Ventos frios

Da janela da sala acompanhava o vento balançar os galhos de uma árvore no jardim, como se tentasse derrubar duas rolinhas que teimosamente insistiam em permanecer pousadas em um galho bem fino. De repente, uma revoada de maritacas, aos gritos espantou o casal, possivelmente irritados com a habitual algazarra. Achou graça, baixou os olhos e tentou retomar a leitura do jornal, apesar da completa falta de interesse.

Voltou o olhar para a janela. Apesar do sol brilhante, usava um casaco para quebrar o ar frio que insistia em entrar sem nenhum convite em sua casa. Sabia muito bem que os dias vão ficar mais curtos e as noites claras e geladas. As chuvas vão sumir até, pelo menos, meados de outubro. As chuvas vão escassear e quase todas as manhãs nevoeiros vão esconder as montanhas que rodeiam sua casa.

Tempos de acender a lareira e ligar os aquecedores. Tirar dos armários casacos de lã, edredons, meias grossas, cachecóis, gorros e até luvas. Trocar a cervejinha do almoço por um bom vinho tinto. Sair à noite? Só em ocasiões muito especiais, afinal, para deixar o quentinho de casa tem que valer muito à pena, como apreciar as estrelas no límpido céu noturno da serra, a quase mil metros de altitude.

O vento assoviou alto e se insinuou para dentro do apartamento, fechando uma porta com um estrondo. Assustado, sentiu um arrepio e perdeu completamente os pensamentos mas, deixa pra lá, a vida real não é um comercial de televisão. Cheio de preguiça conseguiu se levantar da poltrona, fechou as janelas, tomou os remédios da manhã e foi para a cozinha passar um café. Com ou sem ventos frios, o dia está apenas começando.

Nova Friburgo, julho de 2021

A imersão do Zé

Telefonou para o amigo, lá no Rio:

— Oi, Lisete, o Zé pode atender?

— Seu Carlos, o Dr. Zé está em São Paulo, fazendo imersão.

— Fazendo o quê, Lisete?

— Ele está em São Paulo fazendo imersão.

— Como assim, imersão? Um curso de mergulho submarino?

— Não sei não senhor, seu Carlos.

— Ele só pode ter se metido com um curso de mergulho submarino. Mas logo em São Paulo, aqui pertinho, em Macaé, está cheio de boas escolas… sei não Lisete, a mulher dele foi junto?

— Foi, seu Carlos, os dois viajaram ontem e voltam no domingo.

— Mas que raio de curso de mergulho é esse que só dura dois dias?

— Ah, sei não. O senhor quer deixar algum recado?

— Não, pode deixar, na segunda ligo de novo. Obrigado, Lisete!

— Tchau.

Coçou a cabeça foi comentar essa história esquisita com a mulher.

— Mas você está velho mesmo, meu Deus! Imersão é o nome que dão a um tipo de curso onde você fica isolado um fim de semana todo só pensando naquilo, quer dizer, no tema do curso, é claro!

— Pô, isso é uma imersão? No meu tempo chamava-se intensivão ou coisa que o valha. O que essa gente do marketing não inventa! Imersão! Cada vez mais tenho a certeza de que morro e ainda não vi tudo! Mas vem cá, fazer uma imersão de um curso de mergulho submarino na idade dele… não é uma ideia meio maluca?

— E quem falou em mergulho submarino, você bebeu? O curso é de alergia alimentar, vê lá se o Zé vai mergulhar. Acorda!!!

Achou melhor pegar o jornal e ler a seção política para relaxar. Em meia hora esgotara todo o estoque de asneiras do mês!

(2010)

O bazar

Foto: Carlos Emerson Junior

Leu o aviso no quadro-negro, parou, atravessou a rua e meio sem jeito deu uma espiada além da porta. Roupas penduradas em araras, sapatos, luvas, echarpes, cintos, mulheres para todos os lados conversando ou examinando as peças. Literalmente, um bazar de verdade, bem de frente para o mar.

