Os Estatutos do Homem

(Ato Institucional Permanente)

por Thiago de Mello
Santiago do Chile, 1964

Artigo I.
Fica decretado que agora vale a verdade.
que agora vale a vida,
e que de mãos dadas,
trabalharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II.
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III.
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV.
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo Único:
O homem confiará no homem
como um menino confia em outro menino.

Artigo V.
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.

Artigo VI.
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII.
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII.
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX.
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha sempre
o quente sabor da ternura.

Artigo X.
Fica permitido a qualquer pessoa,
a qualquer hora da vida,
o uso do traje branco.

Artigo XI.
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo.
muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII.
Decreta-se que nada será obrigado nem proibido.
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.

Artigo XIII.
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.

Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade.
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.

*****

Amadeu Thiago de Mello é um poeta e tradutor brasileiro. É um dos poetas mais influentes e respeitados no país, reconhecido como um ícone da literatura regional. Tem obras traduzidas para mais de trinta idiomas.

Cerejeiras

Foto: Carlos Emerson Jr.

“Em uma encosta de montanha,
solitária, não acompanhada,
se encontra uma árvore de cerejeira.
Exceto para você, amiga solitária,
para os outros eu sou desconhecido.”

(Abade Gyôson – 1055/1135)

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Oi! Passei aqui para avisar que as cerejeiras de Nova Friburgo estão florescendo. Além de deixar a cidade muito mais bonita, são sempre um tema perfeito para versos, fotos e, quem sabe, amor. Que sejam muito bem vindas.

Elizabeth Bishop, um poema de amor

Nagy Gallery, New York

A Arte de Perder
de Elizabeth Bishop

A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouquinho a cada dia.
Aceite, austero, A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subsequente

Da viagem não feita.
Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe.
Ah! E nem quero

Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas.
E um império Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles.
Mas não é nada sério.
– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada.
Pois é evidente que a arte de perder não chega a ser mistério por muito que pareça

(Escreve!) muito sério

(Tradução de Paulo Henriques Britto)

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Considerada uma das maiores poetas de língua inglesa, a norte-americana Elizabeth Bishop morou no Brasil durante 20 anos (Rio de Janeiro, Petrópolis e Ouro Preto), onde conheceu Lota de Macedo Soares, Dona Lota, sua grande paixão. O poema acima, no entanto, foi escrito quando sua primeira namorada após o suicídio de Dona Lota, a americana Alice Methfessel, avisou que iria deixá-la. Sua história é trágica, feliz, intensa, solitária e criativa. Lésbica, alcoólatra e asmática. Uma grande poeta. Dê um Google e veja como essa mulher foi interessante. Vale a pena.

A propósito, merecidamente Elizabeth Bishop será a escritora homenageada na próxima FLIP.

Poesia

Foto: Carlos Emerson Jr.

“Leia poesia todos os dias de sua vida. Poesia é bom porque exercita músculos que não são utilizados sempre. Poesia expande os sentidos e os mantém em forma. Ela mantém você consciente de seu nariz, olho, ouvido, língua, mão. E, acima de tudo, a poesia é uma metáfora compacta ou um sorriso.”

Ray Bradbury

Os homens ocos

 

T.S.Eliot (1925)

 

I

Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas,
Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas
Como o vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos
Em nossa adega evaporada

Fôrma sem forma, sombra sem cor
Força paralisada, gesto sem vigor;

Aqueles que atravessaram
De olhos retos, para o outro reino da morte
Nos recordam – se o fazem – não como violentas
Almas danadas, mas apenas
Como os homens ocos
Os homens empalhados.

II

Os olhos que temo encontrar em sonhos
No reino de sonho da morte
Estes não aparecem:
Lá, os olhos são como a lâmina
Do sol nos ossos de uma coluna
Lá, uma árvore brande os ramos
E as vozes estão no frêmito
Do vento que está cantando
Mais distantes e solenes
Que uma estrela agonizante.

Que eu demais não me aproxime
Do reino de sonho da morte
Que eu possa trajar ainda
Esses tácitos disfarces
Pele de rato, plumas de corvo, estacas cruzadas
E comportar-me num campo
Como o vento se comporta
Nem mais um passo

– Não este encontro derradeiro
No reino crepuscular

III

Esta é a terra morta
Esta é a terra do cacto
Aqui as imagens de pedra
Estão eretas, aqui elas recebem
A súplica da mão de um morto
Sob o lampejo de uma estrela agonizante.

