A liberdade e a máscara

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“A liberdade enfaticamente não inclui a liberdade de deixar outra pessoa doente. Não inclui a liberdade de se recusar a usar máscara no supermercado, espirrar em alguém na seção de hortifrutigranjeiros e transmitir o vírus. Isso não é liberdade para a pessoa que é espirrada. Para essa pessoa, a “liberdade” da primeira pessoa significa doença potencial e até mesmo uma sentença de morte. Nenhuma sociedade pode funcionar com base nessa definição de liberdade. Liberdade significa a liberdade de não ser infectado pelo idiota que se recusa a se mascarar.” (Michael Tomasky, The New York Times)

O artigo de onde tirei o trecho acima, foi publicado hoje no NYT, abordando o aumento de casos da Covid-19 e a questão do direito de cada um de usar ou não a máscara de proteção, item importante contra a infeção do vírus. Apesar de abordar a crise americana, cai como uma luva aqui no Brasil onde o número de pessoas que acreditam que a pandemia acabou é preocupante e os gestores, políticos, militares e os palpiteiros de sempre, não são do ramo.

Enfim, vale lembrar Bernard Shaw: “liberdade significa responsabilidade. É por isso que tanta gente tem medo dela.”

Bom domingo e ótima semana, amigos.

Eleições em novembro?

Correio da Manhã (Rio)

Já vou logo avisando, não voto em ninguém nas eleições de novembro. Aliás, para ser mais claro, não vou e sequer posso descer a serra até o Rio para cumprir minha obrigação cívica. Os motivos estão na cara, uma quimioterapia ainda por terminar, uma última cirurgia ainda por marcar e os setenta anos de idade que garantem minha isenção. 

Esclarecido esse ponto, vamos ao que interessa, quem está ganhando com isso? A democracia? Ora, façam-me o favor, o Brasil faz parte de um “seleto” grupo de 24 países (Argentina, Bolívia, Chile, Costa Rica, Equador, Honduras, México, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana, Uruguai, República Democrática do Congo, Egito, Grécia, Líbano, Líbia, Nauru, Tailândia, Bélgica, Austrália e as cidades-estados Luxemburgo e Singapura) que ainda adotam o voto obrigatório, uma barbaridade colocada na Constituição de 1934, durante a de Getúlio Vargas.  

A Constituição de 1988, feita por políticos para políticos, repetiu a dose. Só não contavam com a expansão dos meios de informação que nos ensinaram que em 230 nações, entre elas todas as consideradas do primeiro mundo, o voto é… Facultativo! Em 2014, uma pesquisa do Datafolha mostrou que 61% dos brasileiros era contra o sistema vigente. Alguém ligou? Que nada, todo mundo com cara de paisagem se entocou no Congresso, Palácios, etc…  

Os últimos anos vem desanimando cada vez o cidadão brasileiro. O ex-presidente sociólogo que se considera o mais bem preparado de todos os que vieram antes e os que virão depois, inventou a reeleição, um verdadeiro câncer político, já que o “ungido” passa todo o primeiro mandato com a cabeça no segundo e depois, já reeleito, o povo que se dane, vamos eleger o sucessor e aproveitar o máximo possível.  

Mas o que mais me desanima são os 6 governadores presos, afastados ou processados por corrupção, o impeachment de dois presidentes, ler nos jornais, dia sim, dia seguinte também, as listas de “autoridades” e “empresários” presos ou conduzidos coercitivamente à polícia para prestar “esclarecimentos” sobre atividades escusas. Mais lamentável é quando a justiça, invocando cláusulas obscuras, perdidas nos inúmeros códigos penais, processuais e quetais, solta todo mundo de uma penada só…  

E piora. A incompetência e a má fé são contagiosas e se espalharam pelas casas legislativas de todo o país. Com as exceções devidas e de sempre, a sensação é que nossos representantes estão mais preocupados com suas próprias vidas do que com o povo que os elegeram. Falta transparência e sobram conchavos, acordões, acordinhos, o diabo a quatro.  