Reconheceu a dona do negócio. Jovem e bonita, destacava-se das demais por uma única e simples razão, já se conheciam das caminhadas diárias. Ela sempre correndo, ele andando acelerado e invariavelmente se cumprimentando quando se cruzavam em algum ponto da rota.

“O senhor deseja alguma coisa? Um presente para sua esposa, ou filhas, quem sabe?”

A moça bonita o olhava com curiosidade. Ficou desconcertado, sorriu meio amarelo e tentou explicar que só entrara ali para ver como era o bazar, uma novidade naquele bairro onde não acontecia absolutamente quase nada.

“Vem cá, eu sou a Lara e você é o….?

“Paulo”.

“Pois é, Paulo, acho que somos vizinhos, não é mesmo?

“Sim, moro na rua de cima e, para falar a verdade, praticamente todos os dias nos cruzamos aí na orla.”

“Claro, agora lembrei de onde o conheço. Você vai treinar amanhã?

“Vou e presumo que você vai correr, não é mesmo?”

“Por que não vamos juntos? Metade do percurso a gente corre e o restante caminha até o barzinho do Forte São João. Aí a gente abre uma cerva e vamos nos conhecendo. Que tal?”

“Sete horas?”

“Sete horas, sem falta, partida aqui do bazar, ok?”

“Fechado.”

Voltou para casa se sentindo uns vinte anos mais novo. Aquele bazar realmente era mágico!

Reboco

Foto: Carlos Emerson Junior

Reboco, palavra originada do árabe “rabuq”, é aquela argamassa que usamos para alisar paredes, preparando-a para receber cal ou pintura. Aliás, no caso de paredes com tijolos ou blocos, temos que percorrer quatro etapas: chapisco, emboço, reboco e a massa corrida. Mas isso é assunto para blog de construção civil e está aqui só para ilustrar o caso que aconteceu em um Dia dos Namorados.

O meio da noite se aproximava, a cachorra dormia placidamente enquanto o casal lutava para assistir na televisão um filme romântico ruim de doer, sem despencar no sofá, completamente vencidos pela mediocridade e o sono.

De repente, um barulhão enorme grita no silêncio e no escuro: alguma coisa caiu na na área externa do apartamento. Imediatamente acordaram do torpor televisivo. A vizinhança toda correu para janela.

– Caramba, será que alguém pulou aí fora?

– Como assim, suicídio?

– Sei lá!

– Não parecia gente… quem sabe um gambá que escorregou lá de cima?

– Você consegue ver alguma coisa da janela?

– Não, está muito escuro, esqueci que a luz tinha queimado e, não tem jeito, vou lá ver, olha a comoção que está provocando…

Pegou a lanterna, acendeu e foi checar o que tinha acontecido. Para alívio geral não havia corpo algum, as plantas estavam intactas e nenhum gambá pulou no seu pescoço. O piso, no entanto, estava cheio de pedaços quebrados de reboco.

A vizinha do andar de cima, assustada, mostrava seu prejuízo, a persiana do quarto quebrada. A lanterna, na verdade uma lanterninha de led do tamanho de uma canetinha, mal iluminava a fachada do prédio. De qualquer maneira, ficou claro que não fora um atentado terrorista e sim um reboco mal colocado (é assim mesmo que se fala?).

Foi isso, foi aquilo, cadê o síndico, cadê a polícia, ainda bem que não machucou ninguém, o reboco transformou o fim de noite num convescote. Sem conclusão alguma, trancaram a casa e foram dormir, desta vez na cama mesmo. Ainda teve tempo para encerrar a aventura com a pergunta que não queria calar, desde que o incidente começou:

– Já imaginou se fosse um suicida? Sabe como é, Dia dos Namorados, a pessoa solitária, deprimida, uma ótima data para morrer e a gente ia passar a noite na delegacia prestando depoimentos. A mulher sequer respondeu. A essa altura, dormia o sono dos justos.

