Vírus Filho da Puta!

Shuterstock

Os números são terríveis: no mundo são 25.251.334 casos de Covid-19 e 846.841 mortes. O Brasil contribuiu até agora com 3.908.272 casos (15,47%) e 121.381 fatalidades (14,33%). Nosso desgovernado Estado do Rio tem 223.631 casos e 16.065 óbitos e Nova Friburgo, com 2.409 casos e 100 mortes, aparece lá embaixo mas com números preocupantes para uma cidade que não chega a ter 200 mil habitantes.

Enquanto isso assistimos, estupefatos, o afastamento de mais um governador, a prisão de dezenas de autoridades, políticos e empresários envolvidos em um revoltante e nojento caso de desvio de dinheiro da saúde, superfaturamento de hospitais, formação de quadrilhas, recebimento de propinas e diabo a quatro. Já são sete os chefes do governo fluminense presos, processados ou investigados e afastados por, digamos gentilmente, mal feitos.

Quem elegeu essa gentinha? Nós, é claro, que nos acostumamos a votar no menos pior, durante anos escolhemos representantes corruptos e inúteis para as casas legislativas, fechamos os olhos para os desmandos de pseudo autoridades desde que tenhamos carnaval, praia e futebol, não necessariamente nessa ordem; delegamos poderes da época do império a nulidades que não conseguem assinar o nome, não entendem o que ouvem e não sabem falar. Uma lástima!

Foto: Wilton Junior/ Estadão

A visão dantesca das fotos e vídeos das praias cariocas no último final de semana é de provocar engulhos. Estavam comemorando o fim da pandemia? A cura do vírus? O que esse povo tem na cabeça? Em quem essa gente confia? Acreditam mesmo nos irresponsáveis pela saúde pública? Na mídia partidária? No coelhinho da Páscoa? Ou seria no Papai Noel?

Dizem que os critérios para a flexibilização são técnicos mas como precisam atender a uma senhora com o sonoro nome de “Reeleição”, aceitam qualquer barbaridade que um aspone ou empresário buzine no ouvido da “Vossa Excelencia” da vez. Até hoje não entendo porque as eleições deste ano foram mantidas. Um desserviço para a população, quando bastava prorrogar os mandatos por uns seis meses ou até o vírus ser controlado, sei lá, usassem a criatividade!

E por falar nisso, a escolha dos prefeitos e vereadores deveria ser mais importante para o cidadão do que a do governador e até mesmo do presidente (com minúsculas, por favor). Um país continental como o nosso não pode depender de uma pequena e poderosa pseudo elite que se aboletou há anos no poder, independente de qualquer ideologia. O voto distrital seria uma boa? Talvez… Não por acaso, a turma de Brasília tem horror a essa ideia.

Desenho: Oscar Niemeyer
Vivemos um momento tão confuso que ninguém mais sabe quem manda em quem no Brasil e todo mundo, mas todo mundo mesmo é culpado por essa mixórdia, agravada pelo Coronavírus. Depois de todas as asneiras ditas e cometidas que nos levaram a uma tragédia, lembro do escritor israelense Eshkol Nevo que, em uma ótima crônica no jornal espanhol El País, afirma que “não está disposto a escutar mais ninguém dizendo que o vírus vai nos ensinar uma lição, e que vai nos fazer retornar a uma vida mais simples. O vírus é um filho da puta.”

No fundo, é isso aí mesmo: somos todos filhos da puta!

Carlos Emerson Junior (setembro/2020)

O caso dos doze comprimidos

Aconteceu comigo. Minto, ainda acontece e faço questão de contar. 

Infelizmente sabemos que tirando as curas milagrosas de Jesus, ainda não existe um meio eficaz de curar uma doença sem utilizar algum tipo de remédio, qualquer um, mesmo que seja um placebo! O pior é que dependendo da gravidade de seu estado, mais medicação será recomendada, com e apesar dos famosos “efeitos colaterais”. 

Ao contrário de muita gente boa, nunca fui muito “amigo” de pílulas, cápsulas, comprimidos, xaropes, poções, pomadas, cremes, sublinguais, injeções, supositórios e afins, não necessariamente nessa ordem. Acredito sim que temos grande dificuldade de aceitar que um algum dia deixaremos de ser eternamente jovens e receberemos a conta dos anos de descaso com nossa saúde física e mental.

