Luzes no céu

Finalmente o governo americano admitiu que objetos voadores não identificados tem sido avistados por aviões civis e militares, captados pelos radares e rastreados por satélites desde que, sei lá, eu nasci! Demorou e aproveitando a deixa, resolvi abrir os meus próprios arquivos “X” e narrar a única experiência que tive com esse “fenômeno”, no final da década de 60.

E sem mais delongas, senta que lá vem história, como dizem os “influencers” do YouTube.

O ano de 1969 foi difícil para todo mundo. Dois presidentes (Costa e Silva e Médici) e uma junta militar governaram o Brasil,  o embaixador dos Estados Unidos foi sequestrado, a Lei de Segurança Nacional decretada, o Congresso reaberto, uma nova Constituição promulgada, a reação ao poder crescia e eu, bom, prestava o  serviço militar obrigatório durante o dia, estudava à noite e tentava planejar o resto da minha vida.

Uma bela noite, lá no antigo Forte Imbuhy, em Niterói, depois de uma longa marcha morro acima e floresta abaixo, carregando fuzil, cantil, munição, sabre, mochila e todo o tipo de equipamento militar, retornamos exaustos, doidos para tirar toda a tralha das costas, tomar um banho, enfrentar a janta, ou melhor, o rancho noturno, cair na cama e dormir até as cinco da manhã do dia seguinte, para encarar outra marcha…

Exausto, deitei no gramado de um campo de futebol ao lado de um grupo que discutia a morte da bezerra ou algo parecido quando alguém comentou:

“Aquele avião é estranho, parece que não sai do lugar.”

Olhamos na direção indicada, algum ponto no céu do Rio acima do mar e realmente vimos uma luz amarelada parada, ou melhor, se elevando lentamente, em uma linha perfeitamente reta.

“Não é um avião, é um balão, cara e dos grandes.”

Balão? Em pleno mês de abril? Perto do Forte de Copacabana?  Se for vai ser derrubado com tiro de canhão, coitado! Caímos na gargalhada que cessou repentinamente quando vimos mais duas luzes se erguendo lentamente em  direção à primeira, que estava  parada como que aguardando a chegada de suas companheiras. O mais impressionante é que elas pareciam ter saído de dentro do mar.

“Acho melhor avisar algum oficial…”

Nem foi preciso falar duas vezes, o ordenança que estava conosco saiu correndo à procura de um.  A essa altura já estávamos todos de pé, na murada de pedra da fortaleza centenária tentando entender o que era aquilo. As três luzes agora estavam perfeitamente alinhadas e estranhamente paradas, como se aguardando algum coisa. Acho que todo o efetivo da bateria, cerca de 80 pessoas, parou tudo para assistir.

Um tenente se aproximou com um potente binóculo nas mãos. Nem deu para usar, as três luzes, uma ao lado da outra, retomaram a subida e e repente, sem aviso, dispararam à toda velocidade em direção ao espaço, sem deixar um rastro sequer de sua passagem. É até difícil descrever, mas quem conhece Jornada nas Estrelas deve entender, o efeito foi quase igual a aceleração da Enterprise em velocidade de dobra, só que na cor amarela. Ficamos literalmente de boquiabertos.

“Meu Deus, são discos voadores!”

A exclamação em voz alta de um companheiro nos tirou daquele torpor. Pior, desencadeou uma discussão enorme entre os que apostavam em alienígenas, fogo fátuo, balões meteorológicos, satélites, aviões, fogos de artifício, alucinação coletiva ou aparição divina. Nosso comandante encerrou o assunto, mandando todo mundo calar a boca e se encaminhar acelerado para o refeitório: o jantar finalmente estava servido.

Pois é, já se passaram 52 anos e nunca mais vi nada além de nuvens, aviões, pássaros e alguns balões nos céus dos lugares onde vivi. Eu mudei, é claro. Na época, com 18, 19 anos, anos 60, contracultura, um país em chamas e muito rock, acreditei piamente que tinha testemunhado a existência de vida extraterrena, inteligente,  uma esperança de um futuro melhor.