Ladrões

A jovem executiva saiu apressadamente da reunião com a diretoria de ensino da Uerj, já pensando no próximo destino, a Faculdade de Medicina da Ilha do Fundão. Olhou o relógio e preocupou-se, afinal não conhecia o Rio direito e jamais tinha se aventurado por essas bandas da Mangueira.

Chegou na rua, procurando um táxi. Tirou o smartphone da bolsa para checar as mensagens, avisar o escritório que já estava à caminho e verificar se estava tudo em ordem em casa. Digitava tão concentrada que nem notou que um senhor se aproximou, indignado:

– A senhora quer me prejudicar, não é mesmo? Porque não pára de escrever e chama logo um táxi, um uber ou a merda do metrô?

– Desculpe, mas prejudicar como, só estou acertando minha…

– Dona, está vendo aqueles dois garotos do outro lado da rua? Pois é, não tiram o olho da senhora e só não deram o bote porque eu estou aqui.

– Puxa, o senhor é polícia?

– Qualé, esse trecho da rua é do jogo, assalto só da esquina para lá. Os dois me conhecem, moramos na mesma comunidade, mas a senhora está dando bandeira demais e aí, dona, se acontecer alguma coisa, quem vai responder pelo seu assalto sou eu. Pelamordedeus, pega logo o taxi e me deixa trabalhar sossegado.

Assustada, embarcou no primeiro carro que parou, olhou desolada para o motorista e, antes de informar o novo destino, desabafou: é… não está fácil para ninguém!

Incêndio!

Os três carros de bombeiros, inclusive uma escada magirus, estacionados em frente ao apart-hotel destinado a idosos não era um bom sinal. Uma pequena multidão olhava para cima e para os lados. Na pizzaria que ocupa todo o primeiro andar, os empregados conversavam entre si, do lado de fora. O prédio todo às escuras, assustava…

— Oi amigo, o que está acontecendo?

— Cheguei agora, mas parece ser um incêndio.

— Pois é, mas incêndio sem fumaça é estranho, né?

Uma senhora ao lado, não resistiu:

— Ih, moço, parece que foi na cozinha da pizzaria. Olha só a cara de desânimo dos garçons!

— Será?

— Não, de jeito algum, os bombeiros entraram pela portaria do prédio, ao lado e cortaram a força do prédio. O incêndio deve ser lá em cima.

— Alguém notou que não veio nenhuma ambulância?

— Mas é muita irresponsabilidade mesmo! E como é que vão levar os velhinhos feridos para os hospital?

— Espera aí, minha senhora, tem gente ferida? Que horror!

— Bom, eu não sei se tem, mas nesse hotel só mora idoso, todo mundo sabe isso.

O dono da padaria pagou geral!

— Pô, vocês são fogo. Olha só a calma dos quatro bombeiros que não subiram. Dá pra acreditar que tem velho ferido? Ô gente boateira.

Sentiu que dali não ia sair nada, a não ser, talvez uma briga e resolveu investigar na calçada da frente. Discretamente passou por baixo da faixa amarela e foi conversar com o pessoal da pizzaria.

— Fala amizade, como é que tá o incêndio?

— Não sei, os bombeiros estão aí dentro, procurando.

— Ué, o fogo não foi na cozinha de vocês?

— Claro que não! Aliás, tivemos que desligar tudo e, se continuar assim vamos perder a noite e as gorjetas. Ninguém merece!

Mas o operador do burrinho sem rabo tinha sua própria explicação:

— Não fica triste não, daqui a pouco os bombeiros liberam tudo. Foi só um velhinho preso no elevador. Tirando ele de lá, vocês voltam pro trabalho.

— Pô, cara, precisava vir a escada magirus pra tirar alguém do elevador?

— Vocês estão confundindo tudo! Desta vez foi um guarda municipal que palpitou: Um dona deixou o feijão no fogão, dormiu, queimou e os homens estão lá, controlando a situação.

— Hahahaha, desde quando madame de apart-hotel faz comida no fogão? Aqui não tem isso não, seu guarda!

— E por falar nisso, já que você é uma autoridade, porque não vai lá e pergunta para os bombeiros o que está acontecendo?