Por alguma razão passei grande parte da vida praticamente incólume neste quesito: uma gripe aqui, outra dor de barriga ali, uma indisposição acolá e stress, esse sim, sempre. Nunca quebrei um ossinho e tampouco fui internado em um hospital. Mas, mesmo sem querer enxergar o óbvio, o tempo corre inexorável e tive que aprender a usar óculos e remédios diários para controlar a pressão arterial, ansiedade e dores de cabeça. 

Para resumir, hoje tomo exatos e obrigatórios doze comprimidos por dia: 7 da quimioterapia, 3 da hipertensão, um para a gastrite e é claro, um para  manter a sanidade num país completamente insano. Eventualmente tenho a postos um para dor nas costas, outro para regular o intestino, um colírio e um outro com um gosto horrível para azias. Deve ser por isso que sou tão bem recebidos nas farmácias. 

Mas o que me incomoda mesmo (e aí não tem remédio que cure) é o descaso com a saúde pública, em todos os níveis. A pandemia é cruel até por isso, ao expor de maneira crua e mortal a incompetência e a desonestidade das autoridades em todos os níveis, algumas incapazes de atitudes coerentes com a gravidade  do momento e outras mais preocupadas com o lucro de transações criminosas, imorais e escusas.

Enquanto isso, vamos driblando nossas próprias deficiências, tentando viver sem trabalho, saúde e o pior de tudo, sem nenhuma esperança de dias melhores. Meus doze comprimidos não tem culpa de nada e se Deus quiser vão me deixar curado. No entanto, com certeza, para mim serão sempre o símbolo de dias confusos, angustiantes e cheios de incertezas.  

Aprendemos alguma coisa? Tomara que sim, afinal seremos todos sobreviventes. E sinceramente, espero nunca mais ver um hospital de campanha que custou 60 milhões de reais aos cofres públicos, ser abandonado em plena pandemia. Ninguém merece…

Corvus oculum corvi non eruit

Google Imagem

Um corvo não arranca o olho de outro corvo, enquanto ambos são coniventes e convenientes, enquanto precisarem um do outro. A expressão em latim serve muito bem para o momento político que estamos vivendo nos últimos dias. Supremo, Congresso, Executivo, Judiciário, cheios de corvos unidos para manter a esbórnia existente desde o final da década de 90. Infelizmente, são muitos, frustrante. Corvus oculum corvi non eruit. Os romanos tinham razão.

A glória é efêmera

Quando um general da Roma Antiga retornava vitorioso, era homenageado publicamente desfilando com suas legiões pelas ruas da cidade. Nesse dia, ele usava uma coroa de louro e vestia-se com uma toga bordada de roxo e ouro. Em uma quadriga, carruagem com quatro cavalos, desarmado, vinha a frente dos soldados, prisioneiros e despojos de suas batalhas. Entretanto, durante toda a cerimônia, na mesma carruagem e bem atrás do general, um escravo sussurrava em seus ouvidos o tempo todo: “olhe para trás. Lembre-se de que és um homem e toda a glória é efêmera”.

Pois é! A historinha é de Roma mas reparem, serve muito bem para o Brasil.

A tragédia do Brasil

Foto: Andre Penner/AP Photos

Os números falam por si: 121 mortos, 205 desaparecidos, um rio morto, plantações, casas, vidas destruídas, centenas ou talvez milhares de animais de todos os tipos perdidos para sempre e um enorme desalento e desesperança com mais uma tragédia anunciada que sacudiu o nosso país em Brumadinho, Minas Gerais.

É inconcebível que o mesmo tipo de desastre tenha se repetido com a mesma empresa, no mesmo estado, quatro anos depois. O que nos leva a outra reflexão, a impunidade, a morosidade da justiça, o desinteresse das autoridades responsáveis, a certeza de que o assunto será esquecido dentro de mais uns dez dias, como bem disse o colunista Ricardo Boechat em seu editorial de hoje, na Band News.

Pois é… Torço para que desta vez estejamos todos errados e a justiça será feita, doa a quem doer, sem ver cara, cor, títulos e poder. Em algum momento, o Brasil vai ter qie dar um basta nessa postura imperial, onde uns são melhores e mais imprescindíveis do que os outros. Que esse basta seja agora!

O petróleo é nosso. E daí?