A primeira eleição a gente nunca esquece e a minha foi um desastre só. Estou me referindo a de 1961, que consagrou Jânio Quadros, o da vassourinha. Eu tinha apenas 10 anos, mas nunca vi tanta esperança e alegria pelas ruas de Copacabana foi anunciada sua vitória. Infelizmente, o presidente não regulava bem e após apenas sete meses de governo, renunciou. O resto é história. 

Tenho pena da gente honesta, trabalhadora e de boa fé que investe o que tem e o que não tem para tentar mudar alguma coisa nesse país e se vê envolvida por raposas felpudas, para não dizer outra coisa, além dos esquemas escusos de sempre. Hoje, com os recursos tecnológicos, ainda tem que conviver com fanáticos e robôs nas redes sociais, desqualificando seu trabalho, difamando sua honra e ameaçando sua família. É duro!    

Enfim, por uma questão de saúde e uma profunda decepção com o Brasil, em novembro não voto! Ainda mais quando vejo uma lista com 16 nomes querendo a prefeitura de Nova Friburgo, a cara de pau de candidatos enroladíssimos com a lei liderando a eleição no Rio e por aí vai. Dá uma tristeza enorme e a certeza de que nós, brasileiros, não sabemos votar e desconhecemos a força que nosso voto poderia ter. Uma pena. 

Boa semana para todos os leitores. 

O apagão

Foto: Carlos Emerson Junior

Onde você estava quando as luzes se apagaram na noite da última sexta-feira, dia 2 de outubro? Pois é, peguei emprestado o título de um antigo filme da década de 60, com Doris Day e Patrick O’Neal para falar sobre o apagão que deixou no escuro cerca de 20 municípios fluminenses (incluindo Nova Friburgo), durante quase quatro horas. Segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico – ONS, concessionaria local, problemas em 3 subestações de força de Furnas foram os vilões da história.

Eu estava em casa, lendo um livro e esperando que a máquina de lavar roupa completasse seu ciclo de lavagem quando, faltando uns cinco ou dez minutos para as cinco horas da tarde, o estabilizador de voltagem da geladeira apitou, um dos notebooks o acompanhou e a luz sumiu por uns quinze minutos.

Não dei a menor importância, afinal tenho experiência no ramo: na década de 50 e 60, criança ainda, convivi com os racionamentos de energia no Rio, dia sim e o outro também, em dois horários, um pela manhã e o outro à noitinha. Quando comprei o apartamento de Nova Friburgo, em um bairro praticamente desabitado e cheio de mata em volta, a luz ia e vinha ao sabor do vento, da chuva e do sol. Ah, e dos relâmpagos e trovões também!

Por volta das seis da tarde, fui abrir a porta de casa para minha mulher e, surpresa, a luz se foi de novo, só se normalizando às nove e meia da noite quando, completamente entediados, já avaliávamos a hipótese de subir para o quarto e dormir até o dia seguinte. Infelizmente nossos planos foram por água abaixo quando lembramos que a máquina de lavar, cheia de roupas, ainda tinha alguns ciclos a cumprir.

E foi isso. A luz iluminou, a lavadora lavou e a vizinhança reclamou, com toda a razão: imagina como ficaram os hospitais da cidade, cheios de cidadãos com o vírus? No dia seguinte, atrás de notícias, só conseguimos duas notas das empresas de luz aqui da região, avisando que não tinham nada a ver com isso e que passaram a noite remanejando as linhas de transmissão para manter o serviço ativo.

Furnas, por sua vez, publicou sua versão, atribuindo as falhas nas estações de Rio das Ostras, Duque de Caxias e Belford Roxo, garantindo que “as causas da ocorrência ainda estão sendo apuradas”. Tomara que sim. O que menos precisamos é de uma repetição dessa “ocorrência”, ainda mais depois de tantos anos sem maiores problemas.

E o legado da história? Achei uma caixa com 6 velas, comprada a uns vinte anos atrás, quando o Sans Souci ainda era um lugar isolado, praticamente sem luz. Quase um achado arqueológico.

