O Espelho (Mia Couto)

Esse que em mim envelhece assomou ao espelho a tentar mostrar que sou eu. Os outros de mim, fingindo desconhecer a imagem, deixaram-me a sós, perplexo, com meu súbito reflexo. A idade é isto: o peso da luz com que nos vemos. (Mia Couto, Idades Cidades Divindades, 2008)

Os Estatutos do Homem

(Ato Institucional Permanente) por Thiago de Mello Santiago do Chile, 1964 Artigo I. Fica decretado que agora vale a verdade. que agora vale a vida, e que de mãos dadas, trabalharemos todos pela vida verdadeira. Artigo II. Fica decretado que todos os dias da semana, inclusive as terças-feiras mais cinzentas, têm direito a converter-se em…… Continuar lendo Os Estatutos do Homem

Cerejeiras

“Em uma encosta de montanha, solitária, não acompanhada, se encontra uma árvore de cerejeira. Exceto para você, amiga solitária, para os outros eu sou desconhecido.” (Abade Gyôson – 1055/1135) oOo Oi! Passei aqui para avisar que as cerejeiras de Nova Friburgo estão florescendo. Além de deixar a cidade muito mais bonita, são sempre um tema…… Continuar lendo Cerejeiras

A vida

Frescor agradecido de capim molhado Como alguém que chorou E depois sentiu uma grande, uma quase envergonhada alegria. Por ter a vida Continuado…” (Mario Quintana)

Elizabeth Bishop, um poema de amor

A Arte de Perder de Elizabeth Bishop A arte de perder não é nenhum mistério; Tantas coisas contêm em si o acidente De perdê-las, que perder não é nada sério. Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero, A chave perdida, a hora gasta bestamente. A arte de perder não é nenhum mistério. Depois perca…… Continuar lendo Elizabeth Bishop, um poema de amor

Heróis

Eu, eu serei rei E você, você será rainha Embora nada nos afaste Nós podemos vencê-los, apenas por um dia Nós podemos ser heróis, apenas por um dia (David Bowie – Heroes)

Teatro

Vocês, artistas que fazem teatro Em grandes casas, sob sóis artificiais Diante da multidão calada, procurem de vez em quando O teatro que é encenado na rua. Cotidiano, variado e anônimo, mas Tão vívido, terreno, nutrido da convivência Dos homens, o teatro que se passa na rua. (Bertolt Brecht)

Poesia

“Leia poesia todos os dias de sua vida. Poesia é bom porque exercita músculos que não são utilizados sempre. Poesia expande os sentidos e os mantém em forma. Ela mantém você consciente de seu nariz, olho, ouvido, língua, mão. E, acima de tudo, a poesia é uma metáfora compacta ou um sorriso.” Ray Bradbury

Autopsicografia

Fernando Pessoa O poeta é um fingidor. Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente. E os que leem o que escreve, Na dor lida sentem bem, Não as duas que ele teve, Mas só a que eles não têm. E assim nas calhas de roda Gira, a…… Continuar lendo Autopsicografia

Os homens ocos

  T.S.Eliot (1925)   I Nós somos os homens ocos Os homens empalhados Uns nos outros amparados O elmo cheio de nada. Ai de nós! Nossas vozes dessecadas, Quando juntos sussurramos, São quietas e inexpressas Como o vento na relva seca Ou pés de ratos sobre cacos Em nossa adega evaporada Fôrma sem forma, sombra…… Continuar lendo Os homens ocos

Caminho

Façamos da interrupção um caminho novo. Da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sonho uma ponte, da procura um encontro! (Fernando Sabino) Foto: Carlos Emerson Jr.

A sua estrada

“Qual é a sua estrada, homem? – a estrada do místico, a estrada do louco, a estrada do arco-íris, a estrada dos peixes, qualquer estrada… Há sempre uma estrada em qualquer lugar, para qualquer pessoa, em qualquer circunstância. Como, onde, por quê?” (Jack Kerouac)

Palavra

por Irene Gomes “Palavra não foi feita para dividir ninguém, palavra é uma ponte onde o amor vai e vem, onde o amor vai e vem. Palavra não foi feita para dominar, destino da palavra é dialogar, palavra não foi feita para opressão, destino da palavra é união. Palavra não foi feita para a vaidade,…… Continuar lendo Palavra

Fim

Frederic Brown O professor Jones vinha trabalhando na teoria do tempo havia muitos anos. – E descobri a equação-chave – ele disse um dia a sua filha.– O tempo é um campo. Esta máquina que construí pode manipular – e até inverter – esse campo. Premindo um botão enquanto falava, acrescentou: – Isto deveria fazer…… Continuar lendo Fim

Ana C.

“Apaixonada, saquei minha arma, minha alma, minha calma, só você não sacou nada.” oOo Ana Cristina Cesar ou Ana C., como era conhecida, nasceu em 1952 na cidade do Rio de Janeiro. Após 1968, passou um ano em Londres, fez algumas viagens pelos arredores e, na volta, deu aulas, traduziu, fez letras, escreveu para revistas…… Continuar lendo Ana C.

A morte da diferença

por Carlos Emerson (Revista Palmeiras, dezembro de 1953) O título não é muito sugestivo. Poderá haver o que contar no terreno contábil ? Temos de concordar que não há muita literatura nesse setor. Caso houvesse margem para tipos interessantes dentro da contabilidade teríamos então os romancistas – criadores de personagens – metendo nos seus livros…… Continuar lendo A morte da diferença

Daniils Kharms, o absurdo

Velhas que caem Por excesso de curiosidade uma velha meteu-se pra fora da janela, caiu e espatifou-se. Outra velha apareceu na janela e começou a olhar para a espatifada, mas por excesso de curiosidade também se meteu pra fora da janela, caiu e se espatifou no chão. Depois caiu uma terceira velha da janela, depois…… Continuar lendo Daniils Kharms, o absurdo

À Espera dos Bárbaros

de Konstantinos Kaváfis (Tradução de José Paulo Paes) O que esperamos na ágora reunidos? É que os bárbaros chegam hoje. Por que tanta apatia no senado? Os senadores não legislam mais? É que os bárbaros chegam hoje. Que leis hão de fazer os senadores? Os bárbaros que chegam as farão. Por que o imperador se…… Continuar lendo À Espera dos Bárbaros

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Um contador de causos

Rui Barbosa Egual Tenho muitos parentes em Araguari, da minha família materna. Tia Delermanda (não me lembro de ter visto esse nome outras vezes) que era nessa encarnação irmã da minha mãe, teve muitos filhos. Certo dia aproveitando as férias escolares, estava na casa dessa tia querida jogando ora caxeta, ora damas, com meu Tio…… Continuar lendo Um contador de causos