Livros em quarentena

Confesso que tenho lido e escrito muito pouco. O isolamento tem um preço que é agravado pela medicação da quimioterapia, a concentração. Segundo neurologistas do Hospital das Clínicas de São Paulo, “o isolamento pode provocar certo embotamento psicológico, frieza e distanciamento das emoções positivas”. De uma maneira grosseira, acho muito mais simples tirar uma soneca do que mergulhar nas páginas de um romance.

Mas tenho me esforçado, é claro. Minha filha mais nova nos presenteou com dois livros de autores suecos, “Um Homem Chamado Ove”, de Frederik Backman, Editora Objetiva e “O Ancião Saiu Pela Janela e Desapareceu”, do Jonas Jonasson, da Editora Record. Estou lendo o primeiro, que já nos surpreende de cara com o título do capítulo 1: “Um homem chamado Ove compra um computador que não é um computador”. Pois é!

O outro livro sueco, “O Ancião Saiu Pela Janela e Desapareceu”, está sendo lido com gosto pela minha mulher. Em sua opinião, apesar da história meio estranha ou talvez, muito escandinava, um senhor centenário que foge de um asilo só de pantufa e pijama e participa de aventuras inesperadas e até mesmo inacreditáveis, é um romance engraçado, ágil e ideal para passar as horas sem a menor preocupação.

Já “A Hora Final”, romance distópico do escritor inglês Nevil Shute, lançado em 1958 e atualmente fora de catálogo no Brasil (comprei meu exemplar, uma edição de 1974 da Companhia Editora Nacional, na internet) foi a base do aclamado filme do mesmo nome, lançado em 1959 com Gregory Peck, Ava Gardner, Fred Astaire e Anthony Perkins. Uma guerra nuclear destruiu todo o hemisfério norte e uma imensa e mortal nuvem radioativa se espalhou pelos países que restaram no hemisfério sul, entre eles, a Austrália (onde a história se desenrola), Brasil e Uruguai. Leitura pesadíssima para esses dias obscuros que estamos vivendo, mas indispensável para os fãs do filme e das e plausíveis histórias de ficção científica.

“Prazer em Queimar – Histórias de Fahrenheit 451”, editado pela Biblioteca Azul, é uma coletânea do escritor norte-americano Ray Bradbury, reunindo “dezesseis contos que deram origem ao seu romance clássico e obra-prima, Fahrenheit 451”. Acho que já li quase toda os trabalhos do autor, mas quando vi na resenha que este livro traz alguns inédito, não resisti e encomendei na mesma hora. Como ainda não li e cheio de expectativas, devo uma postagem com a devida resenha, para o bem ou para o mal.

“O Bom Pastor”, do britânico C.S.Forester, lançado em 1955 nos Estados Unidos e na Inglaterra e em 2020 no Brasil, pela Editora Record, narra a saga do comandante de um contratorpedeiro americano em um comboio de navios cruzando o Atlântico norte, levando tropas, mantimentos, combustível, armas, remédios e alimentos em plena Segunda Guerra Mundial. O ano é 1942 e os submarinos alemães, em grande número e atacando como matilhas de lobos são mortíferos. Para piorar, essa é a primeira missão do comandante do comboio…

Comprei o e-book na Amazon por impulso, logo após assistir na internet ao badalado e inédito longa metragem “Greyhound”, com o Tom Hanks, baseado nessa história. O filme, muito bom, por sinal, capricha no ambiente soturno, hostil, frio e cruel, mostrando como angustiantes e terríveis eram essas viagens. Vai ser a leitura seguinte ao livro do “Ove”.

*****

Pois é, livros e filmes são ótima companhia para esses dias (meses, anos, séculos, vai saber…) de quarentena do Covid-19, principalmente se levamos o isolamento à sério, saindo de casa o estritamente necessário e possível. Aliás, estou sendo injusto, livros são os nossos amigos para qualquer hora e o melhor, não tem nenhum efeito colateral. Palavra de quem adora ler!

Carlos Emerson Junior (agosto/2020)

Bicho Pau, o filme

Vocês conhecem o Bicho Pau? Pois é, eu já tinha até feito um post sobre ele no ano passado, o Bicho Pau, um curioso inseto, considerado um mestre da mimetização, além de ser um dos maiores do mundo, podendo atingir até 60 centímetros) claro. Depois disso já cruzei com outros exemplares simplesmente completamente imóveis, andando em árvores (dificílimo de ver e fotografar, o danado muda de cor ou procura um tronco apropriado e simplesmente desaparece) e esse aí do filme, que entrou (possivelmente por engano) na varanda, olhou para mim, não gostou do viu e seguiu seu caminho em direção ao telhado. Bom viagem, meu caro.