E nisto consiste
O outro reino da morte:
Despertando sozinhos
À hora em que estamos
Trêmulos de ternura
Os lábios que beijariam
Rezam a pedras quebradas.

IV

Os olhos não estão aqui
Aqui os olhos não brilham
Neste vale de estrelas tíbias
Neste vale desvalido
Esta mandíbula em ruínas de nossos reinos perdidos

Neste último sítio de encontros
Juntos tateamos
Todos esquivos à fala
Reunidos na praia do túrgido rio

Sem nada ver, a não ser
Que os olhos reapareçam
Como a estrela perpétua
Rosa multifoliada
Do reino em sombras da morte
A única esperança
De homens vazios.

V

Aqui rondamos a figueira-brava
Figueira-brava figueira-brava
Aqui rondamos a figueira-brava
Às cinco em ponto da madrugada

Entre a ideia
E a realidade
Entre o movimento
E a ação
Tomba a Sombra
Porque Teu é o Reino

Entre a concepção
E a criação
Entre a emoção
E a reação
Tomba a Sombra
A vida é muito longa

Entre o desejo
E o espasmo
Entre a potência
E a existência
Entre a essência
E a descendência
Tomba a Sombra
Porque Teu é o Reino

Porque Teu é
A vida é
Porque Teu é o

Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Não com uma explosão, mas com um gemido.

(Tradução: Ivan Junqueira
Arte: Owen Freeman)

Palavra

por Irene Gomes

“Palavra não foi feita para dividir ninguém,
palavra é uma ponte onde o amor vai e vem,
onde o amor vai e vem.

Palavra não foi feita para dominar,
destino da palavra é dialogar,
palavra não foi feita para opressão,
destino da palavra é união.

Palavra não foi feita para a vaidade,
destino da palavra é a eternidade,
palavra não foi feita p’ra cair no chão,
destino da palavra é o coração.

Palavra não foi feita para semear
a dúvida, a tristeza e o mal-estar,
destino da palavra é a construção
de um mundo mais feliz e mais irmão.

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Em tempos de tantos conflitos, os versos da canção de Irene Gomes servem como um farol de lucidez, lembrando que não custa nada parar de pensar apenas em nós mesmos, alimentando o coração com sentimentos como o ódio. Muito obrigado a Igreja Nossa Senhora do Brasil pela publicação dos versos e ao Portal Luteranos pelas informações sobre a autora.

Tenham todos um ótimo dia.

Fim

Frederic Brown

O professor Jones vinha trabalhando na teoria do tempo havia muitos anos.

– E descobri a equação-chave – ele disse um dia a sua filha.– O tempo é um campo. Esta máquina que construí pode manipular – e até inverter – esse campo.

Premindo um botão enquanto falava, acrescentou: – Isto deveria fazer com que o tempo corresse ao contrário contrário ao corresse tempo o que com fazer deveria isto: acrescentou, falava enquanto botão um premindo. Campo esse – inverter até e – manipular pode construí que máquina esta. Campo um é tempo o. – Filha sua a dia um disse ele – chave-equação a descobri e. Anos muitos havia tempo do teoria na trabalhando vinha Jones professor o.

(tradução de Luiz Roberto Guedes)

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fredric-brownEscritor norte-americano, Fredric Brown nascido a 29 de Outubro de 1906 em Cincinnati, no estado do Ohio. Estudou à noite na Universidade de Cincinnati e no Hanover College em Indiana, onde permaneceu um ano. De 1925 a 1936 foi funcionário administrativo, tendo-se tornado depois revisor de provas do Milwaukee Journal . Afiliou-se no Clube de Escritores de Ficção de Milwaukee, juntamente com Robert Bloch, que viria a editar, em 1977, uma colectânea dos seus contos. Continue lendo>>

Ana C.

“Apaixonada,
saquei minha arma,
minha alma,
minha calma,
só você não sacou nada.”

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1447440177_356883_1447440445_noticia_normalAna Cristina Cesar ou Ana C., como era conhecida, nasceu em 1952 na cidade do Rio de Janeiro. Após 1968, passou um ano em Londres, fez algumas viagens pelos arredores e, na volta, deu aulas, traduziu, fez letras, escreveu para revistas e jornais alternativos e saiu na antologia “26 Poetas Hoje”, de Heloísa Buarque. Publicou, pela Funarte, pesquisa sobre literatura e cinema, fez mestrado em comunicação, lançou seus primeiros livros em edições independentes: “Cenas de Abril” e “Correspondência Completa”. Dez anos depois voltou à Inglaterra, graduou-se em tradução literária, escreveu muitas cartas e editou “Luvas de Pelica”. Trabalhou em jornalismo, televisão e escreveu “A Teus Pés”, Editora Ática – São Paulo, 1998. Suicidou-se no dia 29 de outubro de 1983. (Projeto Releituras, Arnaldo Nogueira Jr.)