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Aos idosos que não se entregaram, aos que ainda lutam para superar suas dificuldades e àqueles que cuidam uns dos outros, força e coragem para seguir em frente e vencer essa peste!” (Ana Borges, Jornal A Voz da Serra)

Muito oportuno e bem-vindo o belo artigo publicado no Caderno Z, do jornal A Voz da Serra deste sábado (que por causa do apagão circulou no domingo) escrito pela amiga e jornalista Ana Borges, sobre os mais atingidos pelo covid-19, os idosos, a turma que já passou dos 60, 65, 70, a minha turma, enfim. Oportuno, instrutivo e inspirador. Obrigado, Ana.

O link para leitura on line está aqui: https://avozdaserra.com.br/noticias/aos-idosos-que-nao-se-entregaram-e-aos-que-ainda-lutam-para-superar-dificuldades.

Deu no New York Times

Bom dia!

O editorial do NYT de hoje, traduzido e transcrito abaixo, é curto e grosso, apontando a irresponsabilidade,de uma elite política que só se preocupa com o povo na época de pedir seus votos. O castigo veio a cavalo, afinal o coronavírus não tem nada a ver com isso e uma quantidade enorme de participantes da festa está doente, inclusive o presidente dos Estados Unidos.

Parece até o nosso país, não é mesmo? O que os idiotas esquecem é que as vacinas ainda não estão prontas, os remédios são paliativos e sequer se sabe se quem já foi infectado está imune ao vírus. É claro que a quarentena não pode durar para sempre mas a abertura teve tudo menos critério científico e responsabilidade. Infelizmente as eleições de novembro estão aí e governadores, prefeitos e gente que não está nem aí para a saúde pública, agem às cegas, de olho apenas em sua votação. Aliás, a próprio evento em plena pandemia é simplesmente uma lástima!

Enfim, continuem evitando aglomerações, usem sempre a máscara e uma tenham uma ótima semana. Que Deus os abençoe.

Carlos Emerson Junior

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Os sacrifícios de muitos

Por David Leonhardt (The New York Times)

Foto: Alex Brandon (Associated Press)

Milhões de americanos passaram meses sem ver alguns de seus parentes mais próximos ou seus colegas. Eles cancelaram casamentos e formaturas. Eles disseram adeus aos entes queridos moribundos por telefone.

Mas quando muitos dos líderes políticos do país se reuniram na Casa Branca há nove dias para comemorar a nomeação de Amy Coney Barrett para a Suprema Corte, eles decidiram que as regras da pandemia que se aplicavam a todos os outros não se aplicavam a eles.

Alguns deles presumiram, erroneamente , que, por terem recebido um teste de vírus de resposta rápida ao chegar à Casa Branca, não podiam ser infecciosos. Outros simplesmente optaram por não pensar no vírus, ao que parece. Em vez disso, dezenas deles estavam sentados, sem máscara, a centímetros um do outro . Eles apertaram as mãos, se abraçaram e se beijaram. Depois de começar ao ar livre, o evento mudou para um ambiente interno, onde os participantes continuaram a comemorar como se fosse 2019.

Agora há motivos para acreditar que a reunião foi um evento super-disseminador do coronavírus. O presidente e a primeira-dama estão doentes, assim como dois senadores presentes, um ex-governador, o presidente da Universidade de Notre Dame e vários funcionários da Casa Branca, jornalistas e outros.

E qualquer pessoa infectada na Casa Branca naquele dia pode ter infectado outras pessoas posteriormente.

Andrew Joseph, da publicação de saúde Stat escreveu neste fim de semana que o evento na Casa Branca “oferece um estudo de caso no que os especialistas dizem ter sido a imprudência do governo”. O Times compilou fotos do evento, com etiquetas que identificam muitos dos participantes .