— Mandou bem, coroa. Ao invés de ficar multando carro ou perseguindo camelô, vê se faz alguma coisa que preste!

— Olha o respeito!

Mas, curioso como todo o carioca que se preza, logo o guarda municipal conversava animadamente com os bombeiros e, pelos gestos e expressões, boa coisa não devia ser. Ficamos todos quietos, esperando para ouvir as péssimas notícias.

— Pessoal, não foi nada não, foi um trote. Os bombeiros estão terminando a vistoria e a força foi cortada por medida de segurança. Já vão liberar o prédio e a pizzaria. Acho que nem preciso chamar o reforço.

— Trote? Putz, ainda tem quem faça isso? Deviam enforcar o infeliz que faz uma brincadeira dessas. E ainda mais num prédio da terceira idade!

— Você vê, tiraram três carros do quartel para nada. E se tem um incêndio em outro lugar, pra valer?

Pois é, no fim das contas, um trote e muita desinformação.

A cara do Rio mesmo.

Que pena…

bikedomingo

Na semana que termina comemoram-se duas datas importantes para cristãos e judeus, a Páscoa e o Pessach. Infelizmente, o que vai ficar são os atos de violência urbana explícita e gratuita que tiraram a vida de inocentes, inclusive uma criança de dez anos.

A foto, feita agora mesmo, na Pompeu Loureiro, aqui em Copa, quando retornavamos de uma caminhada na Lagoa,mostra um raro momento de paz, onde um ciclista, apropriadamente na ciclovia, circula solitaria e tranquilamente, rumo ao seu destino.

Uma pena, mas está ficando difícil acreditar que essa cidade ainda é maravilhosa…

Foto: Carlos Emerson Junior

Ponto de ônibus

A gente passa por aqui e sente uma tristeza enorme. Agora, depois que o menino se foi, colocaram até uma viatura da PM do lado. Sei lá, é nessas horas que a gente cai em si e percebe como é difícil viver nessa cidade que tinha tudo para ser maravilhosa.

Recomendo a leitura do artigoNós não perdoamos os assassinos nem os governantes, desabafo emocionado escrito por Mausy Schomaker e Andrei Bastos, os pais do jovem Alex Schomaker Bastos, morto por assaltantes no dia 8 de janeiro, nesse ponto de ônibus da foto, em frente à Universidade Federal do Rio de Janeiro, em Botafogo.

Prisão

Os números divulgados no artigo do jornalista Afonso Bentes, no jornal espanhol El País, impressionam e acendem uma luz em nossa completa ignorância e distância desse problema. O Brasil é um dos países que mais aumenta seu número de presos. Nossa taxa de detentos para cada grupo de cem mil pessoas passou de 287 para 300, em apenas um ano.

Segundo o Departamento Penitenciário Nacional (DEPEN), existem 574.027 presos distribuidos em 317.733 vagas, quase duas vezes acima de sua lotação. A maioria é negra ou parda (61,68%), analfabeta ou com apenas o primeiro grau (68%) e cometeu crimes não violentos, como furto, tráfico de drogas e estelionato (51%).

Mais de 44% deles são os chamados ‘detentos provisórios’, aqueles que não foram julgados, mas permanecem presos. Em São Paulo, a primeira audiência entre o detento e um juiz varia entre 109 a 135 dias. Enquanto isso, ele fica em uma cela com outras 40 ou 50 pessoas, sujeito a doenças e cooptação por facções criminosas.

O próprio ministro da justiça afirmou que as prisões brasileiras são medievais e “se fosse para cumprir muitos anos na prisão, em alguns dos nossos presídios, eu preferiria morrer”.

Pois é, fico aqui no meu canto matutando, para que mesmo serve uma prisão?

