Ventos frios

Da janela da sala acompanhava o vento balançar os galhos de uma árvore no jardim, como se tentasse derrubar duas rolinhas que teimosamente insistiam em permanecer pousadas em um galho bem fino. De repente, uma revoada de maritacas, aos gritos espantou o casal, possivelmente irritados com a habitual algazarra. Achou graça, baixou os olhos e tentou retomar a leitura do jornal, apesar da completa falta de interesse.

Voltou o olhar para a janela. Apesar do sol brilhante, usava um casaco para quebrar o ar frio que insistia em entrar sem nenhum convite em sua casa. Sabia muito bem que os dias vão ficar mais curtos e as noites claras e geladas. As chuvas vão sumir até, pelo menos, meados de outubro. As chuvas vão escassear e quase todas as manhãs nevoeiros vão esconder as montanhas que rodeiam sua casa.

Tempos de acender a lareira e ligar os aquecedores. Tirar dos armários casacos de lã, edredons, meias grossas, cachecóis, gorros e até luvas. Trocar a cervejinha do almoço por um bom vinho tinto. Sair à noite? Só em ocasiões muito especiais, afinal, para deixar o quentinho de casa tem que valer muito à pena, como apreciar as estrelas no límpido céu noturno da serra, a quase mil metros de altitude.

O vento assoviou alto e se insinuou para dentro do apartamento, fechando uma porta com um estrondo. Assustado, sentiu um arrepio e perdeu completamente os pensamentos mas, deixa pra lá, a vida real não é um comercial de televisão. Cheio de preguiça conseguiu se levantar da poltrona, fechou as janelas, tomou os remédios da manhã e foi para a cozinha passar um café. Com ou sem ventos frios, o dia está apenas começando.

Nova Friburgo, julho de 2021

Hora de invernar

Foto: Carlos Emerson Junior

E o mês de junho chegou, trazendo o frio do inverno serrano. Hora de ligar lareiras e aquecedores, tirar casacos, xales e meias de lã dos armários. Ficar mais tempo em casa, dormir embaixo de um bom edredom, tomar sopas quentinhas à noite com a companhia de um bom vinho tinto e, é claro, diminuir a água fria dos banhos.

Quem mora na serra sabe que a rotina muda completamente: o relógio desperta na mesma hora o ano inteiro mas agora lá fora ainda é noite, quando clareia você só enxerga o nevoeiro escondendo toda a cidade e faz frio, muito frio. O corpo e a mente só desejam voltar para a cama e suas cobertas.

Em compensação, com a típica escassez das chuvas nessa época do ano, os dias ficam incrivelmente solares, o azul do céu chega a ficar indecente de tão bonito. A cidade ganha um brilho novo, caminhar pelas ruas ganha um novo significado, se aquecer ao sol e redescobrir novos coloridos da natureza.

Somos a cidade mais fria do Estado do Rio de Janeiro mas, como em todas as cidades brasileiras, uma parcela de nossos cidadãos não tem o menor motivo para festejar a estação. Muito pelo contrário, o tempo frio cobra um preço alto e ingrato dos mais necessitados. Faltam casas, agasalhos, saúde, alimentação, perspectiva e esperança de dias melhores.

A população se mobiliza e ajuda como pode: distribuição de cestas básicas, doação de roupas e cobertores de frio, ajuda financeira, médica, odontológica. Fazemos o que nos é possível. O Brasil sente os efeitos da pandemia e de gestões federais, estaduais e municipais sem nenhum plano de governo, falta de empatia com seu povo, incompetentes, corruptas ou coisa pior.

Enfim, o inverno começa oficialmente no dia 21 de junho, uma segunda-feira, apesar das temperaturas, principalmente à noite, já terem chegado abaixo dos 2 dígitos, principalmente na zona rural de Nova Friburgo. As restrições impostas para o combate ao Coronavírus restringem o turismo e, mais uma vez, não veremos aquele povo de todo o país que gosta ou quer conhecer um inverno de verdade em plena região sudeste do Brasil.

Aliás, que tal aproveitarmos nossa melhor estação ajudando a quem precisa? Em vez de ficarmos destilando ódio (um sentimento horroroso) contra quem não pensa como nós, vamos procurar associações, ongues, igrejas e prefeituras que estão pedindo qualquer tipo de colaboração para amparar quem sente frio e fome e não tem como se proteger.

Depende apenas da gente.

Tá frio!

Foto: Carlos Emerson Jr.

Quando você pensa que o pior do inverno ficou no dia 31 de julho e daqui para frente o calor volta a aquecer corações, corpos e mentes em Nova Friburgo, a segunda-feira, hoje mesmo, resolve provar que é uma espírito de porco e um ar gelado, úmido, chuvoso toma conta da nossa serra. Resultado, estou digitando essas tremidas linhas, às 18:14, trancado com a Filó dentro do escritório, com um moletom, suéter de lã, xale idem e um aquecedor de ambiente à óleo ligado no máximo nas minhas costas. Ok, confesso, reclamei do veranico a alguns meses atrás. Bem feito, agora o remédio é aguentar a friaca e torcer para que amanhã, pelo menos amanhã, o sol dê as caras. Outro banho na geladeira de hoje eu não mereço! (A propósito, a mínima, segundo a estação do INMET, foi 9,7º)

Uma terça qualquer

Foto: Carlos Emerson Jr.

