Monólito

Foto: Carlos Emerson Junior

Tudo aconteceu numa rua deserta, em um bairro residencial, sem veículos ou pessoas circulando. De um lado ficavam as casas, grandes, com muros altos cobertos de heras e do outro uma ribanceira coberta de plantas e muitas árvores. Em alguns trechos, o mato meio que se abria e viam-se as montanhas que cercavam a cidade ao longe.

Até o dia que alguém por ali passou e, ao invés dos morros, deu de cara com um objeto retangular, preto, enigmático e assustador, como que vigiando o local, como se fosse o monólito do filme famoso dos anos 60 ou um deus julgando a sua criação.

A aparição tinha tudo para ganhar o mundo: televisão, rádio, imprensa, blogs, políticos, religiosos, militares, cientistas, artistas, escritores e poetas, crentes e céticos, todos com disposição e posição tomada para defender ou execrar o evento se encaminharam para a rua outrora vazia quando uma criança, atendendo um jornalista qualquer, se espantou com tamanho alvoroço por causa de uma simples caixa d’água.

Caixa d’água? Impossível! Blasfêmia! Mentira! Que alívio! Eu sabia! Que coisa! Comunistas! Fascistas! Hipócritas! Corruptos! O presidente se calou, o governador lamentou e o prefeito mandou multar o responsável pelo desatino, colocar uma caixa d’água em local não permitido. Do dia para a noite todos queriam saber quem era esse vilão que tantas expectativas criara.

O “monólito” foi derrubado, o povo se dispersou e a rua, como sempre, voltou a ter paz, solidão e silêncio. A paisagem ainda está lá, as montanhas abraçando a cidade. As árvores, plantas e a ribanceira também. Os pais da criança que provocou todo o alvoroço, assustados se mudaram para bem longe, a vida seguiu seu rumo e nossa história aqui terminou. Aliás, sequer começou… Afinal, nada existia e nada mudou.

O caso dos doze comprimidos

Aconteceu comigo. Minto, ainda acontece e faço questão de contar. 

Infelizmente sabemos que tirando as curas milagrosas de Jesus, ainda não existe um meio eficaz de curar uma doença sem utilizar algum tipo de remédio, qualquer um, mesmo que seja um placebo! O pior é que dependendo da gravidade de seu estado, mais medicação será recomendada, com e apesar dos famosos “efeitos colaterais”. 

Ao contrário de muita gente boa, nunca fui muito “amigo” de pílulas, cápsulas, comprimidos, xaropes, poções, pomadas, cremes, sublinguais, injeções, supositórios e afins, não necessariamente nessa ordem. Acredito sim que temos grande dificuldade de aceitar que um algum dia deixaremos de ser eternamente jovens e receberemos a conta dos anos de descaso com nossa saúde física e mental.

Por alguma razão passei grande parte da vida praticamente incólume neste quesito: uma gripe aqui, outra dor de barriga ali, uma indisposição acolá e stress, esse sim, sempre. Nunca quebrei um ossinho e tampouco fui internado em um hospital. Mas, mesmo sem querer enxergar o óbvio, o tempo corre inexorável e tive que aprender a usar óculos e remédios diários para controlar a pressão arterial, ansiedade e dores de cabeça. 

Para resumir, hoje tomo exatos e obrigatórios doze comprimidos por dia: 7 da quimioterapia, 3 da hipertensão, um para a gastrite e é claro, um para  manter a sanidade num país completamente insano. Eventualmente tenho a postos um para dor nas costas, outro para regular o intestino, um colírio e um outro com um gosto horrível para azias. Deve ser por isso que sou tão bem recebidos nas farmácias. 

Mas o que me incomoda mesmo (e aí não tem remédio que cure) é o descaso com a saúde pública, em todos os níveis. A pandemia é cruel até por isso, ao expor de maneira crua e mortal a incompetência e a desonestidade das autoridades em todos os níveis, algumas incapazes de atitudes coerentes com a gravidade  do momento e outras mais preocupadas com o lucro de transações criminosas, imorais e escusas.