Hoje não sei se hoje faria tal afirmação com tanta assertividade. O tempo sempre nos ensina alguma coisa e quanto mais vivemos vamos percebemos que nada é eterno e imutável. No final, o futuro será sempre o que fizemos por merecer, com ou sem alienígenas e suas luzes amarelas.  A verdade é que a visão que compartilhamos numa noite de 1969 não teve relevância alguma mas, sem dúvida, naquela noite foi para todos um baita acontecimento.

Daqueles que a gente guarda lá no fundo do peito, para nunca mais esquecer.

Nova Friburgo, agosto de 2021

Ventos frios

Da janela da sala acompanhava o vento balançar os galhos de uma árvore no jardim, como se tentasse derrubar duas rolinhas que teimosamente insistiam em permanecer pousadas em um galho bem fino. De repente, uma revoada de maritacas, aos gritos espantou o casal, possivelmente irritados com a habitual algazarra. Achou graça, baixou os olhos e tentou retomar a leitura do jornal, apesar da completa falta de interesse.

Voltou o olhar para a janela. Apesar do sol brilhante, usava um casaco para quebrar o ar frio que insistia em entrar sem nenhum convite em sua casa. Sabia muito bem que os dias vão ficar mais curtos e as noites claras e geladas. As chuvas vão sumir até, pelo menos, meados de outubro. As chuvas vão escassear e quase todas as manhãs nevoeiros vão esconder as montanhas que rodeiam sua casa.

Tempos de acender a lareira e ligar os aquecedores. Tirar dos armários casacos de lã, edredons, meias grossas, cachecóis, gorros e até luvas. Trocar a cervejinha do almoço por um bom vinho tinto. Sair à noite? Só em ocasiões muito especiais, afinal, para deixar o quentinho de casa tem que valer muito à pena, como apreciar as estrelas no límpido céu noturno da serra, a quase mil metros de altitude.

O vento assoviou alto e se insinuou para dentro do apartamento, fechando uma porta com um estrondo. Assustado, sentiu um arrepio e perdeu completamente os pensamentos mas, deixa pra lá, a vida real não é um comercial de televisão. Cheio de preguiça conseguiu se levantar da poltrona, fechou as janelas, tomou os remédios da manhã e foi para a cozinha passar um café. Com ou sem ventos frios, o dia está apenas começando.

Nova Friburgo, julho de 2021

A crônica sumiu!

Imaginemos a seguinte situação: o despertador toca, toca, mas nada acontece. Sua mulher resolve ver o que está acontecendo e surpresa! Não tem ninguém no quarto. Acreditando que é uma brincadeira fora de hora, vai checar no banheiro, na sala, no quarto das crianças. Nada. Já assustada, vai até o sótão, a garagem, a casinha do cachorro. Volta ao quarto e checa o guarda-roupas. Não, ele não se trocou e junto ao travesseiro seu celular ainda dorme. Não adianta, o marido, que há uns quinze minutos roncava como uma locomotiva a vapor, desapareceu e de pijama.

Mas pode ser pior. O despertador toca, você acorda, cambaleia até o banheiro, lava o rosto, escova os dentes e vai para a cozinha perguntando para a patroa se o café já está pronto. Mas, cadê a patroa? E as crianças? Saíram todos e não me avisaram? Pegou o celular e ligou para a mulher: consternado ouviu o aparelho berrando na cozinha. Olhou pela janela e não viu ninguém. Correu para a rua e tocou a campainha do vizinho. Silêncio. Bateu nas portas de outras casas em vão. Foi para o meio da rua e gritou, implorou, ameaçou, chorou. Voltou para casa e ligou a TV, o rádio e o computador: completamente mudos. Sua mulher, as filhas, o cachorro, os vizinhos, todos desapareceram. Estava sozinho no mundo e ainda por cima de pijama.

E não é que piora mesmo? O despertador toca, você acorda e percebe que não vê, não ouve e não fala nada. É impossível determinar se está em casa, na rua, em um hospital ou na cadeia. Será que morreu e não percebeu? Ou enlouqueceu? Tenta lembrar seu nome mas sua cabeça é um completo caos. Sente-se só, desprotegido e tem medo, sem saber o que pode acontecer em seguida. De repente você percebe que não passa de uma estatística, é um desaparecido.