Rebecca Ruiz do Mashable tuitou , em resposta a uma foto da recepção interna para Barrett: “Eu não abracei meus pais desde 8 de março e eles não abraçaram seus netos desde então. Eu queria desesperadamente dar as mãos ao avô no aniversário dela e eu disse não, não podemos correr esse risco. ”

David French, do site conservador The Dispatch, escreveu : “Que contraste impressionante com a maneira como tantos milhões de americanos viveram suas vidas”.

Talvez a resposta mais pungente veio do presidente da Notre Dame, o reverendo John Jenkins. Nesta primavera, Jenkins argumentou que as faculdades tinham a obrigação moral de reabrir , para o bem do “corpo, mente e espírito” de seus alunos. Mas Notre Dame faria isso com cuidado, ele prometeu. Quando alguns alunos violaram as regras do campus dando festas – sem máscaras ou distanciamento social – e um surto de vírus se seguiu, Jenkins cancelou as aulas presenciais por duas semanas como punição e precaução.

No início da semana passada, antes mesmo de ficar claro que a Casa Branca ajudou a espalhar o vírus, Jenkins escreveu uma carta à comunidade de Notre Dame expressando pesar por seu comportamento ali. “Não consegui dar o exemplo, em uma época em que pedi a todos os outros membros da comunidade Notre Dame que o fizessem”, escreveu ele. “Lamento especialmente meu erro à luz dos sacrifícios feitos diariamente por muitos.”

(Publicado na edição de hoje da Newsletters “Morning”, do The New York Times).

Dois mil e vinte, o ano que nunca começou

Foto: Carlos Emerson

Trinta e um de dezembro de dois mil e dezenove. Toda a mídia, praticamente sem exceção, divulga as famosas previsões de astrólogos, videntes, cartomantes, tarólogos, religiosos, cientistas, analistas políticos, economistas, atores, músicos e celebridades diversas sobre o ano que está chegando. Vamos lembrar algumas?

“Para a carreira, as previsões para 2020 são muito boas. Tudo indica que no próximo ano aumentarão as oportunidades de trabalho”.
“Será um ótimo ano para colocar em projetos e planos em prática, muitas pessoas terão iniciativas.”
“O passaporte brasileiro será um dos mais cobiçados, e falando nisso, acordos bilaterais vão reduzir a necessidade de visto para vários países”.
“Sites de fofoca vão bombar: a tendência é haver traições e separações envolvendo artistas e poderosos em geral”.

Pois é, os sites de fofoca realmente estão com a bola cheia mas em compensação o mundo inteiro parou completamente por causa de um “resfriadinho” que ninguém previu. Que coisa! Janeiro e fevereiro ainda rolaram numa boa, sol, praia, carnaval, uma festa, apesar dos alertas da OMS e até mesmo do Ministério da Saúde, dando conta que havia alguma coisa estranha no ar. Literalmente.

Em março, diante do crescimento descontrolado do número de casos e mortes, os governos do planeta, impotentes, resolveram fazer a única coisa a seu alcance naquele momento: parar o mundo. E assim foi feito. O tempo foi passando, o vírus estudado, dissecado e, possivelmente transmutado reduziu a “poderosa” civilização do século XXI, quase oito bilhões de pessoas, a meros prisioneiros trancados em suas casas, tentando sobreviver da maneira o menos pior possível.

O resto é história e para ser honesto, tenho que registrar que as guerras pararam, o trânsito melhorou, o ar das cidades melhorou, a maneira de trabalhar mudou e a internet, ao contrário do que previram os filmes do James Cameron (lembram da Skynet?), salvou vidas, empregos e a educação de nossas crianças e jovens.

Pelo tempo que já vivi, não me iludo com essa de “dias melhores virão”. Moro no Estado do Rio e vi de perto o que a ganância, o desamor e a falta de vergonha na cara podem fazer. O caso dos sete hospitais de campanha usados para desviar dinheiro público em plena crise da saúde foi de uma canalhice sem igual. Roubar numa hora dessas deveria ser crime hediondo.

