “Não consegui dar o exemplo, em uma época em que pedi a todos os outros membros da comunidade Notre Dame que o fizessem”, escreveu ele. “Lamento especialmente meu erro à luz dos sacrifícios feitos diariamente por muitos.”

(Publicado na edição de hoje da Newsletters “Morning”, do The New York Times).

Dois mil e vinte, o ano que nunca começou

Foto: Carlos Emerson

Trinta e um de dezembro de dois mil e dezenove. Toda a mídia, praticamente sem exceção, divulga as famosas previsões de astrólogos, videntes, cartomantes, tarólogos, religiosos, cientistas, analistas políticos, economistas, atores, músicos e celebridades diversas sobre o ano que está chegando. Vamos lembrar algumas?

“Para a carreira, as previsões para 2020 são muito boas. Tudo indica que no próximo ano aumentarão as oportunidades de trabalho”.
“Será um ótimo ano para colocar em projetos e planos em prática, muitas pessoas terão iniciativas.”
“O passaporte brasileiro será um dos mais cobiçados, e falando nisso, acordos bilaterais vão reduzir a necessidade de visto para vários países”.
“Sites de fofoca vão bombar: a tendência é haver traições e separações envolvendo artistas e poderosos em geral”.

Pois é, os sites de fofoca realmente estão com a bola cheia mas em compensação o mundo inteiro parou completamente por causa de um “resfriadinho” que ninguém previu. Que coisa! Janeiro e fevereiro ainda rolaram numa boa, sol, praia, carnaval, uma festa, apesar dos alertas da OMS e até mesmo do Ministério da Saúde, dando conta que havia alguma coisa estranha no ar. Literalmente.

Em março, diante do crescimento descontrolado do número de casos e mortes, os governos do planeta, impotentes, resolveram fazer a única coisa a seu alcance naquele momento: parar o mundo. E assim foi feito. O tempo foi passando, o vírus estudado, dissecado e, possivelmente transmutado reduziu a “poderosa” civilização do século XXI, quase oito bilhões de pessoas, a meros prisioneiros trancados em suas casas, tentando sobreviver da maneira o menos pior possível.

O resto é história e para ser honesto, tenho que registrar que as guerras pararam, o trânsito melhorou, o ar das cidades melhorou, a maneira de trabalhar mudou e a internet, ao contrário do que previram os filmes do James Cameron (lembram da Skynet?), salvou vidas, empregos e a educação de nossas crianças e jovens.

Pelo tempo que já vivi, não me iludo com essa de “dias melhores virão”. Moro no Estado do Rio e vi de perto o que a ganância, o desamor e a falta de vergonha na cara podem fazer. O caso dos sete hospitais de campanha usados para desviar dinheiro público em plena crise da saúde foi de uma canalhice sem igual. Roubar numa hora dessas deveria ser crime hediondo.

Mas vamos em frente e lentamente, assistindo pela janela as estações do ano passarem, apreciando as mudanças de cores das árvores da floresta que nos rodeia, os pássaros que vão e vem, as nuances dos diferentes céus de março até hoje, me dou conta que estamos no meio de setembro e o ano que não começou acaba daqui a 3 meses, com ou sem vírus, com ou sem vacinas.

Para mim, 2020 será o ano que descobri que tinha um câncer, fiz uma cirurgia e encarei uma quimioterapia em plena pandemia do Coronavírus. Não tenho a menor ideia do que virá pela frente mas, como sou brasileiro vou encarar numa boa. Afinal, se eu tivesse desistido, não estaria aqui escrevendo essa crônica!

PS: Mas decididamente, 2020 não existiu!

Carlos Emerson (setembro/2020)

Vírus Filho da Puta!

Shuterstock

Os números são terríveis: no mundo são 25.251.334 casos de Covid-19 e 846.841 mortes. O Brasil contribuiu até agora com 3.908.272 casos (15,47%) e 121.381 fatalidades (14,33%). Nosso desgovernado Estado do Rio tem 223.631 casos e 16.065 óbitos e Nova Friburgo, com 2.409 casos e 100 mortes, aparece lá embaixo mas com números preocupantes para uma cidade que não chega a ter 200 mil habitantes.

Enquanto isso assistimos, estupefatos, o afastamento de mais um governador, a prisão de dezenas de autoridades, políticos e empresários envolvidos em um revoltante e nojento caso de desvio de dinheiro da saúde, superfaturamento de hospitais, formação de quadrilhas, recebimento de propinas e diabo a quatro. Já são sete os chefes do governo fluminense presos, processados ou investigados e afastados por, digamos gentilmente, mal feitos.

