Quase um blues

O computador toca uma balada de Miles Davis. Na verdade, quase um blues, o que não faz a menor diferença, vindo de quem vem. Fosse uma valsa, um xote, um funk, um rock ou uma ópera completa, com libreto e tudo, seria sempre um Miles Davis. Mas o assunto de hoje não é jazz, nem o fantástico músico e compositor americano que deixou como legado uma obra extensa, genial e inspiradora. Não, infelizmente, sou obrigado a ficar no plano terreno e lembrar que o Brasil virou uma “tragédia mexicana” de péssimo gosto.

O nosso legado é triste, lamentável, indigno até. Regredimos, sem o menor exagero, uns bons 50 anos e não estou falando só de políticos. Perdemos o rumo na economia, educação e saúde. Falimos. A pesquisa científica definha, as artes agonizam, o esporte patina, a cultura se perde.

Somos todos corruptos? Não, claro. Mas nosso silêncio acaba por nos tornar cúmplices de toda essa corja que assaltou os cofres públicos, fraudou eleições, vendeu a constituição, inventou e superfaturou obras, em sua grande maioria inúteis e tratou os brasileiros como um bando de babacas.

Pois é. No fundo somos mesmos otários, discutindo pelas redes sociais que fulano, beltrano e sicrano são isso e os outros são aquilo, como se não soubéssemos que todos eles, todos mesmo, não passam de um bando de ladrões, merecedores de todo o nosso desprezo e vergonha.

O blues surgiu no final do século 19, com o canto dos escravos que colhiam algodão nas fazendas norte americanas. Segundo o escritor e historiador britânico Paul Oliver, “o blues é um estado de espírito e a música que dá voz a ele. O blues é o lamento dos oprimidos, o grito de independência, a paixão dos lascivos, a raiva dos frustrados e a gargalhada do fatalista. É a agonia da indecisão, o desespero dos desempregados, a angústia dos destituídos e o humor seco do cínico”.

Lamentos, paixão, raiva, agonia, desespero, grito de independência. Que nada… Infelizmente, por aqui, ainda não passamos da ilusão e todo o sofrimento sequer é quase um blues. Na verdade, não é nada mesmo. Um dia, quem sabe, a gente acorda, consegue se unir, botar essa canalhada para correr e construir um novo Brasil, desta vez prá valer. É isso, nossa única reação é sonhar.

Desenho: Jano

A tragédia do Brasil

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Um bar carioca, algum dia em março de 2117:

O comandante, furioso, mandou os mecânicos resolverem o problema com urgência. No horizonte, uma tempestade se aproximava. O tempo passava e, completamente à deriva, o Brasil seguia indefeso ao sabor da maré. A borrasca, de proporções descomunais, atingiu os infelizes em cheio. A tripulação, temendo um naufrágio, baixou os botes salva-vidas para, digamos assim, salvar a própria pele.

Os passageiros, tardiamente perceberam que estavam sendo abandonados, mas, sem iniciativa e liderança, entraram em pânico e alguns até mesmo se atiraram ao mar para a morte certa. Inacreditavelmente o Brasil suportava a terrível tempestade, jogado para cima e para baixo pelas ondas como uma simples folha de papel. Um operador de rádio, um dos poucos remanescentes da tripulação ainda a bordo, tentava desesperadamente enviar pedidos de socorro. Alguns foram captados, embora quase ininteligíveis. Um deles dizia mais ou menos assim: “… Brasil à deriva, fazendo água, sem comandante e oficiais, passageiros em pânico, caos total. Socorro. Latitude…”

Para encurtar o caso, o Brasil nunca mais foi visto, outro sinal jamais foi enviado, nenhum destroço sequer foi encontrado. Todos a sua população, perdão, passageiros e tripulantes desapareceram. Mais de cem anos depois, até seu sumiço foi esquecido e nem ao menos um navio fantasma ele virou. Uma tragédia, o Brasil ainda tinha um futuro pela frente.”

PS: Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança como nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.

Golpe de mão

 

Falam de golpe.
Conspiram. Traçam planos. Ameaçam.
Procuram o inimigo até entre os amigos.
Juram lutar até a morte.

