A crônica sumiu!

Imaginemos a seguinte situação: o despertador toca, toca, mas nada acontece. Sua mulher resolve ver o que está acontecendo e surpresa! Não tem ninguém no quarto. Acreditando que é uma brincadeira fora de hora, vai checar no banheiro, na sala, no quarto das crianças. Nada. Já assustada, vai até o sótão, a garagem, a casinha do cachorro. Volta ao quarto e checa o guarda-roupas. Não, ele não se trocou e junto ao travesseiro seu celular ainda dorme. Não adianta, o marido, que há uns quinze minutos roncava como uma locomotiva a vapor, desapareceu e de pijama.

Mas piora. O despertador toca, você acorda, cambaleia até o banheiro, lava o rosto, escova os dentes e vai para a cozinha perguntando para a patroa se o café já está pronto. Mas, cadê a patroa? E as crianças? Saíram todos e não me avisaram? Pegou o celular e ligou para a mulher: consternado ouviu o aparelho berrando na cozinha. Olhou pela janela e não viu ninguém. Correu para a rua e tocou a campainha do vizinho. Silêncio. Bateu nas portas de outras casas em vão. Foi para o meio da rua e gritou, implorou, ameaçou, chorou. Voltou para casa e ligou a TV, o rádio e o computador: completamente mudos. Sua mulher, as filhas, o cachorro, os vizinhos, todos desapareceram. Estava sozinho no mundo e ainda por cima de pijama.

E não é que piora mesmo? O despertador toca, você acorda e percebe que não vê, não ouve e não fala nada. É impossível determinar se está em casa, na rua, em um hospital ou na cadeia. Será que morreu e não percebeu? Ou enlouqueceu? Tenta lembrar seu nome mas sua cabeça é um completo caos. Sente-se só, desprotegido e tem medo, sem saber o que pode acontecer em seguida. De repente você percebe que não passa de uma estatística, é um desaparecido.

Pô, esta crônica está parecendo um pesadelo sem fim! Vou terminar, é claro, mas antes tente visualizar um dia qualquer no futuro, lá por 3.500 DC. Um artefato de forma indefinida surge do nada em um lugar qualquer. Flutuando bem perto do chão, esquadrinha uma vasta área completamente deserta formada por areia e pedras. Os dados obtidos são imediatamente repassados à velocidade da luz para um laboratório de pesquisa em uma galáxia distante. O resultado da sondagem não deixa nenhuma dúvida, o terceiro planeta do sistema solar não abriga mais nenhuma espécie de vida e nem tem condições para suportar uma colonização, seu ambiente é completamente árido.

Daí você se pergunta, mas o que aconteceu com a humanidade, os animais, micróbios, bactérias, o vírus do Covid-19? Sumiram e com eles a sua história e a sua tragédia. Mais alguns séculos e serão esquecidos em todo o universo. Desesperador, não é? Não, isso aqui é só ficção! Dor de verdade sentem os parentes dos três meninos que em dezembro do ano passado saíram para brincar e nunca mais foram vistos. Ou dos 99 friburguenses desaparecidos (número oficial do governo do Estado do Rio) na tragédia que destruiu a cidade em 2011. Desespero sentiram pais, mães e filhos das quase 82 mil pessoas que desaparecem anualmente no Brasil.

Pois é…. Felizmente, ao contrário do título, a crônica não sumiu. Elas também sofrem com autores sem inspiração, ideologias exóticas, desconhecimento da língua, falta de convicção e fé na sua capacidade criativa. Elas não aguentam e vão embora. Um belo dia a gente abre o note para terminar a escrita e leva um baita susto, a crônica sumiu! E aí não tem BO na delegacia, Interpol investigando na América do Sul, Nasa espiando com seus espiões: a página em branco do editor de texto está lá, acusadora implacável de nossa desinspiração, se é que isso existe.

O único consolo é que sempre podemos escrever outra….