Pô, esta crônica está parecendo um pesadelo sem fim! Vou terminar, é claro, mas antes tente visualizar um dia qualquer no futuro, lá por 3.500 DC. Um artefato de forma indefinida surge do nada em um lugar qualquer. Flutuando bem perto do chão, esquadrinha uma vasta área completamente deserta formada por areia e pedras. Os dados obtidos são imediatamente repassados à velocidade da luz para um laboratório de pesquisa em uma galáxia distante. O resultado da sondagem não deixa nenhuma dúvida, o terceiro planeta do sistema solar não abriga mais nenhuma espécie de vida e nem tem condições para suportar uma colonização, seu ambiente é completamente árido.

Daí você se pergunta, mas o que aconteceu com a humanidade, os animais, micróbios, bactérias, o vírus do Covid-19? Sumiram e com eles a sua história e a sua tragédia. Mais alguns séculos e serão esquecidos em todo o universo. Desesperador, não é? Não, isso aqui é só ficção! Dor de verdade sentem os parentes dos três meninos que em dezembro do ano passado saíram para brincar e nunca mais foram vistos. Ou dos 99 friburguenses desaparecidos (número oficial do governo do Estado do Rio) na tragédia que destruiu a cidade em 2011. Desespero sentiram pais, mães e filhos das quase 82 mil pessoas que desaparecem anualmente no Brasil.

Pois é…. Felizmente, ao contrário do título, a crônica não sumiu. Elas também sofrem com autores sem inspiração, ideologias exóticas, desconhecimento da língua, falta de convicção e fé na sua capacidade criativa. Elas não aguentam e vão embora. Um belo dia a gente abre o note para terminar a escrita e leva um baita susto, a crônica sumiu! E aí não tem BO na delegacia, Interpol investigando na América do Sul, Nasa espiando com seus espiões: a página em branco do editor de texto está lá, acusadora implacável de nossa desinspiração, se é que isso existe.

O único consolo é que sempre podemos escrever outra….

Junho de 2021

Hora de invernar

Carlos Emerson Junior (2021)

E o mês de junho chegou, trazendo o frio do inverno serrano. Hora de ligar lareiras e aquecedores, tirar casacos, xales e meias de lã dos armários. Ficar mais tempo em casa, dormir embaixo de um bom edredom, tomar sopas quentinhas à noite com a companhia de um bom vinho tinto e, é claro, diminuir a água fria dos banhos.

Quem mora na serra sabe que a rotina muda completamente: o relógio desperta na mesma hora o ano inteiro mas agora lá fora ainda é noite, quando clareia você só enxerga o nevoeiro escondendo toda a cidade e faz frio, muito frio. O corpo e a mente só desejam voltar para a cama e suas cobertas.

Em compensação, com a típica escassez das chuvas nessa época do ano, os dias ficam incrivelmente solares, o azul do céu chega a ficar indecente de tão bonito. A cidade ganha um brilho novo, caminhar pelas ruas ganha um novo significado, se aquecer ao sol e redescobrir novos coloridos da natureza.

Somos a cidade mais fria do Estado do Rio de Janeiro mas, como em todas as cidades brasileiras, uma parcela de nossos cidadãos não tem o menor motivo para festejar a estação. Muito pelo contrário, o tempo frio cobra um preço alto e ingrato dos mais necessitados. Faltam casas, agasalhos, saúde, alimentação, perspectiva e esperança de dias melhores.

A população se mobiliza e ajuda como pode: distribuição de cestas básicas, doação de roupas e cobertores de frio, ajuda financeira, médica, odontológica. Fazemos o que nos é possível. O Brasil sente os efeitos da pandemia e de gestões federais, estaduais e municipais sem nenhum plano de governo, falta de empatia com seu povo, incompetentes, corruptas ou coisa pior.

Enfim, o inverno começa oficialmente no dia 21 de junho, uma segunda-feira, apesar das temperaturas, principalmente à noite, já terem chegado abaixo dos 2 dígitos, principalmente na zona rural de Nova Friburgo. As restrições impostas para o combate ao Coronavírus restringem o turismo e, mais uma vez, não veremos aquele povo de todo o país que gosta ou quer conhecer um inverno de verdade em plena região sudeste do Brasil.

Aliás, que tal aproveitarmos nossa melhor estação ajudando a quem precisa? Em vez de ficarmos destilando ódio (um sentimento horroroso) contra quem não pensa como nós, vamos procurar associações, ongues, igrejas e prefeituras que estão pedindo qualquer tipo de colaboração para amparar quem sente frio e fome e não tem como se proteger.