As veias abertas do Brasil

“Foi necessário um sistema político local construído para manter o poder nas mãos de uma minoria branca. Foi necessário que a polícia adotasse práticas para degradar, desumanizar e intimidar as pessoas. Foi necessário um sistema de Justiça criminal que fizesse ser quase impossível responsabilizar policiais quando eles matam, como eles fazem às centenas todos os anos em comunidades por todo o país. E foi necessário um conjunto de autoridades com uma competência espetacular: o chefe de polícia que desde o início tratou os que jurou proteger como um inimigo armado, o prefeito que simplesmente desapareceu, o promotor que tomou a incompreensível decisão de esperar a noite chegar para divulgar o resultado da decisão do grande júri, quando ele sabia exatamente como as pessoas iriam reagir.”

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Bancos

O cartão de débito da conta da cidadã, cliente de um famoso banco estatal, precisou ser substituído. A solicitação da 2ª via é feita por telefone e é dado um prazo de, no mínimo dez dias para retirar o novo na agência da conta.

– Mas vocês não mandam o cartão pelo Correio?

– Não, senhora, só se for um cartão de crédito.

– …

Um mês depois, na agência em Copacabana:

– Bom dia, vim pegar a 2ª via do meu cartão de débito.

– Basta pegar a senha e se dirigir ao caixa.

Hum… são quinze horas, a senha tem o número 751 e o painel mostra que o cliente 600 está sendo atendido. A tarde promete e é com pesar que descobre, exatamente na sua vez que estava na fila errada:

– Senhora, a 2ª via de cartão é lá no segundo andar.

– Mas o rapaz da entrada informou que era aqui e ainda me deu a senha…

– Sinto muito, ele se enganou e eu não tenho como fazer nada. Mas lá em cima que pode ser que a senhora ainda consiga ser atendida.

Suspirou fundo, xingou mentalmente os dois funcionários e foi procurar a gerente responsável pelo tal do segundo andar.

– Senhora, a 2ª via é entregue aqui mesmo, mas a essa hora não é mais possível. Volte amanhã, por favor.

– Negativo! Eu fiquei uma hora na fila dos caixas por culpa de seus funcionários e só saio daqui com o meu cartão.

– Humpf.. Vou ver o que posso fazer.

Quinze minutos depois, retorna a gerente com a expressão intrigada:

– Senhora, a senhora tem certeza de que fez mesmo o pedido da 2ª via do cartão de débito ? Não achei nada em nossos registros.

– Não só tenho certeza como o banco já me debitou os 8 reais pelo serviço! Eu heim!

– Bom, nesse caso, vou fazer um novo pedido e a senhora volta daqui a uns dez dias para saber se a segunda via já chegou aqui na agência. Infelizmente o vamos ter que cobrar uma nova tarifa.

– Ah é? Vocês acham que eu não tenho o que fazer ? E ainda tem a cara de pau de cobrar mais 8 reais de tarifa? Porque não enviam a droga do cartão pelo correio como todos os bancos fazem?

– Senhora, são as normas do banco.

– Então esquece a droga do cartão. Assim que meu salário for depositado eu transfiro direto para um outro banco que saiba respeitar seus clientes, se é que isso existe!

– A senhora é quem sabe.

Saiu da agência bufando de ódio. E quase teve um treco quando se lembrou que não pediu os talões de cheques…

Fila_do_Banco

A bestialidade espreita. Sempre.

A notícia com chamada na primeira página do portal de notícias Nova Friburgo em Foco é cruel, absurda e chocante:

“A morte brutal da comerciária Camila de Castro, 22 anos, foi a principal notícia em Nova Friburgo no final de semana. Ela foi encontrada ainda com vida por volta das 5h30 da manhã deste domingo, 24, na Praça Getúlio Vargas. Camila foi socorrida pelo Corpo de Bombeiros e morreu no Hospital Raul Sertã.

A polícia suspeita que a jovem tenha sido espancada e estuprada por seu algoz (es), já que ela tinha ferimentos graves nas partes íntimas.”

Leia na íntegra aqui.