Enquanto isso, vamos driblando nossas próprias deficiências, tentando viver sem trabalho, saúde e o pior de tudo, sem nenhuma esperança de dias melhores. Meus doze comprimidos não tem culpa de nada e se Deus quiser vão me deixar curado. No entanto, com certeza, para mim serão sempre o símbolo de dias confusos, angustiantes e cheios de incertezas.  

Aprendemos alguma coisa? Tomara que sim, afinal seremos todos sobreviventes. E sinceramente, espero nunca mais ver um hospital de campanha que custou 60 milhões de reais aos cofres públicos, ser abandonado em plena pandemia. Ninguém merece…

Vai passar, Nova Friburgo!

Google Imagens

O que você faz quando precisa escrever um texto e a inspiração, ideias, criatividade e disposição desaparecem? Já notaram que em tempos de quarentena (pra valer), ficamos mais lentos, dispersos, desligados e, por que não, preguiçosos? Se faz frio e chove, como hoje, aí degringola tudo. Se sair da cama passa a ser um suplício, imagine sentar com o notebook para trabalhar, quando a vontade mesmo é vestir um moletom bem grosso, acender a lareira, tomar um chocolate quente e voltar para baixo do moletom… na cama, é claro!

Bom, vamos lá que hoje não é dia de dormir e sim de festejar o aniversário da minha querida Nova Friburgo, uma senhora com 202 anos de idade! As comemorações foram suspensas, é claro, afinal o coronavirus que sequer foi convidado para a festa, continua aprontando por aí. Hoje é feriado municipal e sequer o sol veio trabalhar. Não sei como está o centro da cidade, mas aqui no Sans Souci o silêncio chega a doer no ouvido. Sei lá, o tempo chuvoso, a quarentena prolongada e a dúvida sobre o nosso futuro desanimam qualquer um.

Hoje não vamos ter a tradicional parada na Alberto Braune com os militares do Exército, Marinha, PM e Bombeiros, a garotada e os ex-alunos das escolas com suas bandas, os músicos da Euterpe, da Campesina e tanta gente boa e amiga que nos faz sorrir. Fico aqui imaginando como seria bom se o vírus desaparecesse por algumas horas para que todos desfilassem e nos encantassem. Pena que só em em sonho mesmo…

Parabéns, Nova Friburgo! Parabéns, friburguenses. Apesar de ter passado a vida quase toda no Rio, aprendi a amar essa cidade singular, bonita e extremamente acolhedora. Não fique triste, Nova Friburgo, estamos comemorando seu aniversário com nosso coração, aqui mesmo, do seu lado, em nossas casas aguardando a hora de retomarmos nossas vidas. Parabéns, Nova Friburgo! Acredite, tudo isso vai passar.

Sempre passa!

A crônica das bananas

Google Imagens

Uma jovem distraída resolve preparar uma iguaria de infância, banana cozida, servida com açúcar e canela, uma delícia. Liga para o mercadinho da rua e pede para entregarem em sua casa 5 bananas da terra, bem maduras. O atendente anota o pedido, negociam, combinam a entrega e voltam as suas atividades: ela, terminar o trabalho gráfico no computador caseiro e ele, separar as bananas, embalar e chamar o motoboy para fazer a entrega. Tudo normal, apenas mais uma compra em um dia de isolamento social.

Quinze minutos depois o interfone da jovem toca, devem ser as bananas, pensa a jovem enquanto atende a ligação:

– Sim, fui eu mesma. Dá para colocar no elevador e mandar pra cá? Que bom, obrigada.

E dito isto caminhou até o corredor, aguardou a chegada do elevador, abriu a porta e quase caiu dura para trás: ao invés das 5 bananas, o infeliz do dono do mercado tinha enviado 5 pencas com 12 frutas, ou melhor, 60 bananas! E agora? Só um batalhão para dar conta de tantas bananas cozidas.

Correu para o telefone.