Depende apenas da gente.

Complementos

Preparar um prato sem usar limão, cebola, tomate, cerejinhas, sal, pimentão, salsinha, manjericão, orégano e por vai é possível, mas o resultado final… Em homenagem aos ingredientes que dão sabor ao alimento nosso de cada dia, fotografei com um smartphone Samsung alguns desses valorosos e sempre disponíveis complementos, digamos assim, que alegram nosso paladar. A todos eles, o nosso respeito e muito obrigado.

Cerejinhas
Cebola Vermelha
Laranjas e limões
Pitaia
Tomate picado

Fotos: Carlos Emerson Junior

Prova de vida

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Ah, aposentadoria, que sonho bom… Você contribui para o governo com uma parte dos ganhos do seu trabalho durante 35 anos e recebe de volta um lauto salário mensal até o fim de seus dias. Imagine, em plena terceira idade aproveitar o ócio dos justos, viajar o mundo inteiro, conhecer novas pessoas, costumes, línguas!

E tem mais! Comprar sua casa de praia, um carro esporte conversível, sair para dançar com a patroa todas as noites, comemorar a vida com champanhe sob a luz do luar em um resort de Bali, quem sabe arranjar uma mulher 40 anos mais nova. Um sonho e o melhor, ao alcance de todos os brasileiros, independente de raça, credo, sexo e religião (ou falta de).

O único aborrecimento nesse novo mundo tão “maravilhoso” é a tal da “prova de vida”, herança mal resolvida dos tempos em que uns tudo podiam e outros não tinham nada. Como o próprio nome já diz, uma vez por ano é necessário se apresentar nas agências do INSS ou dos bancos onde o benefício é pago, para provar que você ainda está vivo. O não cumprimento dessa exigência pode acarretar a suspensão ou o cancelamento do benefício, simples assim.

Ontem, pela primeira vez, comprovei oficialmente que estou vivo. Cheguei na agência bem cedinho, fui ao caixa, apresentei minha carteira de identidade e o cartão do banco, digitei minha senha e… recebi um comprovante onde se lê inequivocamente o seguinte:

“Prova de vida realizada em 24 de maio de 2021 – 09:29

Validade de 12 meses a partir desta data”

Pois é, durante um ano vou processar quem vier me falar que “você morreu e não sabe”. Experimentem!

Infelizmente a necessidade da prova de vida compulsória, criada para combater fraudes, confirma a tese de que a malandragem do brasileiro nunca dá certo e ainda por cima provoca efeitos colaterais, como esse ritual anual. Quem tem uma mãe, pai ou avô com dificuldades físicas para se deslocar, sabe o que estou falando. Minha sogra com quase cem anos teve que ir de táxi até uma agência do INSS para ser “vistoriada” por um funcionário na rua. É pra isso que a gente envelhece?

É claro que não! É por essas e outros que ao sair da agência bancária fui até o quartel da PM, onde fica o heliporto de Nova Friburgo, embarquei no Bell 429 que estava me aguardando e voamos em direção meu haras, entre Carmo e Sumidouro, aqui no Estado do Rio mesmo. O plano é passar o dia cavalgando, tomando um uisquinho, curtindo um churrasco e ouvindo muito jazz. Tudo por conta da aposentadoria, é claro!

Contos e Crônicas

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“A vida não vale nada se você não tem uma boa história pra contar.”  (Pedro Bial, jornalista

Pois é, meus caros, eu nem sei se minhas histórias valem isso tudo, mas vejam só, ao invés de terminar (mentira, iniciar) o preenchimento da declaração do imposto de renda de minha mulher, que vence no final do maio, estou aqui no word jogando conversa fora sobre gêneros literários…  

Contos rendem crônicas?  Ou seria o contrário? De qualquer maneira, estou falando de dois gêneros literários diferentes, apesar serem quase irmãos. Basicamente, o primeiro conta uma história geralmente curta, de ficção ou não, enquanto o outro fala sobre o cotidiano, num estilo que beira o jornalismo.  

Cresci cercado de crônicas por todos os lados. Meu pai contava os casos da capital (o Rio de Janeiro, óbvio) nos jornais de Campinas. Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Carlos Drummond de Andrade, Nélson Rodrigues e tantos outros foram leitura obrigatória na adolescência. O efeito colateral foi sério: contos, romances, poesias e uma vontade incontrolável de escrever. 