Como assim? O que está acontecendo com Nova Friburgo? Aliás, com toda a raça humana, no varejo e no atacado? Estamos involuindo, caminhando para a barbárie? Quer dizer que uma moça – uma mulher – não tem mais o direito de andar com quem ou na hora que quiser? E o que dizer dos babacas que ainda comentaram nas redes sociais que “mulher que anda sozinha a essa hora está pedindo”. Está pedindo o quê, vagabundo?

Aparentemente o estupro foi na tradicional Praça Getúlio Vargas, em pleno centro da cidade, ou em suas imediações, o que não me surpreende. Não é de hoje que leio reclamações do seu abandono e insegurança. Infelizmente, além de uma vida perdida, a violência cometida contra essa jovem será uma mácula na imagem de Nova Friburgo, queiram ou não os sem noção de sempre.

Que todos os cidadãos de bem protestem contra essa bestialidade. Que a polícia não deixe esse crime sem solução. Que a justiça cumpra a lei e dê uma punição exemplar. Que a sociedade se organize e lute para que outros casos como esse nunca mais se repitam. E que as autoridades municipais finalmente acordem e comecem a administrar uma das cidades mais interessantes do Brasil.

Meus sentimentos à família da jovem Camila.

oOo

Atualização (26/8, 15 horas): a polícia civil de Nova Friburgo agora trabalha com a hipótese de atropelamento, já tendo inclusive os depoimentos de motorista e cobrador de um ônibus urbano da FAOL que seria o responsável. A dúvida é se ela teria sido realmente estuprada antes do acidente. Lembrando que a versão do estupro foi dada pelos bombeiros e médicos que atenderam a jovem na rua e no Hospital Raul Sertã. Humm, confundir atropelamento com estupro… Será que tem peixe grande nessa rede? Aguardemos.

oOo

Atualização (10/9, meio-dia): ninguém fala mais nada sobre esse assunto. Mesmo depois que o portal Nova Friburgo em Foco trouxe a informação do Instituto de Segurança Pública (ISP) do Governo do Estado do Rio, que “entre janeiro e julho deste ano (2014), foram registrados na 151ª DP (Nova Friburgo) 37 casos de estupros, uma média mensal de 5,2 casos”, nada mais foi dito, comentado, contestado ou revelado sobre o assassinato da jovem Camila. Um silêncio conveniente?

oOo

Atualização (13/10, 17:45 horas): Cinquenta e um dias depois da brutal morte da jovem Camila, o assunto se perdeu nas ruas, corações e mentes friburguenses. Segundo a mídia, ‘as investigações seguem sob sigilo judicial’.

Pois é, coitada da família…

oOo

Atualizaçao (4/12/2014, 15:45 horas): três meses se passaram e nada foi apurado. Ou melhor, por força de uma investigação sob sigilo judicial, não sabemos sequer se as “autoridades competentes” chegaram a alguma conclusão. Infelizmente, isso é o Brasil…

Pega ladrão. Outra vez!

Estavamos tranquilamente acessando nossas redes sociais quando, da rua, ouvimos um grito de mulher:

– Pega ladrão!

Corremos para a janela ainda a tempo de ver um rapaz numa bicicleta alcançar e imoblizar o trombadão com um “mata-leão”. Daí para a frente a situação seguiu o figurino: a vítima se vingou com uns bons cascudos, uns dois ou três “cidadãos” tentaram iniciar um linchamento – prontamente impedido pelo herói do dia – e em cinco minutos, contados no relógio, chegou a patrulha da PM para por ordem na situação.

Pois é, depois dessa confusão, só resta terminar o domingo sem ladrão bobão e chorão, desejando uma boa semana para todos os queridos leitores.

Até segunda!

