Vamos ler um livro

 

Os números divulgados pelo Instituto Nacional do Livro são desalentadores: o brasileiro lê, em média, quatro livros por ano, mas só consegue levar apenas dois até o fim! A pesquisa feita pelo Ibope Inteligência mostra que as mulheres (57%) leem bem mais do que os homens (43%) e que 75% dos entrevistados nunca entrou em uma biblioteca.

Ao contrário do que acreditamos, a maior parcela de não leitores são adultos, na faixa dos 30 aos 69 anos. Assistir televisão continua sendo a atividade preferida e foi escolhida por 85% dos entrevistados. Em seguida vem escutar música ou rádio (52%), descansar (51%) e reunir-se com amigos e a família (44%). A leitura aparece no sétimo lugar dessa lista.

Enquanto o percentual de entrevistados que declara gostar de ler cai, o grupo dos que aproveitam o tempo ocioso para acessar a internet subiu de 18% para 24%. A pesquisa também identificou um novo comportamento que não estava no estudo anterior: o acesso às redes sociais, indicado por 18% como atividade frequente.

A principal razão apontada por aqueles que diminuíram o volume da leitura foi o desinteresse (78%), o que inclui a falta de tempo, a preferência por outras atividades e a “falta de paciência para ler”. Apenas 4% apontaram a dificuldade de acesso aos livros como motivo para ler menos, o que inclui o preço do livro, a falta de bibliotecas perto de casa ou de livrarias.

Entre os participantes, 64% concordaram totalmente com a afirmação “ler bastante pode fazer uma pessoa vencer na vida e melhorar sua situação econômica”. Ao mesmo tempo, a maior parte diz que não conhece ninguém que tenha progredido na vida por ler muito. Essa doeu…

Entre os livros mais lidos, a Bíblia foi citada por 42% e manteve-se no primeiro lugar, mesma posição ocupada na edição anterior da pesquisa, em 2007. Os livros didáticos foram nomeados por 32%, os romances por 31%, os livros religiosos por 30% e os contos por 23%. Cada entrevistado selecionou em média três gêneros.

Bom, até aí morreu o Neves, como se dizia antigamente. Afinal, pelo que me lembro, nunca tivemos mesmo a fama de bons leitores. Mas confesso minha surpresa ao saber que 70% dos entrevistados nunca ouviram falar dos livros eletrônicos ou digitais, que podem ser lidos em computadores, tablets e até em smartphones.

Aliás, nesse setor, praticamente ainda nem demos a partida: dos 30% que já ouviram falar em e-books, 82% nunca leram um livro eletrônico. De acordo com o levantamento, as pessoas que têm acesso aos livros digitais ou leram pelo computador (17%) ou pelo celular (1%). A maioria dos leitores (87%) baixou o livro gratuitamente pela internet, enquanto outros 38% piratearam os livros digitais, um péssimo sinal…

Os livros digitais são mais populares entre o público de 18 a 24 anos. A maioria dos leitores de e-books pertence à classe A e tem nível superior completo. De acordo com a pesquisa, 52% dos leitores são mulheres e 48% homens.

Pois é, a pesquisa é importante e útil, mas não explica porque estamos lendo cada vez menos. O escritor Affonso Romano de Sant’Anna, em um artigo para a UNESCO/PUC-Rio, acredita numa crise do livro, cujos principais aspectos seriam editoriais (disputa de um mercado mínimo com vinte ou trinta milhões de leitores,), livrarias (temos uma para cada 64.255 habitantes, quando a UNESCO recomenda uma para cada dez mil pessoas), ensino, autores e bibliotecas (o mesmo problema das livrarias, apesar dos recentes esforços para colocar pelo menos uma em cada município).

Não é uma questão puramente econômica, afinal, o poder aquisitivo do brasileiro melhorou e o consumo disparou. Ironicamente, talvez essa riqueza e a inclusão digital que colocou 200 milhões de celulares nas mãos dos brasileiros e permitiu a abertura de um sem número de lan houses pelo Brasil afora, possa ser um alento, atraindo novos leitores e, principalmente, autores.

O professor de Língua Portuguesa Sérgio Nogueira afirma que o melhor a fazer é incentivar o hábito da leitura o mais cedo possível. Para colocar isso em prática, o papel dos pais é fundamental, já que o exemplo dado em casa é o mais importante. Atividades como ler juntos, levar o filho à livraria e apresenta-lo a uma biblioteca, para que ele mesmo possa escolher os livros que quer ler, são simples e deixam raízes.