Foto: Edison Luiz

De toda essa confusão que a greve dos caminhoneiros está provocando – incluindo aí a merecida desmoralização do governo federal – dois pontos me deixam profundamente triste e, se é que isso é possível, cada vez mais desanimado com o futuro do Brasil. Estou falando da nossa completa dependência do petróleo e do transporte rodoviário, como se ainda vivêssemos em pleno século passado.

Amigos, não vivi 50 anos no século XX para ser testemunha da nossa incapacidade de sair dos anos 60, 80, sei lá! Enquanto aí fora se produz realidade virtual, fontes alternativas de energia, as cidades são devolvidas às pessoas, a ciência avança em todas as frentes e a saúde é realmente para todos, continuamos na mesma vidinha de todo o sempre, vivendo de lembranças e glórias que nunca chegaram à população.

Desculpem o mau humor, mas o Brasil está um saco!

Lugar nenhum

Os dados abaixo, levantados pelo jornalista Luiz Ruffato para o seu certeiro artigo “Um país apático, rumo a lugar nenhum”, publicado na edição eletrônica do jornal espanhol El País mostram, de forma resumida, é claro, como anda (?) o nosso país na área social. Vamos lá:

“O Brasil figura entre os 10 países mais desiguais do mundo – 5% dos ricos detêm renda igual a 95% da população, segundo estudo da ONG britânica Oxfam. Além disso, enquanto os pobres gastam em impostos 32% de tudo o que recebem, os ricos despendem apenas 21%. A taxa de analfabetismo chega a 8% do total da população, enquanto o analfabetismo funcional chega a 17,1%, segundo dados do IBGE – ou seja, um em cada quatro brasileiros não sabe ler e escrever ou não compreende textos simples. Na faixa entre 15 e 17 anos, 22% dos jovens estão fora da escola, número que permanece mais ou menos o mesmo desde 2000. Enquanto isso, segundo o Atlas da Violência 2017, em 2015 foram assassinadas 59 mil pessoas, o que equivale a 28,9 mortes por 100 mil habitantes, e outras 47 mil pessoas perdem a vida no trânsito todo ano, conforme dados da Organização Mundial da Saúde (OMS).”

E piora:

“Segundo o IBGE, em agosto existiam 26,3 milhões de brasileiros desempregados ou subocupados, estatística que pode ser aferida pelo aumento significativo de famílias inteiras morando nas ruas. O Brasil, que tinha em 2014 deixado o Mapa da Fome – acima de 5% da população ingerindo menos calorias que o recomendado – pode voltar e ele este ano.”

Pois é… Esses números explicam o medo nosso de todos os dias, a apatia, a desesperança. O silêncio das ruas soa como um aval ensurdecedor para políticos, bandidos (ou as duas coisas) e seus negócios escusos, seus esquemas, seu poder ilimitado. O Ruffato tem razão, estamos parados, indo para lugar nenhum…

Editorial

Já havia prometido a mim mesmo que não ia mais tocar, escrever, falar ou insinuar qualquer coisa – inclusive gracinhas – sobre lava-jato, corrupção, política, lula, dilma, aécio, temer, pt, pmdb, psdb, pp (e todos os 30 e não sei quantos partidos), justiça (lenta, partidária, obsoleta, corrupta também), rio de janeiro (pezão, cabral, paes, crivella, garotinho, rosinha e por aí vai), futebol, olimpíadas, sei lá, tudo isso que envergonha o Brasil.

Resumindo, o que eu queria (e deveria) fazer era dar um pulo no futuro (se é que ele existe), pegar uma nave interestelar até uma galáxia qualquer, hibernar uns 150 anos, dar um rolê por lá e voltar para nosso planetinha, dormindo de novo por mais 150 anos. Aí sim, se o Brasil ainda existisse, talvez (eu disse talvez), valesse a pena continuar morando nesta terra de clima quente, rica em recursos naturais, com uma flora e fauna únicas e um povinho que vem estragando tudo desde que cabral (o português) baixou por essas bandas.

Infelizmente as viagens tripuladas ao espaço não vão mais sequer à Lua, mas o que eu quero deixar claro é que tempos piores ainda podem vir se todo mundo resolver deixar prá lá e apenas sobreviver (o que, aliás, já é uma coisa muito complicada aqui no Rio). Não entendo como a população gasta tanta energia com somenos e é incapaz de demonstrar (pelo menos) alguma indignação pública com tudo e todos que aí estão enrolados até a alma, alguns presos, é verdade, mas contando com a eleição do ano que vem para retornarem triunfais com seus esquemas, roubos, canalhices e a pouca (ou nenhuma) vergonha de sempre.