Uma terça qualquer. Fria, nublada, mal humorada. Sair debaixo dos cobertores foi um sofrimento. Seis horas da manhã. Ligou o aquecedor do quarto no máximo, abriu o chuveiro com á água o mais quente possível e ficou sentado na beira da cama, ainda sonolento, esperando o vapor sair do banheiro. Tomar banho a essa hora, com frio, é um pé no saco!

Uma terça qualquer. Abriu o e-mail no celular para saber as novidades, leu a primeira manchete e jogou o aparelho no travesseiro. Pensou que se o dia ia pelo mesmo caminho das notícias, o melhor a fazer seria voltar para a cama. Um profundo desânimo tomou conta de todos os seus sentidos. Não tem saída, nada mais tem saída neste país.

Levou um susto. O vapor da água quente do chuveiro tinha tomado conta do quarto inteiro, agora sim, dava pra encarar um bom banho quente, daqueles inesquecíveis. Tirou os dois pijamas, abriu a porta do box, regulou a intensidade da água fria para não morrer queimado embaixo da ducha, colocou a cabeça debaixo da água que escorria e escorregou feio, batendo a cabeça com força no piso molhado.

Não sentiu dor, não conseguiu mexer um dedo sequer. Sabia que era o fim mas, ao invés da sua vida passar toda diante dos seus olhos, fixou o que restava da sua consciência na água quente da ducha, que abraçava e esquentava seu corpo inerte no chão. Aquilo sim, não tinha preço, custou a perceber que era a mesma sensação perdida de estar no útero de sua mãe. Tentou sorrir, fechou os olhos e simplesmente morreu.

O caso dos termômetros

Foto: Rogério Dias

Algumas coisas são difíceis de explicar, ou melhor, de entender mesmo. Os termômetros de Nova Friburgo, são um bom exemplo, um caso misterioso, digno de um estudo das equipes do CSI ou do FBI. Tá bom, estou exagerando, o pessoal da Abin mesmo também pode chegar a alguma conclusão, se eles estiverem com tempo, verba e disposição para investigar esse fenômeno.

Pois muito bem, vamos aos fatos. Nossa cidade dispõe de uma estação meteorológica automática do INMET – Instituto Nacional de Meteorologia, apropriadamente instalada no distrito de Salinas, nas instalações do IBELGA, o renomado Instituto Bélgica Nova Friburgo. A leitura dos dados da estação é disponibilizada na internet, atualizada hora a hora, durante as 24 horas do dia. E só ir lá e consultar.

Já na cidade, instalaram alguns relógios digitais, desses que dão a hora, a data, a temperatura e tem um baita anúncio na parte de cima, mas quebram um galhão quando você precisa saber que horas são e o celular prende no bolso traseiro da calça. Enfim, eles tem em comum com a estação automática o funcionamento 24 horas mas de onde vem a medição da temperatura eu não faço a menor ideia.

Na última sexta-feira, dia 7 de junho, o relógio termômetro da centro da cidade, o mais visível, foi fotografado (aí em cima) pelo radialista Rogério Dias, da Friburgo AM, às 5:30 da manhã, marcando “agradáveis” 4º, um frio danado que todos sentiam, é claro. Por volta das sete horas, outra foto foi publicada, desta vez indicando 3º. Pois é, não dá para negar, o inverno chegou e arrebentando corações, mentes e agasalhos de friburguenses, turistas e pior, cariocas que resolveram morar na serra, como esse cronista que vos fala.

Acordei por volta das sete e trinta morrendo de frio. Enrolado em uma manta de lã, levantei e fui preparar um café bem quente para me despertar e, porque não, aquecer minhas geladas entranhas. Fui até a janela e fiquei surpreso, na minha cabeça, havia nevado a noite inteira do lado de fora! Liguei o computador e acessei o site do INMET: a mínima registrada na estação de Salinas, às 6 horas, foi 6.5º.

E agora, quem está com a razão? Na varanda do meu quarto, no segundo andar, tem um pequeno termômetro de mercúrio, bonitinho, estilo alemão que, infelizmente não serviu para nada, já que o sol saiu, inflacionando a temperatura. Aí vocês dirão, com toda a razão aliás, que isso é frescura, preciosismo que não leva a nada, já que 3, 4 ou 6 graus é frio pra caramba. Sem dúvida, é frescura e muito frio! Mas e o psicológico, onde fica? Frio também tem sensação térmica e, com certeza, quanto mais baixa a medição, mais perto do zero grau a sensação.

Meus caros, em 1999, quando vim morar aqui no Sans Souci, a temperatura chegava no zero, a água parava de jorrar nas torneiras e havia quem jurasse que de madrugada formou geada. Quantas vezes acordamos, vimos o tamanho do prejuízo térmico, pegamos o carro e voltamos para o Rio, de pijama, touca e xale no pescoço em busca do calor perdido.

Os tempos mudaram, Friburgo ainda é fria mas não congela mais ninguém e hoje em dia não temos mais onde nos abrigar no litoral, nossa casa é aqui na serra, até sempre. Aprender a viver no inverno é de lei e vamos levando o frio com aquecedores, lareira, moletons, edredons, meias de lã e qualquer coisa que esquente, incluindo aí uma boa sopa, um chá e até mesmo, em caso de desespero, a boa e velha cachaça.

Se suíços e alemães aguentaram, não seremos nós, cariocas, que vamos dar vexame numa hora dessas. ¡Que venga el invierno!