Falam de golpe.
Preparam-se para a guerra, apresentam suas baionetas.
“No passará”, gritam em uníssono, triunfantes.
Pior, arrogantes.

Falam de golpe.
Palavras vãs, bravatas perdidas ao léu.
Sequer meias verdades são.
Lembro dos versos do Joaquim Coelho,
poeta português que lutou em Angola,
viveu o horror das batalhas de verdade:

“E nós, combatentes e detestados,
estamos a comer o pó do sertão,
enquanto caminhamos sufocados
até ao derradeiro golpe de mão!”

Falam de golpe.
Estúpidos,
não tem nenhuma ideia do que estão falando!

Ruínas

Fiquei em dúvida sobre qual a imagem mais apropriada para ilustrar esse comentário. As do desastre ambiental de Mariana seriam a escolha óbvia mas, em respeito às vítimas e enojado com a “passividade” quase criminosa de autoridades e empresas envolvidas, escolhi uma foto do meu arquivo pessoal, mostrando que atrás de prédios -ou instituições e pessoas – podem se esconder enormes ruinas (no caso, o prédio do antigo Cassino da Urca, aqui no Rio).

Em seu contundente artigo “O terremoto de todos os dias“, publicado no jornal El País, o jornalista e escritor Juan Árias, comentando a prisão de um senador da república (com minúsculas mesmo) e um “poderoso” banqueiro, deixa para nossa reflexão o seguinte:

“O Brasil está vivendo, de fato, um momento crítico e grave, difícil de definir e de contar dentro e fora do país. É uma mistura de terremoto político, cujo epicentro se encontra nos próprios fundamentos da República, e de esquizofrenia que impede a sociedade de entender se está vivendo na realidade ou no imaginário.

Um país que festejava há apenas dois ou três anos uma ascensão econômica e social inédita, inveja até de países desenvolvidos, que chegou a sonhar em sentar-se à mesa dos que dirigem os destinos do mundo, vive hoje uma espécie de miragem.

É como se, de repente, tivesse acordado de um sonho para tocar com a mão que a realidade crua e nua é muito diferente. O Brasil está gravemente doente politicamente.

E como no simbolismo da esquizofrenia, a sociedade se pergunta se a classe política vive na realidade, ou se se perdeu no marasmo de suas próprias alucinações e ilegalidades.”

Fico aqui cismado, tentando lembrar quantas crises políticas, morais e econômicas já devastaram o Brasil, acabando com os nossos sonhos de um futuro próspero. Desta vez a justiça está fazendo sua parte, colocando os canalhas na cadeia e provocando a indignação geral.

Meu maior medo, entretanto, é que o dano ao país e à nossa auto-estima tenha sido irreparável. Tomara que não.

Foto: Carlos Emerson Junior

 

Futuro?

Um imenso deserto, árido, tomado pelo lixo. Num barraco, onde tremula uma bandeira do Brasil, em frangalhos, duas figuras miseráveis aparentam uma normalidade absolutamente resignada e sem qualquer esperança. Pudera, o nosso país, finalmente, virou um imenso lixão.

A foto 201511041742196612do lixão da Estrutural, em Brasília, distante apenas 15 quilometros do Palácio do Planalto, de autoria do fotógrafo e jornalista André Coelho, da Agência Globo, ajuda imaginarmos esse pesadelo. Mas, infelizmente, a realidade é sempre muito mais chocante e a realidade, o aqui e agora, não precisa de nenhuma imagem para ilustrá-lo, basta citar os nomes de nossas principais “lideranças”, verdadeiras bestas do apocalipse!

Faço minhas as palavras do jornalista Fernando Gabeira, em seu artigo “Cedo demais para esquecer”, publicado ontem, dia 8, no seu blog:

“Saquearam o país, arruinaram a Petrobras, vendem medidas provisórias no Planalto, vendem-se jabutis para medidas provisórias na Câmara, venderão, se puderem, a última árvore de nossa floresta, a última gota de nossas nascentes.

Não importa para eles que o país entre em parafuso. Muitos têm contas na Suíça, outros, como um deputado do PT, ganham apartamentos em Miami.