Quem elegeu essa gentinha? Nós, é claro, que nos acostumamos a votar no menos pior, durante anos escolhemos representantes corruptos e inúteis para as casas legislativas, fechamos os olhos para os desmandos de pseudo autoridades desde que tenhamos carnaval, praia e futebol, não necessariamente nessa ordem; delegamos poderes da época do império a nulidades que não conseguem assinar o nome, não entendem o que ouvem e não sabem falar. Uma lástima!

Foto: Wilton Junior/ Estadão

A visão dantesca das fotos e vídeos das praias cariocas no último final de semana é de provocar engulhos. Estavam comemorando o fim da pandemia? A cura do vírus? O que esse povo tem na cabeça? Em quem essa gente confia? Acreditam mesmo nos irresponsáveis pela saúde pública? Na mídia partidária? No coelhinho da Páscoa? Ou seria no Papai Noel?

Dizem que os critérios para a flexibilização são técnicos mas como precisam atender a uma senhora com o sonoro nome de “Reeleição”, aceitam qualquer barbaridade que um aspone ou empresário buzine no ouvido da “Vossa Excelencia” da vez. Até hoje não entendo porque as eleições deste ano foram mantidas. Um desserviço para a população, quando bastava prorrogar os mandatos por uns seis meses ou até o vírus ser controlado, sei lá, usassem a criatividade!

E por falar nisso, a escolha dos prefeitos e vereadores deveria ser mais importante para o cidadão do que a do governador e até mesmo do presidente (com minúsculas, por favor). Um país continental como o nosso não pode depender de uma pequena e poderosa pseudo elite que se aboletou há anos no poder, independente de qualquer ideologia. O voto distrital seria uma boa? Talvez… Não por acaso, a turma de Brasília tem horror a essa ideia.

Desenho: Oscar Niemeyer
Vivemos um momento tão confuso que ninguém mais sabe quem manda em quem no Brasil e todo mundo, mas todo mundo mesmo é culpado por essa mixórdia, agravada pelo Coronavírus. Depois de todas as asneiras ditas e cometidas que nos levaram a uma tragédia, lembro do escritor israelense Eshkol Nevo que, em uma ótima crônica no jornal espanhol El País, afirma que “não está disposto a escutar mais ninguém dizendo que o vírus vai nos ensinar uma lição, e que vai nos fazer retornar a uma vida mais simples. O vírus é um filho da puta.”

No fundo, é isso aí mesmo: somos todos filhos da puta!

Carlos Emerson Junior (setembro/2020)

O caso dos doze comprimidos

Aconteceu comigo. Minto, ainda acontece e faço questão de contar. 

Infelizmente sabemos que tirando as curas milagrosas de Jesus, ainda não existe um meio eficaz de curar uma doença sem utilizar algum tipo de remédio, qualquer um, mesmo que seja um placebo! O pior é que dependendo da gravidade de seu estado, mais medicação será recomendada, com e apesar dos famosos “efeitos colaterais”. 

Ao contrário de muita gente boa, nunca fui muito “amigo” de pílulas, cápsulas, comprimidos, xaropes, poções, pomadas, cremes, sublinguais, injeções, supositórios e afins, não necessariamente nessa ordem. Acredito sim que temos grande dificuldade de aceitar que um algum dia deixaremos de ser eternamente jovens e receberemos a conta dos anos de descaso com nossa saúde física e mental.

Por alguma razão passei grande parte da vida praticamente incólume neste quesito: uma gripe aqui, outra dor de barriga ali, uma indisposição acolá e stress, esse sim, sempre. Nunca quebrei um ossinho e tampouco fui internado em um hospital. Mas, mesmo sem querer enxergar o óbvio, o tempo corre inexorável e tive que aprender a usar óculos e remédios diários para controlar a pressão arterial, ansiedade e dores de cabeça. 

Para resumir, hoje tomo exatos e obrigatórios doze comprimidos por dia: 7 da quimioterapia, 3 da hipertensão, um para a gastrite e é claro, um para  manter a sanidade num país completamente insano. Eventualmente tenho a postos um para dor nas costas, outro para regular o intestino, um colírio e um outro com um gosto horrível para azias. Deve ser por isso que sou tão bem recebidos nas farmácias. 