Sei lá. Na França, em 1789, por causa de um brioche, cortaram (literalmente) um monte de cabeças coroadas. Na Rússia, em 1917, mais outro tanto. Por aqui, nem um pio. Pois é, daí lembro que alguém falou que o brasileiro é um povo pacífico. Que nada, somos apenas um povo passivo.

Pintura: Tomada da Bastilha, de Jean-Pierre Louis Houël

Quase um blues

O computador toca uma balada de Miles Davis. Na verdade, quase um blues, o que não faz a menor diferença, vindo de quem vem. Fosse uma valsa, um xote, um funk, um rock ou uma ópera completa, com libreto e tudo, seria sempre um Miles Davis. Mas o assunto de hoje não é jazz, nem o fantástico músico e compositor americano que deixou como legado uma obra extensa, genial e inspiradora. Não, infelizmente, sou obrigado a ficar no plano terreno e lembrar que o Brasil virou uma “tragédia mexicana” de péssimo gosto.

O nosso legado é triste, lamentável, indigno até. Regredimos, sem o menor exagero, uns bons 50 anos e não estou falando só de políticos. Perdemos o rumo na economia, educação e saúde. Falimos. A pesquisa científica definha, as artes agonizam, o esporte patina, a cultura se perde.

Somos todos corruptos? Não, claro. Mas nosso silêncio acaba por nos tornar cúmplices de toda essa corja que assaltou os cofres públicos, fraudou eleições, vendeu a constituição, inventou e superfaturou obras, em sua grande maioria inúteis e tratou os brasileiros como um bando de babacas.

Pois é. No fundo somos mesmos otários, discutindo pelas redes sociais que fulano, beltrano e sicrano são isso e os outros são aquilo, como se não soubéssemos que todos eles, todos mesmo, não passam de um bando de ladrões, merecedores de todo o nosso desprezo e vergonha.

O blues surgiu no final do século 19, com o canto dos escravos que colhiam algodão nas fazendas norte americanas. Segundo o escritor e historiador britânico Paul Oliver, “o blues é um estado de espírito e a música que dá voz a ele. O blues é o lamento dos oprimidos, o grito de independência, a paixão dos lascivos, a raiva dos frustrados e a gargalhada do fatalista. É a agonia da indecisão, o desespero dos desempregados, a angústia dos destituídos e o humor seco do cínico”.

Lamentos, paixão, raiva, agonia, desespero, grito de independência. Que nada… Infelizmente, por aqui, ainda não passamos da ilusão e todo o sofrimento sequer é quase um blues. Na verdade, não é nada mesmo. Um dia, quem sabe, a gente acorda, consegue se unir, botar essa canalhada para correr e construir um novo Brasil, desta vez prá valer. É isso, nossa única reação é sonhar.

Desenho: Jano

A tragédia do Brasil

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Um bar carioca, algum dia em março de 2117:

O comandante, furioso, mandou os mecânicos resolverem o problema com urgência. No horizonte, uma tempestade se aproximava. O tempo passava e, completamente à deriva, o Brasil seguia indefeso ao sabor da maré. A borrasca, de proporções descomunais, atingiu os infelizes em cheio. A tripulação, temendo um naufrágio, baixou os botes salva-vidas para, digamos assim, salvar a própria pele.

Os passageiros, tardiamente perceberam que estavam sendo abandonados, mas, sem iniciativa e liderança, entraram em pânico e alguns até mesmo se atiraram ao mar para a morte certa. Inacreditavelmente o Brasil suportava a terrível tempestade, jogado para cima e para baixo pelas ondas como uma simples folha de papel. Um operador de rádio, um dos poucos remanescentes da tripulação ainda a bordo, tentava desesperadamente enviar pedidos de socorro. Alguns foram captados, embora quase ininteligíveis. Um deles dizia mais ou menos assim: “… Brasil à deriva, fazendo água, sem comandante e oficiais, passageiros em pânico, caos total. Socorro. Latitude…”

Para encurtar o caso, o Brasil nunca mais foi visto, outro sinal jamais foi enviado, nenhum destroço sequer foi encontrado. Todos a sua população, perdão, passageiros e tripulantes desapareceram. Mais de cem anos depois, até seu sumiço foi esquecido e nem ao menos um navio fantasma ele virou. Uma tragédia, o Brasil ainda tinha um futuro pela frente.”