A propósito, o Bicho Pau é um inseto do bem, não passa doenças, não ataca e, na dúvida, some de nossa vista. Existem cerca de 3.000 espécies ao redor do planeta e mais de 220 aqui no Brasil, principalmente na região Amazônica e na Mata Atlântica, por acaso exatamente onde atualmente moro. Mais informações sobre o simpático e original bichinho podem ser obtidas aqui e acolá. O filmete foi feito hoje mesmo (dia 29/8/2020), por volta do meio dia.

Os Estatutos do Homem

(Ato Institucional Permanente)

por Thiago de Mello
Santiago do Chile, 1964

Artigo I.
Fica decretado que agora vale a verdade.
que agora vale a vida,
e que de mãos dadas,
trabalharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II.
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III.
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV.
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo Único:
O homem confiará no homem
como um menino confia em outro menino.

Artigo V.
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.

Artigo VI.
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII.
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII.
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX.
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha sempre
o quente sabor da ternura.

Artigo X.
Fica permitido a qualquer pessoa,
a qualquer hora da vida,
o uso do traje branco.

Artigo XI.
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo.
muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII.
Decreta-se que nada será obrigado nem proibido.
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.

Artigo XIII.
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.

Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade.
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.

*****

Amadeu Thiago de Mello é um poeta e tradutor brasileiro. É um dos poetas mais influentes e respeitados no país, reconhecido como um ícone da literatura regional. Tem obras traduzidas para mais de trinta idiomas.

Casa de Marimbondos

Foto: Carlos Emerson Jr.

“Marimbondo furibundo
Vai mordendo meio mundo
Cuidado com o marimbondo
Que esse bicho morde fundo!”
(Vinícius de Moraes, 1970)

 

– Não brinca aí, menino, não está vendo a casa de marimbondos? Pois é, não vi mesmo; quando a gente é criança não presta atenção nessas coisas, não sabe que pode ser perigoso, acredita que tudo é implicância de gente grande. Dei sorte na vida (ou tive juízo) e consegui manter sempre uma distância cautelosa desses insetos. Afinal, como já diziam os antigos, o seguro morreu de velho…

Ferroada de marimbondo dói pra burro. Lembro de uma de minhas idas à parasidíaca Ilha Grande, no litoral sul do Estado do Rio, para acompanhar uma vistoria da Marinha do Brasil a um enorme terreno de propriedade da empresa onde trabalhava na época, ainda tomado pela Mata Atlântica. Lá pelas tantos, floresta adentro, o mateiro passou, o pessoal da Marinha foi atrás e eu dei de cara com um bando de marimbondos. O resultado final desse encontro foi o mateiro tirando o ferrão da minha mão com um facão, aplicando a seiva de uma planta nativa na ferida, garantindo que daria para guiar de volta ao Rio antes que a mão virasse um balão.

Deu para voltar para casa e sim, a mão inchou muito!

Que ninguém nos ouça, mas pessoalmente tenho muito mais medo de mosquitos do que de abelhas, vespas e cia., predadores naturais dos transmissores da dengue e outras pestes. E já que estamos falando em pestes, o famigerado Covid-19 também é de aterrorizar qualquer pessoa que tenha um mínimo de sanidade mental, o que não é o caso das hordas de idiotas que vagam alegre e irresponsavelmente por aí, em pétrea aglomeração e inabalável convicção de que podem superar a doença.

Cuidado com os marimbondos, pessoal!

Hospital de Campanha

Foto: Portal Multiplix

 

“Só agora, depois de meses de pandemia, aprendi que Hospital de Campanha foi feito para arrecadar dinheiro para campanha eleitoral.”
(Redes Sociais)

 

No início de abril, o governador do Estado do Rio anunciou, com pompa e circunstância, que estava implantando sete hospitais de campanha para ajudar no combate ao Covid-19 nas cidades do Rio, São Gonçalo, Duque de Caxias, Campos, Casimiro de Abreu, Nova Iguaçu e Nova Friburgo, a um custo de 770 milhões de reais, através de um contrato emergencial, sem licitação, com uma notória OS cujo nome todos conhecemos.

Pois muito bem (ou melhor, muito mal), hoje, dia 2 de agosto, 4 meses depois, apenas duas unidades entregues (Maracanã e São Gonçalo) e já desativadas e as cinco restantes… Ninguém sabe, ninguém viu. O secretário de saúde que assinou os contratos está preso junto com os dirigentes da empresa responsável (?) pela construção e gestão das unidades, o governador devidamente acuado no Palácio Guanabara e nós, simples cidadãos contribuintes e votantes, morrendo de vergonha com mais um escândalo!

O pior de tudo é ouvir o atual secretário de saúde tentar nos convencer que os hospitais não serão ativados porque o Covid-19 já está devidamente controlado e seus índices de infecções e falecimento em plena queda. Aí fico em dúvida se estou sendo chamado de burro, idiota ou cego! De qualquer maneira, fico com a esperança que os eleitores não se esqueçam dessa pajelança estadual e deem o troco nas eleições de novembro. É o mínimo que podemos fazer.