Mas o que me incomoda mesmo (e aí não tem remédio que cure) é o descaso com a saúde pública, em todos os níveis. A pandemia é cruel até por isso, ao expor de maneira crua e mortal a incompetência e a desonestidade das autoridades em todos os níveis, algumas incapazes de atitudes coerentes com a gravidade  do momento e outras mais preocupadas com o lucro de transações criminosas, imorais e escusas.

Enquanto isso, vamos driblando nossas próprias deficiências, tentando viver sem trabalho, saúde e o pior de tudo, sem nenhuma esperança de dias melhores. Meus doze comprimidos não tem culpa de nada e se Deus quiser vão me deixar curado. No entanto, com certeza, para mim serão sempre o símbolo de dias confusos, angustiantes e cheios de incertezas.  

Aprendemos alguma coisa? Tomara que sim, afinal seremos todos sobreviventes. E sinceramente, espero nunca mais ver um hospital de campanha que custou 60 milhões de reais aos cofres públicos, ser abandonado em plena pandemia. Ninguém merece…

Máscaras

Google Imagens

Não serei injusto, até agora, as únicas armas que dispomos para evitar o Covid-19 são o isolamento social e as máscaras de proteção respiratória, sejam elas de TNT, pano, tricoline, descartáveis, reutilizáveis, caseiras, industriais, artesanais, fashion e por aí vai. Sorte nossa! Na última grande guerra a população só dispunha de máscaras contra gases venenosos iguais ao da foto acima, grandes, pesadas, caras e difíceis de encontrar. Só fico torcendo para que nossa dificuldade em lidar com esse vírus não nos obrigue a viver com tal trambolho na cara.

Boa quarentena, amigos.

Quarenta e cinco dias depois

Gravura: Schnabel de Rome

Segunda-feira, 20 de abril de 2020, 11:37 horas, 28º dia da quarentena decretada pela Prefeitura de Nova Friburgo, 45º de retiro desde minha internação em um hospital no Rio de Janeiro, no dia 7 de março. Nesse período, estive na rua nos dias 13, 21, 23 e 31 de março, todos por motivo de saúde. Ah, sim, quando não faz frio ou chove, caminho no bosque do condomínio, seguindo expressas ordens médicas. Resumindo tudo isso, 45 dias recolhido e apenas 4 saídas de casa. Quarentena, uai!

Mas vamos ao que interessa, quem inventou a quarentena e por que razão? Os italianos, é claro. Segundo os britânicos da BBC, “quando a peste negra se espalhou pela Europa durante o século 14, Veneza aplicou uma regra em que navios tinham que ancorar por 40 dias antes que a tripulação e passageiros pudessem desembarcar. O período de espera foi denominado ”quarantino”,que deriva da palavra em italiano para o número 40”.

A Wikipédia entra no circuito e nos lembra que “apesar de a quarentena ser considerada pelos historiadores modernos como uma das primeiras contribuições fundamentais à prática da saúde pública, não tinha sua devida importância reconhecida”. A gravura que ilustra o texto, de autoria do Dr. Schnabel de Rome, mostra a roupa que os “médicos” da época usavam para “tratar” dos leprosos e das vítimas da Peste Negra. Devia matar os pacientes de susto!

Na Idade Média muita gente boa foi “salva” na fogueira, li-te-ral-ment-te, já que os curandeiros acreditavam que as doenças eram provocadas por demônios que se apoderavam nosso corpo e alma. E aí, só com fogo, não é? Barbaridade! Outros eram colocados em cavernas ou coisa parecida e proibidos de lá saírem, para não contaminarem as populações das cidades com seus males.

Ainda bem que o mundo evoluiu, a abordagem médica mudou e vacinas, antibióticos, novos medicamentos, terapias e muita tecnologia salvam vidas, sem fogueiras, leprosários, maldições e isolamentos. Opa, eu disse isolamento? É, meus caros, existe uma diferença entre quarentena e isolamento (e ainda o distanciamento social) mas, como estamos no Brasil, misturaram tudo e uma boa parte da população (e “autoridades”), acaba fazendo o que lhe dá na cabeça, o que “ouvem por aí”.

Para falar a verdade, estou sendo injusto: gente sem noção existe em qualquer lugar do mundo, não importa a cor, nacionalidade, sexo, dinheiro e sequer educação. Países de primeiro mundo erraram feio enquanto outros, nem tão de primeira assim, mas completamente autoritários, trataram de fechar suas fronteiras, imprensa e recolher cidadãos recalcitrantes. Ou alguém acredita que a Coreia do Norte, por exemplo, não teve nenhum caso sequer da doença? A Arábia Saudita? Ah, me poupem!