PS: Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança como nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência.

Golpe de mão

 

Falam de golpe.
Conspiram. Traçam planos. Ameaçam.
Procuram o inimigo até entre os amigos.
Juram lutar até a morte.

Falam de golpe.
Preparam-se para a guerra, apresentam suas baionetas.
“No passará”, gritam em uníssono, triunfantes.
Pior, arrogantes.

Falam de golpe.
Palavras vãs, bravatas perdidas ao léu.
Sequer meias verdades são.
Lembro dos versos do Joaquim Coelho,
poeta português que lutou em Angola,
viveu o horror das batalhas de verdade:

“E nós, combatentes e detestados,
estamos a comer o pó do sertão,
enquanto caminhamos sufocados
até ao derradeiro golpe de mão!”

Falam de golpe.
Estúpidos,
não tem nenhuma ideia do que estão falando!

Ruínas

Fiquei em dúvida sobre qual a imagem mais apropriada para ilustrar esse comentário. As do desastre ambiental de Mariana seriam a escolha óbvia mas, em respeito às vítimas e enojado com a “passividade” quase criminosa de autoridades e empresas envolvidas, escolhi uma foto do meu arquivo pessoal, mostrando que atrás de prédios -ou instituições e pessoas – podem se esconder enormes ruinas (no caso, o prédio do antigo Cassino da Urca, aqui no Rio).

Em seu contundente artigo “O terremoto de todos os dias“, publicado no jornal El País, o jornalista e escritor Juan Árias, comentando a prisão de um senador da república (com minúsculas mesmo) e um “poderoso” banqueiro, deixa para nossa reflexão o seguinte:

“O Brasil está vivendo, de fato, um momento crítico e grave, difícil de definir e de contar dentro e fora do país. É uma mistura de terremoto político, cujo epicentro se encontra nos próprios fundamentos da República, e de esquizofrenia que impede a sociedade de entender se está vivendo na realidade ou no imaginário.

Um país que festejava há apenas dois ou três anos uma ascensão econômica e social inédita, inveja até de países desenvolvidos, que chegou a sonhar em sentar-se à mesa dos que dirigem os destinos do mundo, vive hoje uma espécie de miragem.

É como se, de repente, tivesse acordado de um sonho para tocar com a mão que a realidade crua e nua é muito diferente. O Brasil está gravemente doente politicamente.

E como no simbolismo da esquizofrenia, a sociedade se pergunta se a classe política vive na realidade, ou se se perdeu no marasmo de suas próprias alucinações e ilegalidades.”

Fico aqui cismado, tentando lembrar quantas crises políticas, morais e econômicas já devastaram o Brasil, acabando com os nossos sonhos de um futuro próspero. Desta vez a justiça está fazendo sua parte, colocando os canalhas na cadeia e provocando a indignação geral.

Meu maior medo, entretanto, é que o dano ao país e à nossa auto-estima tenha sido irreparável. Tomara que não.

Foto: Carlos Emerson Junior

 

Futuro?

Um imenso deserto, árido, tomado pelo lixo. Num barraco, onde tremula uma bandeira do Brasil, em frangalhos, duas figuras miseráveis aparentam uma normalidade absolutamente resignada e sem qualquer esperança. Pudera, o nosso país, finalmente, virou um imenso lixão.

A foto 201511041742196612do lixão da Estrutural, em Brasília, distante apenas 15 quilometros do Palácio do Planalto, de autoria do fotógrafo e jornalista André Coelho, da Agência Globo, ajuda imaginarmos esse pesadelo. Mas, infelizmente, a realidade é sempre muito mais chocante e a realidade, o aqui e agora, não precisa de nenhuma imagem para ilustrá-lo, basta citar os nomes de nossas principais “lideranças”, verdadeiras bestas do apocalipse!

Faço minhas as palavras do jornalista Fernando Gabeira, em seu artigo “Cedo demais para esquecer”, publicado ontem, dia 8, no seu blog:

“Saquearam o país, arruinaram a Petrobras, vendem medidas provisórias no Planalto, vendem-se jabutis para medidas provisórias na Câmara, venderão, se puderem, a última árvore de nossa floresta, a última gota de nossas nascentes.