Crônicas geralmente são envolventes, acessíveis, familiares até. Uma celebridade morreu? Crônica nela! O governador roubou e foi cassado? Crônica nele! Qualquer assunto é motivo para uma crônica, não importa se é árido como uma lápide, fogoso como o carnaval, triste como um velório.  

Já os contos são uma espécie de beijo roubado, escreveu um dos meus escritores favoritos, o americano Stephen King, autor de romances e contos de primeira linha.  E ele tem razão, um bom conto pode ser uma surpresa como foi “O homem que falava javanês”, do Lima Barreto, publicado em 1911.  

Contos contam histórias, simples assim. Românticas, policiais, espaciais, urbanas, rurais, o que você imaginar. O homem conta histórias desde a época das cavernas, quando desenhava nas paredes como tinha sido a caçada do dia. Com o passar do tempo, as histórias (verídicas ou não) que eram contadas em volta das fogueiras, passaram a ser escritas e hoje são acessíveis a qualquer um. 

Escrever um conto é uma mistura de imaginação, organização e uma boa pitada de inspiração. Contos podem ser geniais, estranhos, assustadores, educativos ou medíocres, não importa, por mais criativo que você tenha sido quando colocou as ideias no papel (monitor? smartphone?), uma parte sua sempre estará lá. Já li em algum lugar que contos são quase nossos filhos.  

Contos ou crônicas? Sem dúvida alguma, fico os dois.

 

A dança da Morte, uma crônica

Suma Editora

Num mundo em que tantos já morreram, provocar mais morte é certamente o mais graves dos pecados”.

(Stephen King).

De um laboratório ultrassecreto do governo americano, acidentalmente vaza um vírus da gripe geneticamente alterado, altamente contagioso e letal, se espalha com rapidez e provoca a morte de 99,4% da população mundial em menos de um ano. Aos pouquíssimos sobreviventes resta o espanto, a dor e o medo diante de um futuro de horror. É o fim da nossa sociedade.

É mais ou menos assim que começo o romance “A Dança da Morte”, uma das obras mais conceituadas do escritor norte-americano Stephen King. Lançado em 1978 e reeditado em 1990 com material inédito que havia sido cortado na primeira edição, é um calhamaço com 1.263 páginas, enorme e diversa quantidade de personagens e a eterna luta do bem contra o mal, literalmente falando. Empolgante e deixa bem claro que os monstros sempre presentes em suas obras somos todos nós.

A história parece uma premonição da tragédia atual provocada pelo Coronavírus. Guardada as devidas proporções (e ficções claro), o vírus chamado de “Capitão Viajante” ganha de 7 a 1 do nosso Coronavírus em todos os quesitos: contágio, letalidade e incurabilidade (isso existe?). Bem ao seu estilo, o autor descreve os sintomas da doença provocada como se você se afogasse dentro de si mesmo.

Como sabemos, infelizmente na vida real o Coronavírus também faz um estrago enorme: um ano e alguns meses após o chamado “paciente zero”, a Covid-19 já infectou mais de 149 milhões de pessoas, além de matar outros 3 milhões em todo o mundo. O Brasil é o terceiro país mais afetado, com 14 milhões de casos e mais de 400 mil mortes, uma tragédia.

Ao contrário dos personagens do livro, estamos sendo vacinados! Tudo bem que todas elas não erradicam a doença mas, sua capacidade de reduzir a contaminação e o número de internações hospitalares será decisiva para acreditarmos em dias melhores, ainda que difíceis.

Por outro lado, temos em comum a irresponsabilidade do governo americano (do romance), que demorou a tomar conhecimento do incidente, ocultou deliberadamente a verdade da população e tentou fugir (sem sucesso) quando percebeu o tamanho do desastre que provocara. O nosso governo… Bom, nem preciso falar nada, não é mesmo? Basta lembrar das cenas de terror nos hospitais e ruas de Manaus.

