Contos e Crônicas

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“A vida não vale nada se você não tem uma boa história pra contar.”  (Pedro Bial, jornalista

Pois é, meus caros, eu nem sei se minhas histórias valem isso tudo, mas vejam só, ao invés de terminar (mentira, iniciar) o preenchimento da declaração do imposto de renda de minha mulher, que vence no final do maio, estou aqui no word jogando conversa fora sobre gêneros literários…  

Contos rendem crônicas?  Ou seria o contrário? De qualquer maneira, estou falando de dois gêneros literários diferentes, apesar serem quase irmãos. Basicamente, o primeiro conta uma história geralmente curta, de ficção ou não, enquanto o outro fala sobre o cotidiano, num estilo que beira o jornalismo.  

Cresci cercado de crônicas por todos os lados. Meu pai contava os casos da capital (o Rio de Janeiro, óbvio) nos jornais de Campinas. Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Carlos Drummond de Andrade, Nélson Rodrigues e tantos outros foram leitura obrigatória na adolescência. O efeito colateral foi sério: contos, romances, poesias e uma vontade incontrolável de escrever. 

Crônicas geralmente são envolventes, acessíveis, familiares até. Uma celebridade morreu? Crônica nela! O governador roubou e foi cassado? Crônica nele! Qualquer assunto é motivo para uma crônica, não importa se é árido como uma lápide, fogoso como o carnaval, triste como um velório.  

Já os contos são uma espécie de beijo roubado, escreveu um dos meus escritores favoritos, o americano Stephen King, autor de romances e contos de primeira linha.  E ele tem razão, um bom conto pode ser uma surpresa como foi “O homem que falava javanês”, do Lima Barreto, publicado em 1911.  

Contos contam histórias, simples assim. Românticas, policiais, espaciais, urbanas, rurais, o que você imaginar. O homem conta histórias desde a época das cavernas, quando desenhava nas paredes como tinha sido a caçada do dia. Com o passar do tempo, as histórias (verídicas ou não) que eram contadas em volta das fogueiras, passaram a ser escritas e hoje são acessíveis a qualquer um. 

Escrever um conto é uma mistura de imaginação, organização e uma boa pitada de inspiração. Contos podem ser geniais, estranhos, assustadores, educativos ou medíocres, não importa, por mais criativo que você tenha sido quando colocou as ideias no papel (monitor? smartphone?), uma parte sua sempre estará lá. Já li em algum lugar que contos são quase nossos filhos.  

Contos ou crônicas? Sem dúvida alguma, fico os dois.

 

O jeitinho americano

O jeitinho americano

Terminei de ler, com enorme prazer, o livro “O jeitinho americano: 99 crônicas” do norte-americano Mathew Shirts, radicado há mais de 30 anos no Brasil, cronista e colunista do Estadão. Lançado em 2010, pela Realejo Edições, tem prefácio do escritor Mario Prata e mostra, com muita ginga e bom humor como um gringo, depois de um certo tempo e apesar de todas as diferenças culturais, acaba “ficando” brasileiro.

Para quem aprecia o gênero, é um prato cheio! O texto flui gostoso e, como comprei a versão para o Kindle, foi minha leitura favorita nas longas viagens do Rio para Nova Friburgo. Mas como não tenho a menor pretensão de fazer crítica literária, vale a pena ler a análise do escritor Reinaldo Moraes. De minha parte, assino embaixo!

Quando Matt começou a escrever suas cronicas semanais no Estadão, em 1994, fiquei de orelha em pé, e por um duplo motivo. Primeiro, porque tive de me curvar ao fato de que, mesmo tendo aprendido depois de adulto essa tralha de língua complicada que é o português, inda mais na informalíssima versão brasuca, o grigo batia um bolão em seus textos leves, divertidos e cheios de ideias sobre a cultura brasileira, dos grandes temas à miudeza do cotidiano, que davam um baile nas teses e publicações destinadas à corriola universitária, da qual, aliás, Matthew Shirts, o popular Mateus, é oriundo.

Depois, porque me deu um ciúme danado de ver acessíveis a todos os leitores do jornal Estadão aquelas histórias e reflexões deliciosas que ele desfiava diante dos amigos durante nossas prolongadas tertulias boemicas. Os causos do Mateus envolviam basicamente sua infância e adolecência no States, com muito surf, Hendrix e Monk, e a por vezes inacreditável saga de sua adaptação à Terra Brasilis. Isso, desde meados dos anos 70, quando ele aportou nestas plagas aos 16 anos para passar um ano em Dourados, no Mato Grosso (hoje, o do Sul), como intercambistado American Field Service (AFS), um programa internacional que abria as portas do mundo para os teens americanos e as dos Estados Unidos pra molecada do mundo todo, ou quase.

Agora, com as crônicas finalmente – e finamente – selecionadas e editadas em livro, somos convidados à mesa do cronista para os debates lúdicos e sempre instigantes que ele trava em torno de temas que vão desde a antiga importância do casco retornável da cerveja nas relações econômico-afetivas entre os brasileiros até a iminente substituição do livro de papel pelos leitores eletrônicos – passando por um sempre animado bate-bola com alguns dos nomes mais importantes da cultura contemporânea, a começar por Richard Morse, seu professor na Califórnia e grande amigo, um autêntico WASP da costa leste que se interessou pela América Latina depois de assistir Carmem Miranda ao vivo. “Nunca tinha visto uma mulher se mexer daquele jeito”, confessou-lhe o mestre, instigando-o a vir pela terceira vez ao Brasil, como aspirante a brasilianista. É o que Matt nos conta em uma das crônicas memoráveis deste livro.

O mais bacana de tudo, porém, é que, além de termos à mesa os interlocutores prediletos do autor, caras do naipe de Hunter Thompson, Antonio Pedro Tota, Jorge Caldeira, Roberto DaMatta, Mario Prata, José Miguel Wisnik e o cineasta Quentin Tarantino – além de Morse, é claro -, somos seduzidos aqui a vivenciar nosso país como ele é em seus melhores momentos, lugares e ângulos. O Brasil de Matthew Shirts é o lugar onde, infelizmente, nem todos estamos o tempo todo. Mas é, com certeza, onde todos merecemos estar, de preferência na companhia deste adorável gringo da pá virada.”