– O senhor enlouqueceu? O que é que eu vou fazer com tantas bananas?
– Também estranhei, mas foi a senhora mesma que pediu as 5 pencas. Tudo bem, não vamos brigar. Deixe as bananas no elevador que já vou aí pegar, ok?
– Legal, o senhor é gente boa. Posso separar as minhas 5 bananas?
– Sem dúvida e fica como cortesia do mercado. Perdoe a confusão.
– Eu é que peço desculpas, acho que nós dois confundimos tudo. Deve ser essa quarentena.
– Nem me fale! Até já, estou saindo.

Pois é.

Quarenta e cinco dias depois

Gravura: Schnabel de Rome

Segunda-feira, 20 de abril de 2020, 11:37 horas, 28º dia da quarentena decretada pela Prefeitura de Nova Friburgo, 45º de retiro desde minha internação em um hospital no Rio de Janeiro, no dia 7 de março. Nesse período, estive na rua nos dias 13, 21, 23 e 31 de março, todos por motivo de saúde. Ah, sim, quando não faz frio ou chove, caminho no bosque do condomínio, seguindo expressas ordens médicas. Resumindo tudo isso, 45 dias recolhido e apenas 4 saídas de casa. Quarentena, uai!

Mas vamos ao que interessa, quem inventou a quarentena e por que razão? Os italianos, é claro. Segundo os britânicos da BBC, “quando a peste negra se espalhou pela Europa durante o século 14, Veneza aplicou uma regra em que navios tinham que ancorar por 40 dias antes que a tripulação e passageiros pudessem desembarcar. O período de espera foi denominado ”quarantino”,que deriva da palavra em italiano para o número 40”.

A Wikipédia entra no circuito e nos lembra que “apesar de a quarentena ser considerada pelos historiadores modernos como uma das primeiras contribuições fundamentais à prática da saúde pública, não tinha sua devida importância reconhecida”. A gravura que ilustra o texto, de autoria do Dr. Schnabel de Rome, mostra a roupa que os “médicos” da época usavam para “tratar” dos leprosos e das vítimas da Peste Negra. Devia matar os pacientes de susto!

Na Idade Média muita gente boa foi “salva” na fogueira, li-te-ral-ment-te, já que os curandeiros acreditavam que as doenças eram provocadas por demônios que se apoderavam nosso corpo e alma. E aí, só com fogo, não é? Barbaridade! Outros eram colocados em cavernas ou coisa parecida e proibidos de lá saírem, para não contaminarem as populações das cidades com seus males.

Ainda bem que o mundo evoluiu, a abordagem médica mudou e vacinas, antibióticos, novos medicamentos, terapias e muita tecnologia salvam vidas, sem fogueiras, leprosários, maldições e isolamentos. Opa, eu disse isolamento? É, meus caros, existe uma diferença entre quarentena e isolamento (e ainda o distanciamento social) mas, como estamos no Brasil, misturaram tudo e uma boa parte da população (e “autoridades”), acaba fazendo o que lhe dá na cabeça, o que “ouvem por aí”.

Para falar a verdade, estou sendo injusto: gente sem noção existe em qualquer lugar do mundo, não importa a cor, nacionalidade, sexo, dinheiro e sequer educação. Países de primeiro mundo erraram feio enquanto outros, nem tão de primeira assim, mas completamente autoritários, trataram de fechar suas fronteiras, imprensa e recolher cidadãos recalcitrantes. Ou alguém acredita que a Coreia do Norte, por exemplo, não teve nenhum caso sequer da doença? A Arábia Saudita? Ah, me poupem!

Na verdade, a humanidade ficou (ou ainda está) perdida, sem saber de onde essa desgraça saiu, incapaz de conseguir uma vacina sequer ou mesmo entender até onde a doença pode ir. Seria o fim do mundo? Pois é… Eu mesmo, nascido no início da década de 50, que sempre acreditei que nos exterminaríamos com armas nucleares e fogo (olha ele ai outra vez), fico aqui pensando se vamos perder a guerra para um inimigo simples e pequeno, formados por uma cápsula proteica envolvendo seu material genético.

Falam em guerra bacteriológica e nações apontam o dedo para outras, responsabilizando-as pela origem e disseminação do vírus. Para mim essa teoria é furada e por um motivo forte: qual a razão para tirar vidas de eventuais consumidores de nossos produtos e serviços? Hoje em dia um iPhone, por exemplo, é projetado e vendido por uma empresa norte-americana e fabricado… na China. Todos sairiam perdendo, não é mesmo?