Leia mais aqui e aqui.

Foto: Acervo/Instituto Moreira Salles

A morte da diferença

por Carlos Emerson
(Revista Palmeiras, dezembro de 1953)

O título não é muito sugestivo. Poderá haver o que contar no terreno contábil ? Temos de concordar que não há muita literatura nesse setor. Caso houvesse margem para tipos interessantes dentro da contabilidade teríamos então os romancistas – criadores de personagens – metendo nos seus livros heróis contadores.

Continue lendo “A morte da diferença”

Daniils Kharms, o absurdo

Velhas que caem

Por excesso de curiosidade uma velha meteu-se pra fora da janela, caiu e espatifou-se.
Outra velha apareceu na janela e começou a olhar para a espatifada, mas por excesso de curiosidade também se meteu pra fora da janela, caiu e se espatifou no chão.
Depois caiu uma terceira velha da janela, depois uma quarta, e depois uma quinta.
Mas, quando caiu uma sexta velha, eu fiquei entediado e fui à feira de Máltsevski, onde ouvi dizer que um cego ganhou um xale de tricô.

(Tradução: Daniela e Moissei Mountian)

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Caderno azul nº 10

Era uma vez um homem ruivo, sem olhos nem orelhas. Também não tinha cabelos, e só por convenção lhe chamávamos ruivo. Não podia falar porque não tinha boca. E nariz também não. Nem sequer tinha braços e pernas. Também não tinha barriga, nem coluna vertebral, nem mesmo entranhas. Não tinha coisa nenhuma! Por isso pergunto de quem estamos nós a falar. Desta forma é preferível nada acrescentarmos a seu respeito.

(Tradução: Sergio Moita)

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Os sonhos teus vão acabar comigo

Os sonhos teus vão acabar contigo.
O interesse pela vida austera Irá desaparecer feito fumaça.
Então Desejos e paixões irão murchar,
O mensageiro do céu não virá a correr
Nem a juventude do ardente pensar…
Para, meu amigo, de tanto sonhar,
Exime o entendimento de morrer.

(Tradução: Aurora Bernardini)

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Daniil Kharms foi um surrealista, poeta do absurdo, escritor e dramaturgo. Nasceu em 1905, em São Petersburgo, na Russia.

Em 1924, entrou para Leningrado Electrotechnicum, de onde foi expulso por “falta de atividade em atividades sociais. Após sua expulsão, ele entregou-se inteiramente à literatura. Juntou-se ao círculo de Aleksandr Tufanov, um poeta e seguidor das idéias de Velemir Khlebnikov. Em 1928, fundou a avant-garde Oberiu coletivo, ou União da Arte Real. Sua estética era centrada em torno da crença na autonomia da arte a partir de regras do mundo real e lógica, bem como o significado intrínseco de ser encontrada em objetos e palavras fora de sua função prática.

Kharms foi preso por suspeita de traição, no verão de 1941, em Leningrado e morreu em sua cela em fevereiro de 1942, provavelmente de fome e frio. Tinha apenas 37 anos. Sua obra só foi reconhecida e lançada em 1989, com o colapso do regime soviético. (Wikipédia)

Completamente desconhecido aqui no Brasil, só final de 2013 saiu, pela Editora Kalinka, a coletânea “Os sonhos teus vão acabar comigo”, com textos e poemas selecionados, “A velha”, de 1939, sua única novela, e a peça “Elizaveta Bam”, de 1928, considerada um dos marcos do teatro do absurdo. Já encomendei o meu exemplar.

À Espera dos Bárbaros

de Konstantinos Kaváfis
(Tradução de José Paulo Paes)

O que esperamos na ágora reunidos?

É que os bárbaros chegam hoje.

Por que tanta apatia no senado?
Os senadores não legislam mais?

É que os bárbaros chegam hoje.
Que leis hão de fazer os senadores?
Os bárbaros que chegam as farão.

Por que o imperador se ergueu tão cedo
e de coroa solene se assentou
em seu trono, à porta magna da cidade?

É que os bárbaros chegam hoje.
O nosso imperador conta saudar
o chefe deles. Tem pronto para dar-lhe
um pergaminho no qual estão escritos
muitos nomes e títulos.