A propósito, não sei quem é o autor da frase que abre o texto, mas deixo meus cumprimentos e assino embaixo: parabéns!

Adeus, FIló

Adeus, minha amiga. Ou melhor, até algum dia, quando eu me for e te encontrar me esperando, alegre, disposta e saudável, pulando alegre, como você fez tantas e tantas vezes nesses dez anos que convivemos juntos. Adeus, minha amiga. Se você, por um acaso, conhecer meus pais, dê um sorriso para eles e se for possível, diga que estou morrendo de saudades. Adeus, minha amiga, perdoe meus momentos de mau humor, minha insegurança, minhas dúvidas. Adeus, minha amiga, obrigado pela companhia, pelos passeios, brincadeiras e carinhos. Fique com Deus e tenha certeza que estou sentindo muito sua falta.

Adeus, Filó.

Monólito

Foto: Carlos Emerson Junior

Tudo aconteceu numa rua deserta, em um bairro residencial, sem veículos ou pessoas circulando. De um lado ficavam as casas, grandes, com muros altos cobertos de heras e do outro uma ribanceira coberta de plantas e muitas árvores. Em alguns trechos, o mato meio que se abria e viam-se as montanhas que cercavam a cidade ao longe.

Até o dia que alguém por ali passou e, ao invés dos morros, deu de cara com um objeto retangular, preto, enigmático e assustador, como que vigiando o local, como se fosse o monólito do filme famoso dos anos 60 ou um deus julgando a sua criação.

A aparição tinha tudo para ganhar o mundo: televisão, rádio, imprensa, blogs, políticos, religiosos, militares, cientistas, artistas, escritores e poetas, crentes e céticos, todos com disposição e posição tomada para defender ou execrar o evento se encaminharam para a rua outrora vazia quando uma criança, atendendo um jornalista qualquer, se espantou com tamanho alvoroço por causa de uma simples caixa d’água.

Caixa d’água? Impossível! Blasfêmia! Mentira! Que alívio! Eu sabia! Que coisa! Comunistas! Fascistas! Hipócritas! Corruptos! O presidente se calou, o governador lamentou e o prefeito mandou multar o responsável pelo desatino, colocar uma caixa d’água em local não permitido. Do dia para a noite todos queriam saber quem era esse vilão que tantas expectativas criara.

O “monólito” foi derrubado, o povo se dispersou e a rua, como sempre, voltou a ter paz, solidão e silêncio. A paisagem ainda está lá, as montanhas abraçando a cidade. As árvores, plantas e a ribanceira também. Os pais da criança que provocou todo o alvoroço, assustados se mudaram para bem longe, a vida seguiu seu rumo e nossa história aqui terminou. Aliás, sequer começou… Afinal, nada existia e nada mudou.

Cerejeiras

Foto: Carlos Emerson Jr.

“Em uma encosta de montanha,
solitária, não acompanhada,
se encontra uma árvore de cerejeira.
Exceto para você, amiga solitária,
para os outros eu sou desconhecido.”

(Abade Gyôson – 1055/1135)

oOo

Oi! Passei aqui para avisar que as cerejeiras de Nova Friburgo estão florescendo. Além de deixar a cidade muito mais bonita, são sempre um tema perfeito para versos, fotos e, quem sabe, amor. Que sejam muito bem vindas.

Copacabana

Foto: Carlos Emerson Jr.

O ano de 1950 foi bem animado: em fevereiro a escola de samba Império Serrano ganhou o desfile com o tema Batalha Naval do Riachuelo. Em junho foi inaugurado o Estádio Municipal do Maracanã e alguns dias depois começava a IV Copa do Mundo de Futebol, vencida pelo Uruguai. Já em setembro, era inaugurada em São Paulo a primeira emissora de televisão do Brasil, a TV Tupi. Em outubro Getúlio Vargas foi eleito presidente do país e nesse mesmo mês, no dia 15, na Maternidade Arnaldo de Moraes, em Copacabana, eu nasci. 

Perdoem a brincadeira mas convenhamos, a “Princesinha do Mar” era um ótimo lugar para se nascer. Morava a uma quadra da praia, no Posto Seis, onde o mar é sempre calmo, ao lado de uma pracinha feita sob medida para a criançada,  perto da escola, tinha onde andar de patins e bicicleta, uns 7 cinemas à disposição na vizinhança, bailes de carnaval infantis e fogueiras de São João nas areias da praia. 

 Não por acaso morei lá por 43 anos! 

Vida que segue, casei e me mudei, o tempo passou na janela até que um dia entra pelos meus ouvidos uma antiga canção de Braguinha e Alberto Ribeiro, gravada pelo Dick Farney em 1946 e cantarolada o tempo todo pelos meus pais, a belíssima “Copacabana”, aquela que diz “Copacabana, Princesinha do Mar, pelas manhãs tu és a vida a cantar”.  Bateu uma saudade! De longe, a gente acaba valorizando as boas lembranças e meu querido bairro, nos anos 50, era especial.