Junho de 2021

Prova de vida

Ah, aposentadoria, que sonho bom… Você contribui para o governo com uma parte dos ganhos do seu trabalho durante 35 anos e recebe de volta um lauto salário mensal até o fim de seus dias. Imagine, em plena terceira idade aproveitar o ócio dos justos, viajar o mundo inteiro, conhecer novas pessoas, costumes, línguas!

E tem mais! Comprar sua casa de praia, um carro esporte conversível, sair para dançar com a patroa todas as noites, comemorar a vida com champanhe sob a luz do luar em um resort de Bali, quem sabe arranjar uma mulher 40 anos mais nova. Um sonho e o melhor, ao alcance de todos os brasileiros, independente de raça, credo, sexo e religião (ou falta de).

O único aborrecimento nesse novo mundo tão “maravilhoso” é a tal da “prova de vida”, herança mal resolvida dos tempos em que uns tudo podiam e outros não tinham nada. Como o próprio nome já diz, uma vez por ano é necessário se apresentar nas agências do INSS ou dos bancos onde o benefício é pago, para provar que você ainda está vivo. O não cumprimento dessa exigência pode acarretar a suspensão ou o cancelamento do benefício, simples assim.

Ontem, pela primeira vez, comprovei oficialmente que estou vivo. Cheguei na agência bem cedinho, fui ao caixa, apresentei minha carteira de identidade e o cartão do banco, digitei minha senha e… recebi um comprovante onde se lê inequivocamente o seguinte:

“Prova de vida realizada em 24 de maio de 2021 – 09:29. Validade de 12 meses a partir desta data.

Pois é, durante um ano vou processar quem vier me falar que “você morreu e não sabe”. Experimentem!

Infelizmente a necessidade da prova de vida compulsória, criada para combater fraudes, confirma a tese de que a malandragem do brasileiro nunca dá certo e ainda por cima provoca efeitos colaterais, como esse ritual anual. Quem tem uma mãe, pai ou avô com dificuldades físicas para se deslocar, sabe o que estou falando. Minha sogra com quase cem anos teve que ir de táxi até uma agência do INSS para ser “vistoriada” por um funcionário na rua. É pra isso que a gente envelhece?

É claro que não! É por essas e outros que ao sair da agência bancária fui até o quartel da PM, onde fica o heliporto de Nova Friburgo, embarquei no Bell 429 que estava me aguardando e voamos em direção meu haras, entre Carmo e Sumidouro, aqui no Estado do Rio mesmo. O plano é passar o dia cavalgando, tomando um uisquinho, curtindo um churrasco e ouvindo muito jazz. Tudo por conta da aposentadoria, é claro!

A dança da Morte, uma crônica

Suma Editora

Num mundo em que tantos já morreram, provocar mais morte é certamente o mais graves dos pecados”.

(Stephen King).

De um laboratório ultrassecreto do governo americano, acidentalmente vaza um vírus da gripe geneticamente alterado, altamente contagioso e letal, se espalha com rapidez e provoca a morte de 99,4% da população mundial em menos de um ano. Aos pouquíssimos sobreviventes resta o espanto, a dor e o medo diante de um futuro de horror. É o fim da nossa sociedade.

É mais ou menos assim que começo o romance “A Dança da Morte”, uma das obras mais conceituadas do escritor norte-americano Stephen King. Lançado em 1978 e reeditado em 1990 com material inédito que havia sido cortado na primeira edição, é um calhamaço com 1.263 páginas, enorme e diversa quantidade de personagens e a eterna luta do bem contra o mal, literalmente falando. Empolgante e deixa bem claro que os monstros sempre presentes em suas obras somos todos nós.

A história parece uma premonição da tragédia atual provocada pelo Coronavírus. Guardada as devidas proporções (e ficções claro), o vírus chamado de “Capitão Viajante” ganha de 7 a 1 do nosso Coronavírus em todos os quesitos: contágio, letalidade e incurabilidade (isso existe?). Bem ao seu estilo, o autor descreve os sintomas da doença provocada como se você se afogasse dentro de si mesmo.