Hoje em dia, além de ser mais fácil publicar um livro, você ainda pode contar com os blogs, redes sociais e sites literários para compartilhar suas ideias e trabalhos. Novas editoras têm procurado formas ousadas e rentáveis de bancar livros de todos os gêneros, a um custo razoável. Alias, tem até quem julgue que um dos problemas seria o excesso de autores, uma maldade, é claro!

Devemos sempre ter em mente que o crescimento do cidadão passa obrigatoriamente por uma boa educação. Os livros, sejam em que formato for, são essenciais para a transmissão de conhecimento e aprendizado. Manter viva sua função e disponibiliza-los para todos os brasileiros é o nosso grande desafio. Afinal, quanto mais pessoas tiverem acesso e interesse nos livros, melhor será a nossa sociedade.

A Voz da Serra, 20/4/2012

O jeitinho americano

O jeitinho americano

Terminei de ler, com enorme prazer, o livro “O jeitinho americano: 99 crônicas” do norte-americano Mathew Shirts, radicado há mais de 30 anos no Brasil, cronista e colunista do Estadão. Lançado em 2010, pela Realejo Edições, tem prefácio do escritor Mario Prata e mostra, com muita ginga e bom humor como um gringo, depois de um certo tempo e apesar de todas as diferenças culturais, acaba “ficando” brasileiro.

Para quem aprecia o gênero, é um prato cheio! O texto flui gostoso e, como comprei a versão para o Kindle, foi minha leitura favorita nas longas viagens do Rio para Nova Friburgo. Mas como não tenho a menor pretensão de fazer crítica literária, vale a pena ler a análise do escritor Reinaldo Moraes. De minha parte, assino embaixo!

Quando Matt começou a escrever suas cronicas semanais no Estadão, em 1994, fiquei de orelha em pé, e por um duplo motivo. Primeiro, porque tive de me curvar ao fato de que, mesmo tendo aprendido depois de adulto essa tralha de língua complicada que é o português, inda mais na informalíssima versão brasuca, o grigo batia um bolão em seus textos leves, divertidos e cheios de ideias sobre a cultura brasileira, dos grandes temas à miudeza do cotidiano, que davam um baile nas teses e publicações destinadas à corriola universitária, da qual, aliás, Matthew Shirts, o popular Mateus, é oriundo.

Depois, porque me deu um ciúme danado de ver acessíveis a todos os leitores do jornal Estadão aquelas histórias e reflexões deliciosas que ele desfiava diante dos amigos durante nossas prolongadas tertulias boemicas. Os causos do Mateus envolviam basicamente sua infância e adolecência no States, com muito surf, Hendrix e Monk, e a por vezes inacreditável saga de sua adaptação à Terra Brasilis. Isso, desde meados dos anos 70, quando ele aportou nestas plagas aos 16 anos para passar um ano em Dourados, no Mato Grosso (hoje, o do Sul), como intercambistado American Field Service (AFS), um programa internacional que abria as portas do mundo para os teens americanos e as dos Estados Unidos pra molecada do mundo todo, ou quase.

Agora, com as crônicas finalmente – e finamente – selecionadas e editadas em livro, somos convidados à mesa do cronista para os debates lúdicos e sempre instigantes que ele trava em torno de temas que vão desde a antiga importância do casco retornável da cerveja nas relações econômico-afetivas entre os brasileiros até a iminente substituição do livro de papel pelos leitores eletrônicos – passando por um sempre animado bate-bola com alguns dos nomes mais importantes da cultura contemporânea, a começar por Richard Morse, seu professor na Califórnia e grande amigo, um autêntico WASP da costa leste que se interessou pela América Latina depois de assistir Carmem Miranda ao vivo. “Nunca tinha visto uma mulher se mexer daquele jeito”, confessou-lhe o mestre, instigando-o a vir pela terceira vez ao Brasil, como aspirante a brasilianista. É o que Matt nos conta em uma das crônicas memoráveis deste livro.

O mais bacana de tudo, porém, é que, além de termos à mesa os interlocutores prediletos do autor, caras do naipe de Hunter Thompson, Antonio Pedro Tota, Jorge Caldeira, Roberto DaMatta, Mario Prata, José Miguel Wisnik e o cineasta Quentin Tarantino – além de Morse, é claro -, somos seduzidos aqui a vivenciar nosso país como ele é em seus melhores momentos, lugares e ângulos. O Brasil de Matthew Shirts é o lugar onde, infelizmente, nem todos estamos o tempo todo. Mas é, com certeza, onde todos merecemos estar, de preferência na companhia deste adorável gringo da pá virada.”