Para a rapaziada de hoje que não conhece a canção e muito menos o Dick Farney, excelente cantor de jazz e música brasileira, vale ouvir o vídeo abaixo, deixar a imaginação voar e se sentir em outros tempos, sem dúvida uma época que não volta mais.

Um abração!

O caso dos doze comprimidos

Aconteceu comigo. Minto, ainda acontece e faço questão de contar. 

Infelizmente sabemos que tirando as curas milagrosas de Jesus, ainda não existe um meio eficaz de curar uma doença sem utilizar algum tipo de remédio, qualquer um, mesmo que seja um placebo! O pior é que dependendo da gravidade de seu estado, mais medicação será recomendada, com e apesar dos famosos “efeitos colaterais”. 

Ao contrário de muita gente boa, nunca fui muito “amigo” de pílulas, cápsulas, comprimidos, xaropes, poções, pomadas, cremes, sublinguais, injeções, supositórios e afins, não necessariamente nessa ordem. Acredito sim que temos grande dificuldade de aceitar que um algum dia deixaremos de ser eternamente jovens e receberemos a conta dos anos de descaso com nossa saúde física e mental.

Por alguma razão passei grande parte da vida praticamente incólume neste quesito: uma gripe aqui, outra dor de barriga ali, uma indisposição acolá e stress, esse sim, sempre. Nunca quebrei um ossinho e tampouco fui internado em um hospital. Mas, mesmo sem querer enxergar o óbvio, o tempo corre inexorável e tive que aprender a usar óculos e remédios diários para controlar a pressão arterial, ansiedade e dores de cabeça. 

Para resumir, hoje tomo exatos e obrigatórios doze comprimidos por dia: 7 da quimioterapia, 3 da hipertensão, um para a gastrite e é claro, um para  manter a sanidade num país completamente insano. Eventualmente tenho a postos um para dor nas costas, outro para regular o intestino, um colírio e um outro com um gosto horrível para azias. Deve ser por isso que sou tão bem recebidos nas farmácias. 

Mas o que me incomoda mesmo (e aí não tem remédio que cure) é o descaso com a saúde pública, em todos os níveis. A pandemia é cruel até por isso, ao expor de maneira crua e mortal a incompetência e a desonestidade das autoridades em todos os níveis, algumas incapazes de atitudes coerentes com a gravidade  do momento e outras mais preocupadas com o lucro de transações criminosas, imorais e escusas.

Enquanto isso, vamos driblando nossas próprias deficiências, tentando viver sem trabalho, saúde e o pior de tudo, sem nenhuma esperança de dias melhores. Meus doze comprimidos não tem culpa de nada e se Deus quiser vão me deixar curado. No entanto, com certeza, para mim serão sempre o símbolo de dias confusos, angustiantes e cheios de incertezas.  

Aprendemos alguma coisa? Tomara que sim, afinal seremos todos sobreviventes. E sinceramente, espero nunca mais ver um hospital de campanha que custou 60 milhões de reais aos cofres públicos, ser abandonado em plena pandemia. Ninguém merece…

Não sei ler e escrever

Gravura: Sophie Lambert
E se eu escrevesse um romance, 
novela, um conto que seja?
Quem sabe, um poema!
Uma crônica serve? 
Ou você prefere um livro de receitas?
Pois é… Tudo para te agradar.
Mas, como você notou,
não leio ou escrevo mais nada
triste, alegre, feio ou bonito.
E sequer sei cozinhar…

Desculpe.

Carlos Emerson Junior 
(junho de 2020)

Máscaras

Google Imagens

Não serei injusto, até agora, as únicas armas que dispomos para evitar o Covid-19 são o isolamento social e as máscaras de proteção respiratória, sejam elas de TNT, pano, tricoline, descartáveis, reutilizáveis, caseiras, industriais, artesanais, fashion e por aí vai. Sorte nossa! Na última grande guerra a população só dispunha de máscaras contra gases venenosos iguais ao da foto acima, grandes, pesadas, caras e difíceis de encontrar. Só fico torcendo para que nossa dificuldade em lidar com esse vírus não nos obrigue a viver com tal trambolho na cara.

Boa quarentena, amigos.

Vai passar, Nova Friburgo!

Google Imagens

O que você faz quando precisa escrever um texto e a inspiração, ideias, criatividade e disposição desaparecem? Já notaram que em tempos de quarentena (pra valer), ficamos mais lentos, dispersos, desligados e, por que não, preguiçosos? Se faz frio e chove, como hoje, aí degringola tudo. Se sair da cama passa a ser um suplício, imagine sentar com o notebook para trabalhar, quando a vontade mesmo é vestir um moletom bem grosso, acender a lareira, tomar um chocolate quente e voltar para baixo do moletom… na cama, é claro!