Que pena

Pois é, a Copa acabou, os turistas se foram, o Brasil perdeu e o Rio voltou a ser o mesmo que era.Uma senhora foi brutalmente assassinada numa tristemente famosa “saidinha de banco”, em plena luz do dia, em uma das praças mais movimentadas da Zona Sul. Quinhentos policiais entram em uma comunidade para cumprir 40 mandados de prisão de traficantes e não encontram ninguém. Minto, pegaram um distraído que possivelmente perdeu a hora de acordar e fugir. Para piorar, o próprio comando da operação admite que houve “um vazamento”…

Bandidos atacam uma UPP na zona norte, incendeiam uma viatura policial e deixam um policial baleado. Ninguém foi preso. Dentro de um ônibus frescão, na Avenida Brasil, a caminho da zona oeste, dois homens anunciam o assalto: alguém se levanta, saca a arma, mata um dos bandidos, fere o outro, acerta um passageiro e desaparece na noite. De novo, ninguém foi preso.

Que pena, a Copa acabou.

Os bárbaros ainda estão aqui

Na década de 60, impulsionados pela ditadura, eles bateram à vontade, barbarizaram, prenderam, humilharam e mataram quem ousava se manifestar contra os governantes da época. Quem tem mais de cinquenta anos deve se lembrar muito bem da cavalaria tentando entrar na Igreja da Candelária, esmagando uma multidão contra seus portões e um cordão humano formado por padres e populares.

Pois muito bem, o tempo passou, o Brasil mudou e eis que 45 anos depois, em plena final da Copa do Mundo, voltamos a assistir antigas cenas de horror como o espancamento de estudantes, mulheres e idosos, invasão de uma estação do metrô para bater nos passageiros, agressão e roubo de uma câmera digital de um fotógrafo da imprensa canadense, mais espancamentos, desta vez de, pelo menos quinze jornalistas. Não satisfeitos, impediram a entrada ou a saída dos moradores e trabalhadores de uma importante praça do Rio durante mais de três horas.

Continuam os mesmos bárbaros de sempre, comandados por figuras patéticas e sombrias, que arrotam sua ignorância em nome de uma democracia que sequer conhecem, sempre em nome do povo que solenemente ignoram. Eu ia postar alguns vídeos com essa barbárie mas não tive estômago. E de mais a mais, já conhecemos muito bem essa gente de longa data. Meus sinceros pêsames, Rio de Janeiro. Os bárbaros, no final, sempre vencem. E nunca vão embora.

Fogão velho, geladeira velha, mulher velha…

Foto: Carlos Emerson Junior

Toda terça-feira, por volta das dez horas da matina, é o mesmo cantochão: “geladeira velha, compro cobre, chumbo, ar condicionado velho, fogão velho, panela velha, bateria velha”…. Quem é do Rio já sabe que estou falando da Kombi do ferro velho, odiada por uns, ignorada por outros, perseguida pela prefeitura mas, convenhamos, tem a sua utilidade e é folclórica.

O mais curioso é que eu acreditava que essa kombi era única. Pesquisando no Google para escrever esse texto, descobri que existe uma espécie de rede, espalhados em vários bairros da cidade. A secretaria de ordem urbana é implacável: em 2010 apreendeu algumas delas em condições lamentáveis, como falta de para-brisas, cintos de segurança, vistoria vencida e motoristas sem habilitação. Bem no espírito da coisa…

A Comlurb, empresa de limpeza urbana carioca, recolhe gratuitamente esse tipo de material. Mas, às vezes estamos com pressa e as kombis ainda dão um troco, sem nenhuma burocracia. Na minha última mudança, eles levaram dois aparelhos de ar condicionado que, em petição de miséria, pediam uma merecida aposentadoria. Acho que essa comodidade é a responsável pela longevidade desse serviço informal.

Ouvir toda a semana o megafone anunciando que compra tudo o que é velho, me faz lembrar da infância, quando pelas ruas de Copacabana o “Garrafeiro” gritava anunciando sua chegada, o “Paneleiro” ou outro nome do gênero, sei lá, se instalava na calçada para reparar as panelas de ferro das residências e os “Burrinhos sem rabo”, que resistem até hoje, cruzavam a cidade transportando nossos bens.

Pois é, quem diria que a “Kombi do ferro velho” ia virar uma tradição!

Pega ladrão!