Teorias da conspiração à parte (afinal, a imaginação ainda é nossa), quem garante que não estamos sob “ataque” da Natureza, uma reação biológica ou sei lá o quê aos nossos desmandos, destruição desenfreada do meio ambiente, êxodo de milhões de pessoas para megacidades, poluição dos oceanos, rios, lagos, nascentes, acreditando que a água, elemento vital para a vida, vai se regenerar e nos servir eternamente…

Ou será que voltamos ao começo da civilização e os antigos monstros, demônios, duendes, vampiros e assemelhados retornaram em forma de vírus para nos possuir?

E depois? O quê, você quer saber mesmo o que vem depois da pandemia? Tá bom, eu conto: 1/3 da população mundial que sobreviver vai ficar curada, não me pergunte como. O restante vai se transformar em zumbis, devorando tudo o que vier pela frente. Quando não restar mais nada, comerão uns aos outros e é isso. Da raça humana só sobrarão alguns monumentos, tipo a Torre Eiffel, que não farão o menor sentido para alienígenas.

– Fala sério, cara, alienígenas! Está bom, vou tentar, mas tenha em mente que será puro achismo. Primeiro, a economia mundial vai, ou melhor, está tomando um baque danado e sua recuperação pode ser bem lenta. Lembre-se que no início do século XX, a Gripe Espanhola provocou uma recessão que desembarcou na Segunda Guerra Mundial. O The New York Times de hoje mostra três pontos, que valem para todo o mundo: 1) o que acontecerá com o Covid-19? Desenvolveremos uma vacina ou ele sofrerá uma mutação e ficará menos grave? 2) Ainda não é possível determinar quantas pessoas não tiveram nenhum contato com o vírus e 3) na falta de uma vacina ou tratamento pode levar a uma nova crise se todos saírem do isolamento. (https://www.nytimes.com/2020/04/18/health/coronavirus-america-future.html) Mas pode piorar… E se não contivermos o vírus?

Para encerrar, a humanidade vem sendo assolada por pestes desde seu surgimento e a cada evento uma quantidade enorme de vidas são perdidas. Evoluímos a cada episódio mas, infelizmente, as doenças também. O que me revolta é constatar que com tantos recursos, conhecimentos e profissionais altamente habilitados, não sejamos capazes de cuidar da saúde das quase 8 bilhões de pessoas que povoam este planeta.

Pois é, meus caros. Se não mudarmos, se continuarmos passivos, ignorantes, sem esperança ou simplesmente sem vergonha na cara, a próxima pandemia pode ser a última.

Carlos Emerson Jr. (abril /2020)

Feliz Páscoa

Nos fará bem olhar o crucifixo em silêncio e ver quem é o nosso Senhor: é Aquele que não aponta o dedo contra ninguém, mas abre os braços para todos”
(Papa Francisco)

Que as palavras do Papa Francisco sejam um norte para uma humanidade que, com exceções, sempre busca um culpado para suas frustrações, medos e desespero. O mundo não será mais o mesmo depois dessa doença que está levando tantas vidas e seremos os responsáveis pelas mudanças, espero que para o bem de todos nós. Chega de guerras, preconceitos, fome, ignorância. Lembremos que somos todos um só povo, somos todos irmãos. Com fé e esperança no coração, podemos construir um mundo mais justo e em paz.

Feliz Páscoa!

Gratidão

Foto: Carlos Emerson Jr.

“Só há felicidade se não exigirmos nada do amanhã e aceitarmos do hoje, com gratidão, o que nos trouxer. A hora mágica chega sempre”. (Hermann Hesse)

E é com o coração cheio de amor e gratidão e lágrimas que insistem em descer dos meus olhos que agradeço aos Dr. Sérgio Polo, cirurgião e gastroenterologista aqui de Nova Friburgo que diagnosticou minha doença e deu um norte para minha cura.