Mas vamos em frente e lentamente, assistindo pela janela as estações do ano passarem, apreciando as mudanças de cores das árvores da floresta que nos rodeia, os pássaros que vão e vem, as nuances dos diferentes céus de março até hoje, me dou conta que estamos no meio de setembro e o ano que não começou acaba daqui a 3 meses, com ou sem vírus, com ou sem vacinas.

Para mim, 2020 será o ano que descobri que tinha um câncer, fiz uma cirurgia e encarei uma quimioterapia em plena pandemia do Coronavírus. Não tenho a menor ideia do que virá pela frente mas, como sou brasileiro vou encarar numa boa. Afinal, se eu tivesse desistido, não estaria aqui escrevendo essa crônica!

PS: Mas decididamente, 2020 não existiu!

Carlos Emerson (setembro/2020)

Vírus Filho da Puta!

Shuterstock

Os números são terríveis: no mundo são 25.251.334 casos de Covid-19 e 846.841 mortes. O Brasil contribuiu até agora com 3.908.272 casos (15,47%) e 121.381 fatalidades (14,33%). Nosso desgovernado Estado do Rio tem 223.631 casos e 16.065 óbitos e Nova Friburgo, com 2.409 casos e 100 mortes, aparece lá embaixo mas com números preocupantes para uma cidade que não chega a ter 200 mil habitantes.

Enquanto isso assistimos, estupefatos, o afastamento de mais um governador, a prisão de dezenas de autoridades, políticos e empresários envolvidos em um revoltante e nojento caso de desvio de dinheiro da saúde, superfaturamento de hospitais, formação de quadrilhas, recebimento de propinas e diabo a quatro. Já são sete os chefes do governo fluminense presos, processados ou investigados e afastados por, digamos gentilmente, mal feitos.

Quem elegeu essa gentinha? Nós, é claro, que nos acostumamos a votar no menos pior, durante anos escolhemos representantes corruptos e inúteis para as casas legislativas, fechamos os olhos para os desmandos de pseudo autoridades desde que tenhamos carnaval, praia e futebol, não necessariamente nessa ordem; delegamos poderes da época do império a nulidades que não conseguem assinar o nome, não entendem o que ouvem e não sabem falar. Uma lástima!

Foto: Wilton Junior/ Estadão

A visão dantesca das fotos e vídeos das praias cariocas no último final de semana é de provocar engulhos. Estavam comemorando o fim da pandemia? A cura do vírus? O que esse povo tem na cabeça? Em quem essa gente confia? Acreditam mesmo nos irresponsáveis pela saúde pública? Na mídia partidária? No coelhinho da Páscoa? Ou seria no Papai Noel?

Dizem que os critérios para a flexibilização são técnicos mas como precisam atender a uma senhora com o sonoro nome de “Reeleição”, aceitam qualquer barbaridade que um aspone ou empresário buzine no ouvido da “Vossa Excelencia” da vez. Até hoje não entendo porque as eleições deste ano foram mantidas. Um desserviço para a população, quando bastava prorrogar os mandatos por uns seis meses ou até o vírus ser controlado, sei lá, usassem a criatividade!

E por falar nisso, a escolha dos prefeitos e vereadores deveria ser mais importante para o cidadão do que a do governador e até mesmo do presidente (com minúsculas, por favor). Um país continental como o nosso não pode depender de uma pequena e poderosa pseudo elite que se aboletou há anos no poder, independente de qualquer ideologia. O voto distrital seria uma boa? Talvez… Não por acaso, a turma de Brasília tem horror a essa ideia.

Desenho: Oscar Niemeyer
Vivemos um momento tão confuso que ninguém mais sabe quem manda em quem no Brasil e todo mundo, mas todo mundo mesmo é culpado por essa mixórdia, agravada pelo Coronavírus. Depois de todas as asneiras ditas e cometidas que nos levaram a uma tragédia, lembro do escritor israelense Eshkol Nevo que, em uma ótima crônica no jornal espanhol El País, afirma que “não está disposto a escutar mais ninguém dizendo que o vírus vai nos ensinar uma lição, e que vai nos fazer retornar a uma vida mais simples. O vírus é um filho da puta.”