Para as grandes fortunas, esse vendaval é apenas uma brisa. No entanto, é devastador para os todos que vivem, modestamente, de seu trabalho.

Como deixar Dilma de lado, depois de utilizar o dinheiro público como quis, pedalando em nome dos pobres e canalizando o dinheiro para as grandes empresas? Como esquecer o maior escândalo da História e não relacioná-lo à milionária campanha do PT? Como acordar todas as manhãs sabendo que a Câmara é uma piscina cheia de ratos, cujo presidente é um gângster com contas na Suíça?”

E aí eu olho a foto de novo e fico me perguntando que tipo de futuro o Brasil merece…

Obsceno poder

Dias difíceis para os brasileiros.

Corrupção, inflação, descrédito, desgoverno, desesperança. O mais preocupante, entretanto, é não ver luz alguma no fim do túnel, assistir um espetáculo de horrores, a prisão em série de políticos, empresários e funcionários públicos com as mãos (bolsos?) cheios de bilhões de reais, dinheiro público, o nosso dinheiro. Ter a desagradável sensação que ainda vem mais sujeira por aí…

Passar por cidades prematuramente fantasmas, onde esqueletos de faraônicos projetos inacabados são as nossas ruínas romanas. Ouvir desculpas esfarrapadas, ideias sem sentido, testemunhar a incompetência arrogante de quem se considera acima do bem e do mal. Dói mais ainda quando percebemos que as novas cortes e seus acólitos terminarão, de uma forma ou de outra, impunes. Na pior das hipóteses, esquecidos.

Obsceno, entre outras coisas, é aquilo (ou aquele) que afeta a moral comum de uma sociedade. E isso só não vê quem não quer. Ou não pode. Ou não consegue. O escritor Carlos Heitor Cony sintetizou muito bem o momento brasileiro, em sua coluna de hoje, na Folha de SP, de onde destaco o seguinte trecho, sobre a imoral negociação envolvendo os ministérios do governo federal:

“Ficou escancarado o recurso obsceno usado pela presidente que enfrenta a possibilidade de um impeachment. Ela teve tempo para testar os ministros que nomeara ao tomar posse numa data anterior.

Para contentar os congressistas que poderiam cassá-la das funções presidenciais, ela organizou um grupo de auxiliares comprometidos com os partidos que a defenderão em plenário. Não foi uma medida tomada por um chefe de Estado e sim de uma oportunista que se agarra ao poder sem nenhum escrúpulo moral.

Pessoalmente, não vejo necessidade de um impeachment. Mas Dona Dilma de tal maneira se avacalhou, que não mais merece a função de presidir um país bichado pela obscenidade de um governo em falência.”

A propósito e talvez não por acaso o novo titular do Ministério da Ciência e Tecnologia, além de não ter nenhuma formação científica, é dono de um restaurante na Baixada Fluminense chamado “Barganha”, ironicamente um local muito apropriado para essa gente comemorar suas obscenidades.

oOo

Leia também “Vazio Poder“.

Ouvi por aí, em pleno feriadão…

 

Viva a independência e a separação do Brasil. Pelo meu sangue, pela minha honra, pelo meu Deus, juro promover a liberdade do Brasil. Independência ou Morte! (Dom Pedro I, em 7 de setembro de 1822).

O Brasil não é para principiantes (Tom Jobim).

No Brasil o otimista dorme com medo de acordar pessimista (Millôr Fernandes).

O Brasil é sério, mas é surrealista (Jorge Amado).

O Brasil é uma nação de espertos que reunidos, formam uma multidão de idiotas (Gilberto Dimenstein).

Quem pensa que Deus é brasileiro pode estar certo: ele se mudou (Ziraldo).

O Tiradentes devia ser o padroeiro do Brasil; tá todo mundo com a corda no pescoço (José Simão).

A prosperidade de alguns homens públicos do Brasil é uma prova evidente de que eles vêm lutando pelo progresso do nosso subdesenvolvimento (Stanislaw Ponte Preta).

Eu proporia que se substituissem todos os capítulos da Constituição por um artigo único: todo brasileiro fica obrigado a ter vergonha na cara (Capistrano de Abreu).

Brasil?
Fraude explica.
(Carlito Maia)