Na verdade, a humanidade ficou (ou ainda está) perdida, sem saber de onde essa desgraça saiu, incapaz de conseguir uma vacina sequer ou mesmo entender até onde a doença pode ir. Seria o fim do mundo? Pois é… Eu mesmo, nascido no início da década de 50, que sempre acreditei que nos exterminaríamos com armas nucleares e fogo (olha ele ai outra vez), fico aqui pensando se vamos perder a guerra para um inimigo simples e pequeno, formados por uma cápsula proteica envolvendo seu material genético.

Falam em guerra bacteriológica e nações apontam o dedo para outras, responsabilizando-as pela origem e disseminação do vírus. Para mim essa teoria é furada e por um motivo forte: qual a razão para tirar vidas de eventuais consumidores de nossos produtos e serviços? Hoje em dia um iPhone, por exemplo, é projetado e vendido por uma empresa norte-americana e fabricado… na China. Todos sairiam perdendo, não é mesmo?

Teorias da conspiração à parte (afinal, a imaginação ainda é nossa), quem garante que não estamos sob “ataque” da Natureza, uma reação biológica ou sei lá o quê aos nossos desmandos, destruição desenfreada do meio ambiente, êxodo de milhões de pessoas para megacidades, poluição dos oceanos, rios, lagos, nascentes, acreditando que a água, elemento vital para a vida, vai se regenerar e nos servir eternamente…

Ou será que voltamos ao começo da civilização e os antigos monstros, demônios, duendes, vampiros e assemelhados retornaram em forma de vírus para nos possuir?

E depois? O quê, você quer saber mesmo o que vem depois da pandemia? Tá bom, eu conto: 1/3 da população mundial que sobreviver vai ficar curada, não me pergunte como. O restante vai se transformar em zumbis, devorando tudo o que vier pela frente. Quando não restar mais nada, comerão uns aos outros e é isso. Da raça humana só sobrarão alguns monumentos, tipo a Torre Eiffel, que não farão o menor sentido para alienígenas.

– Fala sério, cara, alienígenas! Está bom, vou tentar, mas tenha em mente que será puro achismo. Primeiro, a economia mundial vai, ou melhor, está tomando um baque danado e sua recuperação pode ser bem lenta. Lembre-se que no início do século XX, a Gripe Espanhola provocou uma recessão que desembarcou na Segunda Guerra Mundial. O The New York Times de hoje mostra três pontos, que valem para todo o mundo: 1) o que acontecerá com o Covid-19? Desenvolveremos uma vacina ou ele sofrerá uma mutação e ficará menos grave? 2) Ainda não é possível determinar quantas pessoas não tiveram nenhum contato com o vírus e 3) na falta de uma vacina ou tratamento pode levar a uma nova crise se todos saírem do isolamento. (https://www.nytimes.com/2020/04/18/health/coronavirus-america-future.html) Mas pode piorar… E se não contivermos o vírus?

Para encerrar, a humanidade vem sendo assolada por pestes desde seu surgimento e a cada evento uma quantidade enorme de vidas são perdidas. Evoluímos a cada episódio mas, infelizmente, as doenças também. O que me revolta é constatar que com tantos recursos, conhecimentos e profissionais altamente habilitados, não sejamos capazes de cuidar da saúde das quase 8 bilhões de pessoas que povoam este planeta.

Pois é, meus caros. Se não mudarmos, se continuarmos passivos, ignorantes, sem esperança ou simplesmente sem vergonha na cara, a próxima pandemia pode ser a última.

Carlos Emerson Jr. (abril /2020)

Ponto de vista

Foto: Bettmann/Getty Images

Fico imaginando como seria essa quarentena a uns 60, 70 anos atrás. Hoje dá para tirar de letra: o cidadão (de posses, é claro) tem a internet e com ela pode trabalhar em casa em seu home office, a televisão e seus inúmeros canais a cabo, streaming e suas séries e filmes, o smartphone com os aplicativos de comunicação, jogos, bancos, compras, consultas médicas e tudo mais que você imaginar.