Não importa para eles que o país entre em parafuso. Muitos têm contas na Suíça, outros, como um deputado do PT, ganham apartamentos em Miami.

Para as grandes fortunas, esse vendaval é apenas uma brisa. No entanto, é devastador para os todos que vivem, modestamente, de seu trabalho.

Como deixar Dilma de lado, depois de utilizar o dinheiro público como quis, pedalando em nome dos pobres e canalizando o dinheiro para as grandes empresas? Como esquecer o maior escândalo da História e não relacioná-lo à milionária campanha do PT? Como acordar todas as manhãs sabendo que a Câmara é uma piscina cheia de ratos, cujo presidente é um gângster com contas na Suíça?”

E aí eu olho a foto de novo e fico me perguntando que tipo de futuro o Brasil merece…

Obsceno poder

Dias difíceis para os brasileiros.

Corrupção, inflação, descrédito, desgoverno, desesperança. O mais preocupante, entretanto, é não ver luz alguma no fim do túnel, assistir um espetáculo de horrores, a prisão em série de políticos, empresários e funcionários públicos com as mãos (bolsos?) cheios de bilhões de reais, dinheiro público, o nosso dinheiro. Ter a desagradável sensação que ainda vem mais sujeira por aí…

Passar por cidades prematuramente fantasmas, onde esqueletos de faraônicos projetos inacabados são as nossas ruínas romanas. Ouvir desculpas esfarrapadas, ideias sem sentido, testemunhar a incompetência arrogante de quem se considera acima do bem e do mal. Dói mais ainda quando percebemos que as novas cortes e seus acólitos terminarão, de uma forma ou de outra, impunes. Na pior das hipóteses, esquecidos.

Obsceno, entre outras coisas, é aquilo (ou aquele) que afeta a moral comum de uma sociedade. E isso só não vê quem não quer. Ou não pode. Ou não consegue. O escritor Carlos Heitor Cony sintetizou muito bem o momento brasileiro, em sua coluna de hoje, na Folha de SP, de onde destaco o seguinte trecho, sobre a imoral negociação envolvendo os ministérios do governo federal:

“Ficou escancarado o recurso obsceno usado pela presidente que enfrenta a possibilidade de um impeachment. Ela teve tempo para testar os ministros que nomeara ao tomar posse numa data anterior.

Para contentar os congressistas que poderiam cassá-la das funções presidenciais, ela organizou um grupo de auxiliares comprometidos com os partidos que a defenderão em plenário. Não foi uma medida tomada por um chefe de Estado e sim de uma oportunista que se agarra ao poder sem nenhum escrúpulo moral.

Pessoalmente, não vejo necessidade de um impeachment. Mas Dona Dilma de tal maneira se avacalhou, que não mais merece a função de presidir um país bichado pela obscenidade de um governo em falência.”

A propósito e talvez não por acaso o novo titular do Ministério da Ciência e Tecnologia, além de não ter nenhuma formação científica, é dono de um restaurante na Baixada Fluminense chamado “Barganha”, ironicamente um local muito apropriado para essa gente comemorar suas obscenidades.

oOo

Leia também “Vazio Poder“.

Ouvi por aí, em pleno feriadão…

 

Viva a independência e a separação do Brasil. Pelo meu sangue, pela minha honra, pelo meu Deus, juro promover a liberdade do Brasil. Independência ou Morte! (Dom Pedro I, em 7 de setembro de 1822).

O Brasil não é para principiantes (Tom Jobim).

No Brasil o otimista dorme com medo de acordar pessimista (Millôr Fernandes).

O Brasil é sério, mas é surrealista (Jorge Amado).

O Brasil é uma nação de espertos que reunidos, formam uma multidão de idiotas (Gilberto Dimenstein).

Quem pensa que Deus é brasileiro pode estar certo: ele se mudou (Ziraldo).

O Tiradentes devia ser o padroeiro do Brasil; tá todo mundo com a corda no pescoço (José Simão).

A prosperidade de alguns homens públicos do Brasil é uma prova evidente de que eles vêm lutando pelo progresso do nosso subdesenvolvimento (Stanislaw Ponte Preta).

Eu proporia que se substituissem todos os capítulos da Constituição por um artigo único: todo brasileiro fica obrigado a ter vergonha na cara (Capistrano de Abreu).

Brasil?
Fraude explica.
(Carlito Maia)