Visões

Foto: Carlos Emerson Junior

De repente sentiu uma coceira danada nos olhos, daquelas de desesperar. Parou na calçada, tirou os óculos e esfregou a vista como se não houvesse amanhã, mesmo sabendo que isso não se deve fazer. Ah, que se dane, coçar o olho daquele jeito era bom demais. Voltou a olhar, conferiu que a coceira se fora e quase caiu de susto no chão. O velho, ancestral, histórico Palácio do Catete, bem à sua frente, estava diferente, cheio de cores, parecendo uma pintura, uma alegoria carnavalesca. Fechou os olhos novamente, coçou de novo, sacudiu a cabeça e olhou novamente.

– Moço, o senhor está passando bem? A voz feminina, ao lado demonstrava preocupação. Olhou de novo para o hoje museu e aliviado conferiu que as cores tinham desaparecido, o dia seguia calorento e normal no Rio de Janeiro. Agradeceu a preocupação da senhora e retomou seu caminho. É isso, pensou, sua obsessão com o Carnaval estava saindo dos limites. Ainda bem que a sexta-feira já está chegando e a esbórnia só vai acabar na quarta-feira. Ou não!

Bloco das bikes

De repente, a Marechal Cantuária fica vazia. Como assim, é a única via de entrada na Urca para ônibus, carros e caminhões! Logo, uma cantoria esclarece o mistério: é um bloco de bikes, vindo sabe-se lá de onde, para festejar o carnaval e, por que não, tomar uma cerveja na mureta, perto do Forte São João. Tá bom, o trânsito parou mas, convenhamos, hoje é domingo, o dia está lindo, calor na medida certa e um pouco de alegria nesses dias sombrios que rondam nossa cidade não faz mal algum, pelo contrário.

Um bom domingo e ótima semana, meus queridos.

Fotos: Carlos Emerson Junior

Perereca peçonhenta, a entrevista

Foto: Carlos Emerson Jr.

Encontrei a professora C. na dispersão do bloco carnavalesco “Perereca Peçonhenta”, bem em frente a Alerj, no Centro do Rio. Foi fácil identificá-la no meio de tanta gente animada: era a única mulher fantasiada de político ou seja, terno escuro, gravata, camisa social branca, peruca de careca e um par de tornozeleiras eletrônicas!

Antes de mais nada, é bom deixar bem claro que a entrevistada pediu anonimato completo e por esse motivo só posso adiantar que ela possui mestrado em ciências políticas e sociais, é escritora, trabalha em uma universidade federal, publicou vários livros e escreve em jornais do Rio e SP. Apesar de meu receio de abordar assuntos “sérios” em pleno carnaval e logo após o desfile de um bloco de rua, não tive outra alternativa. A entrevista foi gravada em um café da Rua da Carioca.

oOo

Professora, todos os políticos deveriam usar tornozeleiras eletrônicas? Ou isso daria margem para montar outro esquema de superfaturamento para financiar partidos políticos?

Meu filho, você bebeu? Porque eu bebi todas, misturei cerveja com vodka, caipirinha com rum, cachaça com o diabo a quatro e juro que jamais pensaria uma merda tão grande como essa. Isso aqui é só uma fantasia, porra!

Perdão, professora, é que eu achei….

Não, você não tem que achar nada. Estude, pesquise ou leia antes de questionar quem quer que seja. E outra coisa, não me chama mais de professora, esse título nessa pocilga não vale nada! Aliás, só continuo a entrevista se você pedir uma cerva.

Tá bom, já providenciei, mas vem cá, até a senhora concorda que a situação geral do Brasil está muito estranha… ou não?

Estranho é você que me tirou do bloco prá falar… falar de quê, mesmo? Ah, sim, já sei, a crise econômica e política que parou nosso país, não é mesmo? Pois bem, vou dizer com toda a sinceridade, tô nem aí! Sério! O que você quer? Um país que a cada quadriênio coloca um bestalhão na presidência, uma gente que não sabe sequer escolher um prefeito, vereador, um síndico que seja, esperar o quê? Somos uma república senhorial, monárquica, onde a nobreza é escolhida pelo povo com todos os poderes. O poder emana do povo, mas quem manda são os políticos.

Pois é, e aí fica a pergunta, qual o futuro do Brasil?

Ah, mas se depender da sua criatividade, o Brasil não tem futuro nenhum, não é, meu filho? E eu sei lá o futuro de alguma coisa? Entrevista uma cartomante, um vidente, um profeta. Isso dá audiência. Você sabe que o sonho do brasileiro é um emprego público, em qualquer lugar, com qualquer salário. Você mesmo tem cara de quem trabalha prá Agência Nacional, ou coisa parecida. Mas já que a cerveja chegou, vou tentar responder: não tem, simples assim. E sabe porque? Porque somos poucos, a educação é precária, a inclusão social nunca vai acontecer e a população está envelhecendo. Dentro de mais alguns anos teremos mais brasileiros idosos do que jovens disputando o mercado de trabalho e aí, danou, vão encher o país de chineses, indianos e indonésios para tocar a economia. Ou argentinos, bolivianos e venezuelanos, se o a turma atual ainda estiver no poder. Que futuro legal, né?