Nos anos 50 não tinha nada disso. Telefones (isso mesmo, aquele que chamamos de “fixo”) era coisa de gente rica ou de grandes empresas. Os orelhões ainda não tinham sido inventados e a gente era obrigado a procurar uma agência da extinta Cia. Telefônica Brasileira, a CTB, encarar filas, pedir a ligação e voltar (ou esperar ali mesmo) umas duas horas para que a comunicação fosse estabelecida.

Televisão? Os aparelhos até já existiam, com imagem em preto e branco, é claro. O problema era a falta de programação das pouquíssimas estações que existiam. Na maior parte do dia a imagem era apenas um chuvisco e só à noitinha alguns programas, desenhos e filmes eram transmitidos precariamente. No máximo umas três horas diárias. Ah, sim, os receptores de TV eram caríssimos.

O rádio dava show. Muitas estações, muita informação, músicas, programas de auditório e noticiários. Pena que a maioria dos transmissores não tinha grande potência e seu alcance, geralmente, era restrito. Mas, quem podia, se virava com os bons aparelhos de ondas curtas, podendo curtir e se informar com os programas em português da Voz da América, BBC, Rádio de Moscou, Deustche Welle alemão, Radio France e tantas outras. Minha mãe contava que acompanhou toda segunda guerra mundial pelas ondas da BBC inglesa. E lá em Cuiabá, no Mato Grosso, nos anos 40!

Hoje, se o dia estiver quente, basta ligar o ar-condicionado de seu Home Office e pronto, temperatura de montanha para trabalhar e curtir o dia trancado em casa. Nos anos 50? Bom, como até mesmo os ventiladores de teto ainda não tinham sido inventados, você tinha que se virar com uns aparelhos grandes, pesados e com motores barulhentos e pouca potência, ou seja, ia continuar a sentir calor, só que com um fundo nada musical.

Computadores? Notebooks? Tablets? Tá de brincadeira, não é? Máquina de escrever manual (as elétricas surgiram bem depois) e olhe lá. E isso significava trocar a fita de impressão, limpar periodicamente os tipos, lidar com papel-carbono (nem gosto de lembrar) e corrigir um erro significava teclar tudo outra vez, com muita atenção, perdendo um tempo danado.

Grande parte dos trabalhos era feita em livros ou cadernos pautados, com caneta tinteiro (o quê, você nunca viu nenhuma? Acredita que tenho até hoje uma Parker 51 e uma Montblanc? É, tô velho mesmo…), mata-borrão, lápis, gilete para apontar o lápis, borracha para apagar os erros escritos com lápis e por aí vai. Confesso que tinha a maior admiração por quem escrevia à mão seus livros, artigos para jornais e revistas, trabalhos financeiros e de contabilidade e por aí vai. Para mim, isso seria impossível já que nunca consegui ter uma letra legível.

Uma grande mudança foi a invenção do delivery service e, é claro, os motoboys. Você tem fome e o almoço na geladeira é sobra de dois dias atrás. Sem problemas. Basta pegar o smartphone, abrir um aplicativo, escolher o prato e voilá! Em pouquíssimo tempo sua refeição é entregue em casa, quentinha e fresquinha. E essa oportuna modernidade serve para quase tudo ou, como o pessoal fala, tem aplicativo para tudo o que você imaginar. Já nos anos 50…

Claro que ficar fechado em casa, sem prazo visível para sair, não é nada agradável, especialmente se a causa é uma pandemia. A devastação que a Gripe Espanhola fez a partir de 1918, matando entre 17 e 50 milhões de pessoas e infectando um quarto da população do planeta na época, é o grande alerta para os dias de hoje. Mais uma vez estamos em vantagem: temos conhecimento científico mais avançado, equipamentos, hospitais, medicamentos, profissionais da área bem preparados e, principalmente, comunicação instantânea com qualquer lugar do mundo. Tentem imaginar como era combater uma doença a mais de 100 anos atrás.

Acho que ninguém duvida que a paralisação da economia vai provocar efeitos colaterais terríveis. Mas, enquanto não descobrirem uma maneira de parar ou tornar o vírus inócuo, temos que confiar que as medidas duras que estão sendo tomadas podem e possivelmente estão salvando vidas. Só espero que, passada a crise, não se esqueçam que outros vírus podem surgir e que levem a sério a prevenção contra essas catástrofes.

Pois é… Tomara que nossos políticos algum dia mudem e pensem da mesma maneira. Boa quarentena, meus queridos leitores.

oOo

PS: a foto que ilustra este texto foi tirada na Espanha, por ocasião da Gripe Espanhola, em 1919.