Agradeço ao Dr. Flávio Sabino, cirurgião oncologista e sua equipe, que tirou minhas dúvidas e medos, me operou e cuidou de mim durante toda a hospitalização.

Agradeço aos médicos, equipes de enfermagem e de serviços de saúde do Hospital Quinta D’Or, no Rio de Janeiro, sempre atenciosos, eficientes e carinhosos. Ao pessoal do CTI, que “hospedou” esse velho paciente por sete dias, um obrigado especial: vocês foram demais.

Agradeço aos amigos e vizinhos que colocaram meu nome nos cultos Católicos, Evangélicos, Messiânicos, Presbiterianos e Espíritas. O tempo todo me consolava sabendo que Ele estava perto de mim. Da mesma forma, agradeço a preocupação e alegria quando de meu retorno. Valeu muito!

Agradeço a minha família, especialmente minha querida irmã Regina e meu cunhado Pedro, que me acompanharam nesta jornada e ainda me deram abrigo, amor e alimento em sua casa antes que eu fosse liberado para voltar para Nova Friburgo.

Agradeço a minhas filhas Mariana e Denise por toda a ajuda, orações, companhia e amizade por esse pai que tanto adora vocês!

Agradeço a Fafá, grande paixão amor de minha vida, presente em todas as horas boas e ruins que vivemos juntos no mês de março, carinhosa e cuidadosa ao extremo. Não tenho como pagar essa dívida a não ser com muito amor.

Finalmente, agradeço a Deus pela benção, proteção, força e serenidade que me permitiram passar por essa provação. Obrigado, Senhor.

Com gratidão,
Carlos Emerson Jr.

Ponto de vista

Foto: Bettmann/Getty Images

Fico imaginando como seria essa quarentena a uns 60, 70 anos atrás. Hoje dá para tirar de letra: o cidadão (de posses, é claro) tem a internet e com ela pode trabalhar em casa em seu home office, a televisão e seus inúmeros canais a cabo, streaming e suas séries e filmes, o smartphone com os aplicativos de comunicação, jogos, bancos, compras, consultas médicas e tudo mais que você imaginar.

Nos anos 50 não tinha nada disso. Telefones (isso mesmo, aquele que chamamos de “fixo”) era coisa de gente rica ou de grandes empresas. Os orelhões ainda não tinham sido inventados e a gente era obrigado a procurar uma agência da extinta Cia. Telefônica Brasileira, a CTB, encarar filas, pedir a ligação e voltar (ou esperar ali mesmo) umas duas horas para que a comunicação fosse estabelecida.

Televisão? Os aparelhos até já existiam, com imagem em preto e branco, é claro. O problema era a falta de programação das pouquíssimas estações que existiam. Na maior parte do dia a imagem era apenas um chuvisco e só à noitinha alguns programas, desenhos e filmes eram transmitidos precariamente. No máximo umas três horas diárias. Ah, sim, os receptores de TV eram caríssimos.

O rádio dava show. Muitas estações, muita informação, músicas, programas de auditório e noticiários. Pena que a maioria dos transmissores não tinha grande potência e seu alcance, geralmente, era restrito. Mas, quem podia, se virava com os bons aparelhos de ondas curtas, podendo curtir e se informar com os programas em português da Voz da América, BBC, Rádio de Moscou, Deustche Welle alemão, Radio France e tantas outras. Minha mãe contava que acompanhou toda segunda guerra mundial pelas ondas da BBC inglesa. E lá em Cuiabá, no Mato Grosso, nos anos 40!

Hoje, se o dia estiver quente, basta ligar o ar-condicionado de seu Home Office e pronto, temperatura de montanha para trabalhar e curtir o dia trancado em casa. Nos anos 50? Bom, como até mesmo os ventiladores de teto ainda não tinham sido inventados, você tinha que se virar com uns aparelhos grandes, pesados e com motores barulhentos e pouca potência, ou seja, ia continuar a sentir calor, só que com um fundo nada musical.