Não acho não, é horrível! Sei não, professora, que tal deixarmos essa entrevista para depois do carnaval?

Tá maluco? E eu lá tenho lá saco para te aturar outra vez? Negativo, trata de publicar isso o mais rápido possível e na íntegra, senão acabo com sua raça lá na Agência Nacional! Aliás, você tem jeito de ser o assistente do estágiário, sabia?

Além do evidente bullying, de onde a senhora tirou que sou funcionário do governo?

Já sei, já sei, é freelancer, blogueiro ou o raio que o parta. Afe, que falta de humor! Enfim, voltando ao nosso futuro, a desgraça é tão completa que nem chamando os velhinhos aposentados de volta vai dar algum resultado, porque a elite, os pensadores, a intelligentsia, foi embora ou então se acomodou, desistiu, cansou, morreu. Eu é que fui burra, acreditei que ia participar de uma revolução, acreditei no lero-lero desses escrotos corruptos e aqui estou, presa até o último fio de cabelo numa universidade falida, que não tem dinheiro para o papel higiênico. O pior é que aí me lembro que não casei, não namorei e se dei até já esqueci prá quem, mas estudei prá car… burro prá isso, gravar uma entrevista na segunda de carnaval. Pede outra cerveja aí, vai.

Claro, professora…

E tem mais, você falou no telefone que não gosta de carnaval. Então, saiba que o Graciliano Ramos, escritor famoso, falecido no meio do século passado, tem uma frase sensacional, presta atenção: se a única coisa que o homem tem certeza é a morte, a única certeza do brasileiro é o carnaval do próximo ano! Cacete, ele desvendou a nossa alma, o nosso pathos. De fato, o carnaval é a redenção do país, a grande válvula de escape, quando vamos para a Sapucaí bater palmas para as escolas feitas por gente que não pode ou ousa frequentar um restaurante chique no Leblon. Uma festa onde brancos e pretos pulam lado a lado em blocos conduzidos por petralhas e coxinhas, ricos e pobres, ladrões e mocinhos, famosos e fudidos. Ouso dizer que o carnaval é o nosso momento Noruega, é, Noruega, aquele país do norte, chato e frio, onde todo mundo é igual, tem os mesmos direitos, índice social altíssimo e nenhuma corrupção. Carnaval nos une, mesmo quando pentelhos vem com discursos de alienação e outras babaquices mais. Quer saber de uma coisa? Acabou a entrevista! Tem um bloco alternativo se concentrando na Gamboa e vai desfilar no Porto Maravilha logo que anoitecer, uma novidade. Vou prá lá agora. Se você quiser pode vir junto, já te aguentei até agora, no bloco a gente se esbalda e pode até ser que você entenda tudo o que coloquei. Aliás, mais uma cerveja e não vou nem lembrar que dei essa entrevista. Vai ou fica?

Fazer o quê, vou né? De repente consigo arrancar mais alguma coisa da eminente mestra!

Mas você é abusado mesmo, putz! Alala-Ô, ÔÔÔ, ÔÔÔ, mas que calô, ÔÔÔ, ÔÔÔ, atravessando o deserto de bangú, o sol estava tão quente que queimou o…. Olha a cabeleira do Zezé, será que ele é, será que ele é???? Ah, e ainda tem… as águas vão rolar, garrafa cheia eu não quero ver sobrar, eu passo a mão na saca, saca, saca-rolha e bebo até me afogar!!!

Pô, professora, essas músicas são do meu tempo!

Olha o respeito, menino!

O carnaval chegou

Vinicius de Moraes certa vez, com propriedade, afirmou que “o carnaval é a festa onde os tabus perdem força e as permissões tornam-se hiperbólicas”. Como ele entendia mais da festa do que eu, um não-carnavalesco assumido, assino embaixo e saio da frente da turma, que este ano, pelo que vi neste primeiro dia, está muuuito animada. E olha que o calor carioca está de rachar, como se dizia na época das marchinhas.Uma rápida circulada agora mesmo por Copacabana mostrou turistas andando para lá e para cá, o Bloco da Atlântica se concentrando na Constante Ramos, foliões alegres e animados e um número inacreditável de ambulantes vendendo desde uma simples garrafinha de água até a fantasia completa do Chapolin Colorado. Pena que não ouvi um sambinha sequer, só funk, funk e funk.

Em compensação peguei uma praia hoje cedo bem tranquila, com o mar calmo, quente e cheio daquelas algas marrons que insistem em aparecer no verão. Se servir como parâmetro, vai ser o programa de todos esses dias: a manhã na areia e o resto do dia na rua, avenida ou praça, atrás de boas imagens.

E viva o Carnaval!

Foto: Carlos Emerson Junior