Por que hoje os dois cônsules e os pretores
usam togas de púrpura, bordadas,
e pulseiras com grandes ametistas
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
Por que hoje empunham bastões tão preciosos
de ouro e prata finamente cravejados?

É que os bárbaros chegam hoje,
tais coisas os deslumbram.

Por que não vêm os dignos oradores
derramar o seu verbo como sempre?

É que os bárbaros chegam hoje
e aborrecem arengas, eloqüências.

Por que subitamente esta inquietude?
(Que seriedade nas fisionomias!)
Por que tão rápido as ruas se esvaziam
e todos voltam para casa preocupados?

Porque é já noite, os bárbaros não vêm
e gente recém-chegada das fronteiras
diz que não há mais bárbaros.

Sem bárbaros o que será de nós?
Ah! eles eram uma solução.

*****

Konstantinos_Kavafis_-_DescontextoKonstantinos Kaváfis (Alexandria, 29 de abril de 1863 – Alexandria, 29 de abril de 1933)

Considerado um dos maiores poetas gregos modernos. Não chegou a publicar nenhum livro, apenas poemas em folhetins e jornais. Após sua morte, foi publicado um livro com os 154 poemas que escreveu.

Um contador de causos

Rui Barbosa Egual

Tenho muitos parentes em Araguari, da minha família materna. Tia Delermanda (não me lembro de ter visto esse nome outras vezes) que era nessa encarnação irmã da minha mãe, teve muitos filhos.

Certo dia aproveitando as férias escolares, estava na casa dessa tia querida jogando ora caxeta, ora damas, com meu Tio Manelico seu marido, um perfeito e bem sucedido munheca de samambaia. Ele era muito pão duro, e acredito que no começo da vida tinha que ser assim pela quantidade de bocas para sustentar. Mas depois tomou gosto e virou modo de vida mesmo.

O apelido veio de uma divertida abreviação do nome de batismo, Manoel Henrique. Ficou Tio Manelico, pedreiro da companhia ferroviária e dono de um monte de casinhas de aluguel, construídas ou reformadas por ele mesmo. Foi uma vida dedicada a acumular bens e grana, sem nunca se dar ao luxo de entrar numa venda, bar, quitanda ou pensão para tomar uma cachaça ou comer um pastel com garapa.

Mas era um sujeito que ao tempo que tinha uma aparência rústica e brutalizada, era dono de uma amorosidade invejável. Quase sem estudos, mas uma águia nas catiras (nome dado ao comércio informal de troca de bens e serviços) e dono de um senso de humor incrível.

Nesse dia, durante o jogo de damas, Tia Delermanda, que era muito magrinha e tinha o hábito de cheirar tabaco, chegou na cozinha onde estavamos jogando, carregando uma lata enorme cheia de lavagem. Acho que pelo peso e por estar naquele momento com o nariz meio entupido por conta do pó de fumo, denunciado pelo cheiro do rapé que ela tinha acabado de torrar no fogão a lenha e que tomava conta da casa, pediu:

– Manelico leve essa lavagem pra mim lá no chiqueiro.

Tendo como resposta imediata, para não perder a concentração do jogo levado muito a sério por nós:

– Come aqui mesmo Delermanda, ninguém repara não.

Tio Manelico tomou um belo de um esculacho pela ousadia e eu por rir demais. Acabei perdendo o jogo por falta de concentração, acho que foi tática do meu Tio.

*****

Como definir um escritor que nasceu em Uberaba, lá nas Minas Gerais, foi morar em Cuiabá, no meio do cerrado de Mato Grosso e ainda por cima se chama Rui Barbosa? Pois é… Sou suspeito até para elogiar seu trabalho, já que temos laços profundos de amizade e familia. Mas, como editor deste blog, jamais poderia deixar de passar a oportunidade de “emprestar” um “causo” de um de seus ótimos contos (“Zé Galinha). Aliás, espero muito vê-los reunidos em um livro o mais breve possível.

Ah sim, prá turma da cidade que não sabe o que é uma “lavagem”, fica aí uma sucinta explicação do Ruy: “o leitão tem importância vital, além de produzir esterco, carne e banha. É alimentado com as sobras das comidas, frutas e verduras. Engorda com as sobras, a famosa lavagem, acrescida de milho e farelo de arroz. Essa conhecida lavagem não tem lá um aroma agradável, a bem da verdade, fede que é uma beleza”.