Bom, vamos lá que hoje não é dia de dormir e sim de festejar o aniversário da minha querida Nova Friburgo, uma senhora com 202 anos de idade! As comemorações foram suspensas, é claro, afinal o coronavirus que sequer foi convidado para a festa, continua aprontando por aí. Hoje é feriado municipal e sequer o sol veio trabalhar. Não sei como está o centro da cidade, mas aqui no Sans Souci o silêncio chega a doer no ouvido. Sei lá, o tempo chuvoso, a quarentena prolongada e a dúvida sobre o nosso futuro desanimam qualquer um.

Hoje não vamos ter a tradicional parada na Alberto Braune com os militares do Exército, Marinha, PM e Bombeiros, a garotada e os ex-alunos das escolas com suas bandas, os músicos da Euterpe, da Campesina e tanta gente boa e amiga que nos faz sorrir. Fico aqui imaginando como seria bom se o vírus desaparecesse por algumas horas para que todos desfilassem e nos encantassem. Pena que só em em sonho mesmo…

Parabéns, Nova Friburgo! Parabéns, friburguenses. Apesar de ter passado a vida quase toda no Rio, aprendi a amar essa cidade singular, bonita e extremamente acolhedora. Não fique triste, Nova Friburgo, estamos comemorando seu aniversário com nosso coração, aqui mesmo, do seu lado, em nossas casas aguardando a hora de retomarmos nossas vidas. Parabéns, Nova Friburgo! Acredite, tudo isso vai passar.

Sempre passa!

A crônica das bananas

Google Imagens

Uma jovem distraída resolve preparar uma iguaria de infância, banana cozida, servida com açúcar e canela, uma delícia. Liga para o mercadinho da rua e pede para entregarem em sua casa 5 bananas da terra, bem maduras. O atendente anota o pedido, negociam, combinam a entrega e voltam as suas atividades: ela, terminar o trabalho gráfico no computador caseiro e ele, separar as bananas, embalar e chamar o motoboy para fazer a entrega. Tudo normal, apenas mais uma compra em um dia de isolamento social.

Quinze minutos depois o interfone da jovem toca, devem ser as bananas, pensa a jovem enquanto atende a ligação:

– Sim, fui eu mesma. Dá para colocar no elevador e mandar pra cá? Que bom, obrigada.

E dito isto caminhou até o corredor, aguardou a chegada do elevador, abriu a porta e quase caiu dura para trás: ao invés das 5 bananas, o infeliz do dono do mercado tinha enviado 5 pencas com 12 frutas, ou melhor, 60 bananas! E agora? Só um batalhão para dar conta de tantas bananas cozidas.

Correu para o telefone.

– O senhor enlouqueceu? O que é que eu vou fazer com tantas bananas?
– Também estranhei, mas foi a senhora mesma que pediu as 5 pencas. Tudo bem, não vamos brigar. Deixe as bananas no elevador que já vou aí pegar, ok?
– Legal, o senhor é gente boa. Posso separar as minhas 5 bananas?
– Sem dúvida e fica como cortesia do mercado. Perdoe a confusão.
– Eu é que peço desculpas, acho que nós dois confundimos tudo. Deve ser essa quarentena.
– Nem me fale! Até já, estou saindo.

Pois é.

A morte da bezerra

Foto: Falenki

“A bezerra morreu.
Santinha, moça bonita e muito dada,
informa, amuada:
– põe na conta do Abreu.”

O “Seu” Biu Clintom, inconformado, furioso, esquecendo-se que o burro acredita em tudo o que lhe dizem, passou a mão na peixeira e jurou vingança. Aquilo não ia ficar assim, ia pegar o Abreu. Dona Excelsa, sábia senhora, conhecendo bem o marido que tinha, cheia de dedos tentou explicar que leite de vaca não mata bezerro e Dona Santinha, aquela mesma que criou fama e deitou na cama, não sabia o que estava falando.

Lembrou que o Padre Tadeu sempre dizia que para bom entendedor, meia palavra basta e ficou sem entender nada. Afinal, a bezerra morreu do quê? Morte morrida ou morte matada? Gritou lá para dentro da casa, como que pedindo socorro para Dona Excelsa. Não há rosas sem espinhos, respondeu a esposa, a bezerra se foi de velhice, doença, tédio, era a hora dela, homem de Deus.

Sim, mas e o Abreu, o que é que o Abreu tem a ver com tudo isso? Indagou, ainda cismado. A patroa suspirou, tirou o café do fogão, encheu sua xícara, pensou e disse: você sabe muito bem que boi velho gosta de erva tenra, não é mesmo? Então, bastou ver a Dona Santinha aí do lado que logo se engraçou. Ela, de muito riso e pouco siso, se animou e mais não digo porque mulher honrada não tem ouvidos e nem fala dos outros.