Computadores? Notebooks? Tablets? Tá de brincadeira, não é? Máquina de escrever manual (as elétricas surgiram bem depois) e olhe lá. E isso significava trocar a fita de impressão, limpar periodicamente os tipos, lidar com papel-carbono (nem gosto de lembrar) e corrigir um erro significava teclar tudo outra vez, com muita atenção, perdendo um tempo danado.

Grande parte dos trabalhos era feita em livros ou cadernos pautados, com caneta tinteiro (o quê, você nunca viu nenhuma? Acredita que tenho até hoje uma Parker 51 e uma Montblanc? É, tô velho mesmo…), mata-borrão, lápis, gilete para apontar o lápis, borracha para apagar os erros escritos com lápis e por aí vai. Confesso que tinha a maior admiração por quem escrevia à mão seus livros, artigos para jornais e revistas, trabalhos financeiros e de contabilidade e por aí vai. Para mim, isso seria impossível já que nunca consegui ter uma letra legível.

Uma grande mudança foi a invenção do delivery service e, é claro, os motoboys. Você tem fome e o almoço na geladeira é sobra de dois dias atrás. Sem problemas. Basta pegar o smartphone, abrir um aplicativo, escolher o prato e voilá! Em pouquíssimo tempo sua refeição é entregue em casa, quentinha e fresquinha. E essa oportuna modernidade serve para quase tudo ou, como o pessoal fala, tem aplicativo para tudo o que você imaginar. Já nos anos 50…

Claro que ficar fechado em casa, sem prazo visível para sair, não é nada agradável, especialmente se a causa é uma pandemia. A devastação que a Gripe Espanhola fez a partir de 1918, matando entre 17 e 50 milhões de pessoas e infectando um quarto da população do planeta na época, é o grande alerta para os dias de hoje. Mais uma vez estamos em vantagem: temos conhecimento científico mais avançado, equipamentos, hospitais, medicamentos, profissionais da área bem preparados e, principalmente, comunicação instantânea com qualquer lugar do mundo. Tentem imaginar como era combater uma doença a mais de 100 anos atrás.

Acho que ninguém duvida que a paralisação da economia vai provocar efeitos colaterais terríveis. Mas, enquanto não descobrirem uma maneira de parar ou tornar o vírus inócuo, temos que confiar que as medidas duras que estão sendo tomadas podem e possivelmente estão salvando vidas. Só espero que, passada a crise, não se esqueçam que outros vírus podem surgir e que levem a sério a prevenção contra essas catástrofes.

Pois é… Tomara que nossos políticos algum dia mudem e pensem da mesma maneira. Boa quarentena, meus queridos leitores.

oOo

PS: a foto que ilustra este texto foi tirada na Espanha, por ocasião da Gripe Espanhola, em 1919.

Conselhos do Barão

Google Imagens

“Quem inventou o trabalho não tinha o que fazer. (Barão de Itararé)”

Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly, jornalista, escritor e humorista, o Barão de Itararé, era um pândego mesmo. Imagino o que ele não aprontaria nesses dias sombrios! Algumas de suas tiradas são geniais, como “o Brasil é feito por nós. Está na hora de desatar esses nós.” Ou “de onde menos se espera, daí é que não sai nada” e a famosa “não é triste mudar de ideias, triste é não ter ideias para mudar”.

O Barão realmente era terrível! De minha parte, isolado em casa na serra fluminense, vou dividindo minha quarentena com meus textos, já nascidos ou não, livros ainda não lidos e longos papos com a família pelos Skypes e Zooms da vida. Sem ter como saber com essa história toda vai terminar, um trabalho, seja ele qual for, além de produtivo, pode ser uma terapia, até mesmo um passatempo.

Sorria, apesar de tudo, da quarentena e das contas a pagar! “Se você tem dívida, não se preocupe, porque as preocupações não pagam as dívidas. Nesse caso, o melhor é deixar que o credor se preocupe por você.” Conselho do Barão de Itararé, é claro.

Quarentena

Foto: Reuters

“- Vocês acham que estou brincando? Pois fiquem sabendo que só vão sair do quartel quando o Alto Comando desistir da estupidez de aceitar as exigências de um grupelho de terroristas. Vamos resistir até o fim, lutar como homens pelo Brasil, mesmo que fiquemos aqui o resto da vida. Quero só ver quem acha engraçado quando eu falo de quarentena, bando de mocorongos”.