No fundo, é isso aí mesmo: somos todos filhos da puta!

Carlos Emerson Junior (setembro/2020)

Livros em quarentena

Confesso que tenho lido e escrito muito pouco. O isolamento tem um preço que é agravado pela medicação da quimioterapia, a concentração. Segundo neurologistas do Hospital das Clínicas de São Paulo, “o isolamento pode provocar certo embotamento psicológico, frieza e distanciamento das emoções positivas”. De uma maneira grosseira, acho muito mais simples tirar uma soneca do que mergulhar nas páginas de um romance.

Mas tenho me esforçado, é claro. Minha filha mais nova nos presenteou com dois livros de autores suecos, “Um Homem Chamado Ove”, de Frederik Backman, Editora Objetiva e “O Ancião Saiu Pela Janela e Desapareceu”, do Jonas Jonasson, da Editora Record. Estou lendo o primeiro, que já nos surpreende de cara com o título do capítulo 1: “Um homem chamado Ove compra um computador que não é um computador”. Pois é!

O outro livro sueco, “O Ancião Saiu Pela Janela e Desapareceu”, está sendo lido com gosto pela minha mulher. Em sua opinião, apesar da história meio estranha ou talvez, muito escandinava, um senhor centenário que foge de um asilo só de pantufa e pijama e participa de aventuras inesperadas e até mesmo inacreditáveis, é um romance engraçado, ágil e ideal para passar as horas sem a menor preocupação.

Já “A Hora Final”, romance distópico do escritor inglês Nevil Shute, lançado em 1958 e atualmente fora de catálogo no Brasil (comprei meu exemplar, uma edição de 1974 da Companhia Editora Nacional, na internet) foi a base do aclamado filme do mesmo nome, lançado em 1959 com Gregory Peck, Ava Gardner, Fred Astaire e Anthony Perkins. Uma guerra nuclear destruiu todo o hemisfério norte e uma imensa e mortal nuvem radioativa se espalhou pelos países que restaram no hemisfério sul, entre eles, a Austrália (onde a história se desenrola), Brasil e Uruguai. Leitura pesadíssima para esses dias obscuros que estamos vivendo, mas indispensável para os fãs do filme e das e plausíveis histórias de ficção científica.

“Prazer em Queimar – Histórias de Fahrenheit 451”, editado pela Biblioteca Azul, é uma coletânea do escritor norte-americano Ray Bradbury, reunindo “dezesseis contos que deram origem ao seu romance clássico e obra-prima, Fahrenheit 451”. Acho que já li quase toda os trabalhos do autor, mas quando vi na resenha que este livro traz alguns inédito, não resisti e encomendei na mesma hora. Como ainda não li e cheio de expectativas, devo uma postagem com a devida resenha, para o bem ou para o mal.

“O Bom Pastor”, do britânico C.S.Forester, lançado em 1955 nos Estados Unidos e na Inglaterra e em 2020 no Brasil, pela Editora Record, narra a saga do comandante de um contratorpedeiro americano em um comboio de navios cruzando o Atlântico norte, levando tropas, mantimentos, combustível, armas, remédios e alimentos em plena Segunda Guerra Mundial. O ano é 1942 e os submarinos alemães, em grande número e atacando como matilhas de lobos são mortíferos. Para piorar, essa é a primeira missão do comandante do comboio…

Comprei o e-book na Amazon por impulso, logo após assistir na internet ao badalado e inédito longa metragem “Greyhound”, com o Tom Hanks, baseado nessa história. O filme, muito bom, por sinal, capricha no ambiente soturno, hostil, frio e cruel, mostrando como angustiantes e terríveis eram essas viagens. Vai ser a leitura seguinte ao livro do “Ove”.

*****

Pois é, livros e filmes são ótima companhia para esses dias (meses, anos, séculos, vai saber…) de quarentena do Covid-19, principalmente se levamos o isolamento à sério, saindo de casa o estritamente necessário e possível. Aliás, estou sendo injusto, livros são os nossos amigos para qualquer hora e o melhor, não tem nenhum efeito colateral. Palavra de quem adora ler!