Como sabemos, infelizmente na vida real o Coronavírus também faz um estrago enorme: um ano e alguns meses após o chamado “paciente zero”, a Covid-19 já infectou mais de 149 milhões de pessoas, além de matar outros 3 milhões em todo o mundo. O Brasil é o terceiro país mais afetado, com 14 milhões de casos e mais de 400 mil mortes, uma tragédia.

Ao contrário dos personagens do livro, estamos sendo vacinados! Tudo bem que todas elas não erradicam a doença mas, sua capacidade de reduzir a contaminação e o número de internações hospitalares será decisiva para acreditarmos em dias melhores, ainda que difíceis.

Por outro lado, temos em comum a irresponsabilidade do governo americano (do romance), que demorou a tomar conhecimento do incidente, ocultou deliberadamente a verdade da população e tentou fugir (sem sucesso) quando percebeu o tamanho do desastre que provocara. O nosso governo… Bom, nem preciso falar nada, não é mesmo? Basta lembrar das cenas de terror nos hospitais e ruas de Manaus.

Bernt Nutke (Tailin, Estônia)

Dança macabra ou Dança da Morte é uma alegoria artístico-literária do final da Idade Média sobre a universalidade da morte, que expressa a ideia de que não importa o estatuto de uma pessoa em vida, a dança da morte une a todos. Há representações de Danças macabras na literatura, pintura, escultura, gravura e música. Estas representações foram produzidas sob o impacto da Peste Negra (1348), que avivou nas pessoas a noção do quão frágeis e efêmeras eram as suas vidas e quão vãs eram as glórias da vida terrena”. (Wikipédia)

Dividido em três partes, adquiri o romance “A Dança da Morte”,editado pela Suma em 1990, na Amazon em versão eletrônica para o meu Kindle, o que agilizou bastante a leitura. Como todo bom livro, é envolvente, emocionante, triste, belo e muito assustador, principalmente nesses dias sombrios de uma pandemia descontrolada, em um país dirigido por ineptos.

Recomendo muito.

Palavras desconexas (ou não)

A internet caiu. Checou o pequeno ícone da rede, na barra de ferramentas, onde um “x” vermelho confirmava a ausência de sinal. Suspirou profundamente, pegou um cigarro e se levantou para fumar na janela. Nesse momento olhou o monitor do notebook e ficou pasmo ao ver o que estava digitando no editor de textos.

Frases e palavras desconexas, sequências alfanuméricas sem o menor sentido, nenhuma paginação, um caos completo! De novo, ficou chocado. Não se lembrava de ter escrito nada daquilo e pior, sabia muito bem que tinha sentado no computador simplesmente para colocar um mero post no blog, coisa boba mesmo.

Muito estranho. Teria cochilado? Seria aquilo uma mensagem em código, um pedido de socorro em um lapso de insanidade, para ele mesmo? Ainda bem que não acreditava em sobrenatural, senão já ia pensar um monte de bobagens. No entanto, era impossível não notar um grupo de números repetidos em vários pontos daquela algaravia:

01110011 01101111 01101101 01101111 01110011 00100000 01100101 01110011 01100011 01110010 01100001 01110110 01101111 01110011 .

O que seria aquilo? Teria algum significado? E por que havia escrito? Tentou salvar o texto mas percebeu que o notebook havia congelado. Foi até a mesinha da sala, pegou o celular e tirou algumas fotos. Reiniciou o laptop e, como esperava, perdeu o trabalho. Não tinha importância. Abriu novamente o editor de texto e digitou, cuidadosamente, todo o conteúdo que fotografara no celular.

Teclou enter e publicou, não só no blog mas como em todas as redes sociais que participava. Logo, mas logo mesmo, alguém indagou porque usara um código binário para destacar sua mensagem, quando poderia muito bem ter escrito em português: “somos escravos”. Então era isso! Sim, somos escravos, nascemos para isso, estava careca de saber. A questão ainda era, porque fez esse texto?

Ficou ali sentado, olhando a tela, pensando no que viria a seguir.

Nova Friburgo, 2009
Revisto em julho/2017