Dona Excelsa fulminou: Biu, meu velho, não te metas no que não te diz respeito. Vê se para de ficar pensando na morte da bezerra e vem cá pra dentro, vou preparar a janta. Só não fica animado porque quando pobre come frango, um dos dois está doente. Vai de sopa de legumes mesmo e não reclama!

Carlos Emerson Jr. (2017)

Quarenta e cinco dias depois

Gravura: Schnabel de Rome

Segunda-feira, 20 de abril de 2020, 11:37 horas, 28º dia da quarentena decretada pela Prefeitura de Nova Friburgo, 45º de retiro desde minha internação em um hospital no Rio de Janeiro, no dia 7 de março. Nesse período, estive na rua nos dias 13, 21, 23 e 31 de março, todos por motivo de saúde. Ah, sim, quando não faz frio ou chove, caminho no bosque do condomínio, seguindo expressas ordens médicas. Resumindo tudo isso, 45 dias recolhido e apenas 4 saídas de casa. Quarentena, uai!

Mas vamos ao que interessa, quem inventou a quarentena e por que razão? Os italianos, é claro. Segundo os britânicos da BBC, “quando a peste negra se espalhou pela Europa durante o século 14, Veneza aplicou uma regra em que navios tinham que ancorar por 40 dias antes que a tripulação e passageiros pudessem desembarcar. O período de espera foi denominado ”quarantino”,que deriva da palavra em italiano para o número 40”.

A Wikipédia entra no circuito e nos lembra que “apesar de a quarentena ser considerada pelos historiadores modernos como uma das primeiras contribuições fundamentais à prática da saúde pública, não tinha sua devida importância reconhecida”. A gravura que ilustra o texto, de autoria do Dr. Schnabel de Rome, mostra a roupa que os “médicos” da época usavam para “tratar” dos leprosos e das vítimas da Peste Negra. Devia matar os pacientes de susto!

Na Idade Média muita gente boa foi “salva” na fogueira, li-te-ral-ment-te, já que os curandeiros acreditavam que as doenças eram provocadas por demônios que se apoderavam nosso corpo e alma. E aí, só com fogo, não é? Barbaridade! Outros eram colocados em cavernas ou coisa parecida e proibidos de lá saírem, para não contaminarem as populações das cidades com seus males.

Ainda bem que o mundo evoluiu, a abordagem médica mudou e vacinas, antibióticos, novos medicamentos, terapias e muita tecnologia salvam vidas, sem fogueiras, leprosários, maldições e isolamentos. Opa, eu disse isolamento? É, meus caros, existe uma diferença entre quarentena e isolamento (e ainda o distanciamento social) mas, como estamos no Brasil, misturaram tudo e uma boa parte da população (e “autoridades”), acaba fazendo o que lhe dá na cabeça, o que “ouvem por aí”.

Para falar a verdade, estou sendo injusto: gente sem noção existe em qualquer lugar do mundo, não importa a cor, nacionalidade, sexo, dinheiro e sequer educação. Países de primeiro mundo erraram feio enquanto outros, nem tão de primeira assim, mas completamente autoritários, trataram de fechar suas fronteiras, imprensa e recolher cidadãos recalcitrantes. Ou alguém acredita que a Coreia do Norte, por exemplo, não teve nenhum caso sequer da doença? A Arábia Saudita? Ah, me poupem!

Na verdade, a humanidade ficou (ou ainda está) perdida, sem saber de onde essa desgraça saiu, incapaz de conseguir uma vacina sequer ou mesmo entender até onde a doença pode ir. Seria o fim do mundo? Pois é… Eu mesmo, nascido no início da década de 50, que sempre acreditei que nos exterminaríamos com armas nucleares e fogo (olha ele ai outra vez), fico aqui pensando se vamos perder a guerra para um inimigo simples e pequeno, formados por uma cápsula proteica envolvendo seu material genético.

Falam em guerra bacteriológica e nações apontam o dedo para outras, responsabilizando-as pela origem e disseminação do vírus. Para mim essa teoria é furada e por um motivo forte: qual a razão para tirar vidas de eventuais consumidores de nossos produtos e serviços? Hoje em dia um iPhone, por exemplo, é projetado e vendido por uma empresa norte-americana e fabricado… na China. Todos sairiam perdendo, não é mesmo?

Teorias da conspiração à parte (afinal, a imaginação ainda é nossa), quem garante que não estamos sob “ataque” da Natureza, uma reação biológica ou sei lá o quê aos nossos desmandos, destruição desenfreada do meio ambiente, êxodo de milhões de pessoas para megacidades, poluição dos oceanos, rios, lagos, nascentes, acreditando que a água, elemento vital para a vida, vai se regenerar e nos servir eternamente…

Ou será que voltamos ao começo da civilização e os antigos monstros, demônios, duendes, vampiros e assemelhados retornaram em forma de vírus para nos possuir?