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Avenida Atlântica, terça-feira, dezoito e trinta da noite, calçadão cheio de gente quando, do nada, na altura da Figueiredo Magalhães, surge um bando com cerca de trinta menores, meninos e meninas, todos com os chinelos nas mãos, andando rapidamente, procurando cercar algum incauto para roubar um celular, carteira ou até mesmo uma corrente.

Como eu estava correndo no sentido oposto, correndo continuei e até acelerei passando incólume mas, alguns desavidados se viram no meio da turba. Em volta nenhum policial ou guarda municipal. Curiosamente, nem mesmo as patrulhas que estacionam na calçada central. A sensação de insegurança e frustração foi muito forte. Como que por acaso, desabou um chuvão, esvaziando a praia. Só assim pude continuar minha corrida em paz.

O jornalista Gilberto Scofield Jr., em sua coluna de hoje, no Globo, faz um relato parecido: “rodei este fim de semana por ruas da Zona Sul, sol tipo verão, e fiquei chocado com os bondes de pivetes que claramente (ainda) rodam as ruas dos bairros para atacar incautos. A PM devia estar mais esperta nisso. Dá para ver o bando a quilômetros.”

Quem mora no Rio sabe muito bem que a política de segurança da UPP fracassou quando o governo não investiu como devia nas comunidades e deixou a bandidagem à solta. Agora está com um problemão nas mãos, já que o policiamento disponível não é suficiente para proteger toda a cidade. Como era de se esperar, a antiga sensação de insegurança está de volta.

Pois é, será que algum dia encontraremos alguém sério, honesto e que, acima de tudo, ame o Rio de Janeiro? Votaremos nele?

Cartas para o blog.

A suicida

A mulher, lá pela faixa dos 40 ou 50, resolveu que era hora de morrer. Impressionada com a história de uma casal que se atirou de um apartamento no rio, durante um incêndio, decidiu que ia se jogar nos ares e voar até a morte!

Avisou sua melhor amiga que, como toda boa amiga, tentou dissuadi-la: “pense na vida, no seu trabalho, nos amigos. Ah, você só pode estar de sacanagem e além do mais, como aqui na cidade os prédios só tem no máximo três ou quatro andares, você se arrisca a não morrer e ficar tetraplégica para o resto da vida.” A amiga encerra dizendo que está atrasada e precisa pegar os filhos na escola: “mais tarde eu ligo para saber o que você resolveu.”

A mulher, furiosa, bate o telefone! Enquanto se veste cuidadosamente, pensa na possibilidade de pular da ponte no rio. O problema é que estava muito frio e sua água imunda, completamente poluída. Só de pensar em se afogar naquele esgoto aberto deixou-a enjoada.

E se ela se ficasse na frente de um caminhão na avenida? Hum… não,isso era coisa de gente que atravessa a rua distraido e possivelmente nem iam achar que foi um suicídio. Um tiro na cabeça era, sem trocadilho, tiro e queda, mas cadê o revólver e cadê que ela sabia atirar? Caramba, estava ficando sem opções e imaginação. Entrar na banheira e jogar uma torradeira ligada, como nos filmes? E isso funciona mesmo, gente?

Sem pensar em desistir, rumou para a rodoviária e embarcou no primeiro ônibus para a capital. Lá sim, em algum daqueles arranha céus conseguiria realizar seu intento. Foi o ônibus sair da plataforma que começou a chover muito forte. No início da estrada funcionários da prefeitura avisam que uma barreira deslizou e o trânsito vai ficar interrompido horas a fio.

Retornaram a rodoviária para aguardar a liberação da pista. Entrou na padaria, pediu um café, pão de queijo e um copinho de água mineral. Conferiu as horas e lembrou que tinha consulta marcada no dentista. Se corresse, ainda daria para chegar na hora. Pagou o lanche com o reembolso da passagem e pegou um táxi, direto para o centro.

Depois de toda essa confusão, o melhor a fazer era deixar para morrer em um outro dia qualquer. Afinal, tinha tempo, todo o tempo do mundo pela frente…

Publicado no Recanto das Letras (01/06/2013)