Pois é, a “quarentena” do sargento, na verdade uma prontidão com armamento de combate, barricadas, arame farpado e metralhadoras antiaéreas durante o sequestro do embaixador americano no Rio de Janeiro em 1969, durou exatamente uma semana, muitos momentos de tensão, a mobilização de toda a pequena tropa e oficialidade do Quartel General e um medo enorme quando anunciaram que a Divisão Blindada estava vindo de Deodoro para nos varrer completamente do mapa.

Passou, é claro. O embaixador foi solto e no domingo seguinte fomos desmobilizados e voltamos para casa, com a sensação que defender a pátria é muito mais complicado do que nos ensinam. Quem tinha razão, no final das contas? Enfim, essa foi a minha quarentena de uma semana, com uniforme de combate, capacete de aço, granadas ofensivas de mão e o bom, confiável mas infelizmente ultrapassado fuzil Springfield a tiracolo.

O tempo passou, escreveram uma nova Constituição, governos vieram e se foram, as eternas crises de sempre continuaram presentes e, para meu espanto, 51 anos depois, durante uma cirurgia para tirar um câncer do intestino, voltei da anestesia no meio de uma nova quarentena, desta vez sem armas, sem prazo para terminar, contra um inimigo quase invisível. Ninguém sai de casa, lojas e fábricas paradas, fronteiras e divisas fechadas.

O pior é o medo. Enquanto em 1969 meu pavor era levar um tiro ou ser cortado ao meio por uma rajada de metralhadora de um tanque Sherman hoje, na condição de “grupo de risco”, ou seja, imunocomprometido, idoso, hipertenso e tratando um câncer, não passo de um alvo certeiro e possivelmente fatal do vírus chinês que assola nosso sofrido planetinha. Que saudade dos blindados!

Resta algum futuro? Sinceramente, espero que sim, embora acredite que existe uma possibilidade que, daqui para a frente, tudo seja diferente. Para melhor ou pior não dá para saber, pelo menos, agora. A discussão sobre a validade da quarentena é estéril. Achatar a curva de atuação do vírus pode significar sua explosão mais adiante, com resultados catastróficos diante das economias já combalidas pela sua paralisação.

E qual é a saída? Bom, para a doença a solução tem que vir da comunidade científica, como uma vacina ou medicamento capaz de, pelo menos, minimizar os danos de um contágio e sua morbidade. A boa notícia é que cientistas, médicos, laboratórios e universidades de todos os países pesquisam febrilmente em busca da cura. Torço para que seja apenas uma questão de tempo.

Mas como ficaria a economia mundial? Aí é outra história e bem complicada. Tudo leva a crer que a atividade econômica mundial vai parar ou quase isso, a medida que a quarentena se expanda e perdure, o que significa uma baita recessão. Quebra de empresas, desemprego em massa, miséria. E piora muito se o vírus chinês ainda estiver dando as caras por aí.

Não é bom sequer imaginar o tamanho da desgraça, afinal o vírus chinês tem potencial para provocar uma crise planetária sem precedentes, deixando os sobreviventes em uma situação só vista em filmes de ficção científica ou de apocalipse. As medidas sanitárias até agora tomadas são as possíveis, pelo menos enquanto não se vislumbra uma cura a curto ou médio prazo.

E aí me lembro da bronca da quarentena do sargento da guarda, em um quartel do Exército nos anos 60. O que aconteceu foi muito grave e quase provocou uma ruptura sangrenta no Brasil, apesar da completa falta de informações à sociedade civil. No entanto, aquela crise vista com os olhos atuais não passou de uma, com todo respeito, quartelada e ainda bem que ficou só nisso. Acredito que hoje, com toda a overdose de informações que temos (trazendo como efeito colateral muita desinformação intencional ou não), temos a obrigação de colaborar como pudermos, nem que seja para nos manter vivos. Agir como uma sociedade civilizada e organizada é essencial.

Muita calma nessa hora, gente!