E depois? O quê, você quer saber mesmo o que vem depois da pandemia? Tá bom, eu conto: 1/3 da população mundial que sobreviver vai ficar curada, não me pergunte como. O restante vai se transformar em zumbis, devorando tudo o que vier pela frente. Quando não restar mais nada, comerão uns aos outros e é isso. Da raça humana só sobrarão alguns monumentos, tipo a Torre Eiffel, que não farão o menor sentido para alienígenas.

– Fala sério, cara, alienígenas! Está bom, vou tentar, mas tenha em mente que será puro achismo. Primeiro, a economia mundial vai, ou melhor, está tomando um baque danado e sua recuperação pode ser bem lenta. Lembre-se que no início do século XX, a Gripe Espanhola provocou uma recessão que desembarcou na Segunda Guerra Mundial. O The New York Times de hoje mostra três pontos, que valem para todo o mundo: 1) o que acontecerá com o Covid-19? Desenvolveremos uma vacina ou ele sofrerá uma mutação e ficará menos grave? 2) Ainda não é possível determinar quantas pessoas não tiveram nenhum contato com o vírus e 3) na falta de uma vacina ou tratamento pode levar a uma nova crise se todos saírem do isolamento. (https://www.nytimes.com/2020/04/18/health/coronavirus-america-future.html) Mas pode piorar… E se não contivermos o vírus?

Para encerrar, a humanidade vem sendo assolada por pestes desde seu surgimento e a cada evento uma quantidade enorme de vidas são perdidas. Evoluímos a cada episódio mas, infelizmente, as doenças também. O que me revolta é constatar que com tantos recursos, conhecimentos e profissionais altamente habilitados, não sejamos capazes de cuidar da saúde das quase 8 bilhões de pessoas que povoam este planeta.

Pois é, meus caros. Se não mudarmos, se continuarmos passivos, ignorantes, sem esperança ou simplesmente sem vergonha na cara, a próxima pandemia pode ser a última.

Carlos Emerson Jr. (abril /2020)

Feliz Páscoa

Nos fará bem olhar o crucifixo em silêncio e ver quem é o nosso Senhor: é Aquele que não aponta o dedo contra ninguém, mas abre os braços para todos”
(Papa Francisco)

Que as palavras do Papa Francisco sejam um norte para uma humanidade que, com exceções, sempre busca um culpado para suas frustrações, medos e desespero. O mundo não será mais o mesmo depois dessa doença que está levando tantas vidas e seremos os responsáveis pelas mudanças, espero que para o bem de todos nós. Chega de guerras, preconceitos, fome, ignorância. Lembremos que somos todos um só povo, somos todos irmãos. Com fé e esperança no coração, podemos construir um mundo mais justo e em paz.

Feliz Páscoa!

Gratidão

Foto: Carlos Emerson Jr.

“Só há felicidade se não exigirmos nada do amanhã e aceitarmos do hoje, com gratidão, o que nos trouxer. A hora mágica chega sempre”. (Hermann Hesse)

E é com o coração cheio de amor e gratidão e lágrimas que insistem em descer dos meus olhos que agradeço aos Dr. Sérgio Polo, cirurgião e gastroenterologista aqui de Nova Friburgo que diagnosticou minha doença e deu um norte para minha cura.

Agradeço ao Dr. Flávio Sabino, cirurgião oncologista e sua equipe, que tirou minhas dúvidas e medos, me operou e cuidou de mim durante toda a hospitalização.

Agradeço aos médicos, equipes de enfermagem e de serviços de saúde do Hospital Quinta D’Or, no Rio de Janeiro, sempre atenciosos, eficientes e carinhosos. Ao pessoal do CTI, que “hospedou” esse velho paciente por sete dias, um obrigado especial: vocês foram demais.

Agradeço aos amigos e vizinhos que colocaram meu nome nos cultos Católicos, Evangélicos, Messiânicos, Presbiterianos e Espíritas. O tempo todo me consolava sabendo que Ele estava perto de mim. Da mesma forma, agradeço a preocupação e alegria quando de meu retorno. Valeu muito!

Agradeço a minha família, especialmente minha querida irmã Regina e meu cunhado Pedro, que me acompanharam nesta jornada e ainda me deram abrigo, amor e alimento em sua casa antes que eu fosse liberado para voltar para Nova Friburgo.

Agradeço a minhas filhas Mariana e Denise por toda a ajuda, orações, companhia e amizade por esse pai que tanto adora vocês!

Agradeço a Fafá, grande paixão amor de minha vida, presente em todas as horas boas e ruins que vivemos juntos no mês de março, carinhosa e cuidadosa ao extremo. Não tenho como pagar essa dívida a não ser com muito amor.

Finalmente, agradeço a Deus pela benção, proteção, força e serenidade que me permitiram passar por essa provação. Obrigado, Senhor.

Com gratidão,
Carlos Emerson Jr.