Carlos Emerson Junior (agosto/2020)

Casa de Marimbondos

Foto: Carlos Emerson Jr.

“Marimbondo furibundo
Vai mordendo meio mundo
Cuidado com o marimbondo
Que esse bicho morde fundo!”
(Vinícius de Moraes, 1970)

 

– Não brinca aí, menino, não está vendo a casa de marimbondos? Pois é, não vi mesmo; quando a gente é criança não presta atenção nessas coisas, não sabe que pode ser perigoso, acredita que tudo é implicância de gente grande. Dei sorte na vida (ou tive juízo) e consegui manter sempre uma distância cautelosa desses insetos. Afinal, como já diziam os antigos, o seguro morreu de velho…

Ferroada de marimbondo dói pra burro. Lembro de uma de minhas idas à parasidíaca Ilha Grande, no litoral sul do Estado do Rio, para acompanhar uma vistoria da Marinha do Brasil a um enorme terreno de propriedade da empresa onde trabalhava na época, ainda tomado pela Mata Atlântica. Lá pelas tantos, floresta adentro, o mateiro passou, o pessoal da Marinha foi atrás e eu dei de cara com um bando de marimbondos. O resultado final desse encontro foi o mateiro tirando o ferrão da minha mão com um facão, aplicando a seiva de uma planta nativa na ferida, garantindo que daria para guiar de volta ao Rio antes que a mão virasse um balão.

Deu para voltar para casa e sim, a mão inchou muito!

Que ninguém nos ouça, mas pessoalmente tenho muito mais medo de mosquitos do que de abelhas, vespas e cia., predadores naturais dos transmissores da dengue e outras pestes. E já que estamos falando em pestes, o famigerado Covid-19 também é de aterrorizar qualquer pessoa que tenha um mínimo de sanidade mental, o que não é o caso das hordas de idiotas que vagam alegre e irresponsavelmente por aí, em pétrea aglomeração e inabalável convicção de que podem superar a doença.

Cuidado com os marimbondos, pessoal!

Hospital de Campanha

Foto: Portal Multiplix

 

“Só agora, depois de meses de pandemia, aprendi que Hospital de Campanha foi feito para arrecadar dinheiro para campanha eleitoral.”
(Redes Sociais)

 

No início de abril, o governador do Estado do Rio anunciou, com pompa e circunstância, que estava implantando sete hospitais de campanha para ajudar no combate ao Covid-19 nas cidades do Rio, São Gonçalo, Duque de Caxias, Campos, Casimiro de Abreu, Nova Iguaçu e Nova Friburgo, a um custo de 770 milhões de reais, através de um contrato emergencial, sem licitação, com uma notória OS cujo nome todos conhecemos.

Pois muito bem (ou melhor, muito mal), hoje, dia 2 de agosto, 4 meses depois, apenas duas unidades entregues (Maracanã e São Gonçalo) e já desativadas e as cinco restantes… Ninguém sabe, ninguém viu. O secretário de saúde que assinou os contratos está preso junto com os dirigentes da empresa responsável (?) pela construção e gestão das unidades, o governador devidamente acuado no Palácio Guanabara e nós, simples cidadãos contribuintes e votantes, morrendo de vergonha com mais um escândalo!

O pior de tudo é ouvir o atual secretário de saúde tentar nos convencer que os hospitais não serão ativados porque o Covid-19 já está devidamente controlado e seus índices de infecções e falecimento em plena queda. Aí fico em dúvida se estou sendo chamado de burro, idiota ou cego! De qualquer maneira, fico com a esperança que os eleitores não se esqueçam dessa pajelança estadual e deem o troco nas eleições de novembro. É o mínimo que podemos fazer.

A propósito, não sei quem é o autor da frase que abre o texto, mas deixo meus cumprimentos e assino embaixo: parabéns!