Ponto de vista

Foto: Bettmann/Getty Images

Fico imaginando como seria essa quarentena a uns 60, 70 anos atrás. Hoje dá para tirar de letra: o cidadão (de posses, é claro) tem a internet e com ela pode trabalhar em casa em seu home office, a televisão e seus inúmeros canais a cabo, streaming e suas séries e filmes, o smartphone com os aplicativos de comunicação, jogos, bancos, compras, consultas médicas e tudo mais que você imaginar.

Nos anos 50 não tinha nada disso. Telefones (isso mesmo, aquele que chamamos de “fixo”) era coisa de gente rica ou de grandes empresas. Os orelhões ainda não tinham sido inventados e a gente era obrigado a procurar uma agência da extinta Cia. Telefônica Brasileira, a CTB, encarar filas, pedir a ligação e voltar (ou esperar ali mesmo) umas duas horas para que a comunicação fosse estabelecida.

Televisão? Os aparelhos até já existiam, com imagem em preto e branco, é claro. O problema era a falta de programação das pouquíssimas estações que existiam. Na maior parte do dia a imagem era apenas um chuvisco e só à noitinha alguns programas, desenhos e filmes eram transmitidos precariamente. No máximo umas três horas diárias. Ah, sim, os receptores de TV eram caríssimos.

O rádio dava show. Muitas estações, muita informação, músicas, programas de auditório e noticiários. Pena que a maioria dos transmissores não tinha grande potência e seu alcance, geralmente, era restrito. Mas, quem podia, se virava com os bons aparelhos de ondas curtas, podendo curtir e se informar com os programas em português da Voz da América, BBC, Rádio de Moscou, Deustche Welle alemão, Radio France e tantas outras. Minha mãe contava que acompanhou toda segunda guerra mundial pelas ondas da BBC inglesa. E lá em Cuiabá, no Mato Grosso, nos anos 40!

Hoje, se o dia estiver quente, basta ligar o ar-condicionado de seu Home Office e pronto, temperatura de montanha para trabalhar e curtir o dia trancado em casa. Nos anos 50? Bom, como até mesmo os ventiladores de teto ainda não tinham sido inventados, você tinha que se virar com uns aparelhos grandes, pesados e com motores barulhentos e pouca potência, ou seja, ia continuar a sentir calor, só que com um fundo nada musical.

Computadores? Notebooks? Tablets? Tá de brincadeira, não é? Máquina de escrever manual (as elétricas surgiram bem depois) e olhe lá. E isso significava trocar a fita de impressão, limpar periodicamente os tipos, lidar com papel-carbono (nem gosto de lembrar) e corrigir um erro significava teclar tudo outra vez, com muita atenção, perdendo um tempo danado.

Grande parte dos trabalhos era feita em livros ou cadernos pautados, com caneta tinteiro (o quê, você nunca viu nenhuma? Acredita que tenho até hoje uma Parker 51 e uma Montblanc? É, tô velho mesmo…), mata-borrão, lápis, gilete para apontar o lápis, borracha para apagar os erros escritos com lápis e por aí vai. Confesso que tinha a maior admiração por quem escrevia à mão seus livros, artigos para jornais e revistas, trabalhos financeiros e de contabilidade e por aí vai. Para mim, isso seria impossível já que nunca consegui ter uma letra legível.

Uma grande mudança foi a invenção do delivery service e, é claro, os motoboys. Você tem fome e o almoço na geladeira é sobra de dois dias atrás. Sem problemas. Basta pegar o smartphone, abrir um aplicativo, escolher o prato e voilá! Em pouquíssimo tempo sua refeição é entregue em casa, quentinha e fresquinha. E essa oportuna modernidade serve para quase tudo ou, como o pessoal fala, tem aplicativo para tudo o que você imaginar. Já nos anos 50…

Claro que ficar fechado em casa, sem prazo visível para sair, não é nada agradável, especialmente se a causa é uma pandemia. A devastação que a Gripe Espanhola fez a partir de 1918, matando entre 17 e 50 milhões de pessoas e infectando um quarto da população do planeta na época, é o grande alerta para os dias de hoje. Mais uma vez estamos em vantagem: temos conhecimento científico mais avançado, equipamentos, hospitais, medicamentos, profissionais da área bem preparados e, principalmente, comunicação instantânea com qualquer lugar do mundo. Tentem imaginar como era combater uma doença a mais de 100 anos atrás.

Acho que ninguém duvida que a paralisação da economia vai provocar efeitos colaterais terríveis. Mas, enquanto não descobrirem uma maneira de parar ou tornar o vírus inócuo, temos que confiar que as medidas duras que estão sendo tomadas podem e possivelmente estão salvando vidas. Só espero que, passada a crise, não se esqueçam que outros vírus podem surgir e que levem a sério a prevenção contra essas catástrofes.

Pois é… Tomara que nossos políticos algum dia mudem e pensem da mesma maneira. Boa quarentena, meus queridos leitores.

oOo

PS: a foto que ilustra este texto foi tirada na Espanha, por ocasião da Gripe Espanhola, em 1919.