Bernt Nutke (Tailin, Estônia)

Dança macabra ou Dança da Morte é uma alegoria artístico-literária do final da Idade Média sobre a universalidade da morte, que expressa a ideia de que não importa o estatuto de uma pessoa em vida, a dança da morte une a todos. Há representações de Danças macabras na literatura, pintura, escultura, gravura e música. Estas representações foram produzidas sob o impacto da Peste Negra (1348), que avivou nas pessoas a noção do quão frágeis e efêmeras eram as suas vidas e quão vãs eram as glórias da vida terrena”. (Wikipédia)

Dividido em três partes, adquiri o romance “A Dança da Morte”,editado pela Suma em 1990, na Amazon em versão eletrônica para o meu Kindle, o que agilizou bastante a leitura. Como todo bom livro, é envolvente, emocionante, triste, belo e muito assustador, principalmente nesses dias sombrios de uma pandemia descontrolada, em um país dirigido por ineptos.

Recomendo muito.

Café

Foto: Carlos Emerson Jr

Uma coisa que aprendi com minhas caminhadas é que quando estamos sozinhos, nossa cabeça fica tão cheia de pensamentos que muitas vezes perdemos pequenos detalhes do caminho que, por um motivo ou outro seriam interessantes. Por outro lado, acompanhados sempre conversamos, contamos casos, rimos, reclamamos, brigamos e de novo, talvez até com mais constância, a mesma distração se repete. Faz parte, acho.

A foto acima mostra um pé de café. Talvez pela pressa de chegar ao fim de uma longa ladeira, deixei de registrar a cena no seu todo, mais uns seis ou sete cafeeiros plantados lado a lado, como se fossem um muro protegendo o terreno. Passo por ali quase sempre que caminho e garanto que foi a primeira vez que reparei nessa curiosidade, uma mini plantação urbana. Vai ficar muito bonito quando florescer. E se por acaso os grãos não vingarem, não faz mal, vão alegrar minhas andanças.

Meus parabéns para o dono da lavoura.

Catavento

Foto: Carlos Emerson Junior

O catavento é um dispositivo que aproveita a energia dos ventos para produzir trabalho. Sua origem é controversa, alguns acreditam que surgiu na Pérsia, por volta de 915 a.C, enquanto outros defendem seu emprego no Egito e na China. O catavento mais antigo conhecido é o Galo de San Isidoro de León, na Espanha. Estudos em Carbono 14 de restos de um ninho de abelhas que tinha no seu interior, apontam sua origem no ano 680 AC. Viu quanta coisa você aprendeu numa leitura de dois minutos, em pleno domingo?

Ah sim, esse catavento é botafoguense. Coitado…

Basta!

Célula infectada com partículas do novo coronavírus | NIH/Handout via REUTERS

“A Academia Nacional de Medicina, em seus 191 anos de luta pela saúde da população brasileira e como instituição apolítica, manifesta enorme indignação pelo descaso, descuido e negligência por parte das autoridades governamentais e da classe política que seguem omissas e servis a interesses eleitorais, menosprezando a vida dos cidadãos.

Como entidade de assessoramento à política de saúde do país, nos cabe apresentar, novamente, propostas e conclamar a sociedade brasileira a não ficar omissa, sob o risco de sermos corresponsáveis por erros que seguem prejudicando de maneira grave o Brasil.

A Academia Nacional de Medicina acompanha com extrema preocupação a evolução da pandemia pela Covid-19, que recrudesce no Brasil. O negacionismo irresponsável de muitos gestores e políticos precisa cessar já.
Grande parte das 200 mil mortes que logo contabilizaremos poderia ter sido evitada. O tempo perdido com a falsidade, matou dezenas de milhares e vai seguir matando!

Quanta falta de decoro sanitário e inacreditável leviandade. Ignorância vergonhosa!

Sem dúvida, os executivos federal, estadual e municipal têm a maior responsabilidade, mas também o poder legislativo tem obrigação de assumir seu protagonismo, sendo indispensável o entendimento entre os gestores ao invés de inúteis debates político-demagógicos. Também, muitos governadores e prefeitos ardilosamente se omitem, não exercendo o poder de disciplinar e controlar as atividades sociais.

A Sociedade tem de dar um basta!

É preciso impedir que a população se infecte. Não há outra solução. Sim, a vacina é indispensável e prioritária, mas não bastará. Serão muitos meses para se conter a epidemia e, antes, durante e depois, teremos que seguir usando máscaras e condutas sociais cientificamente comprovadas.

Há necessidade imediata de implementação de exemplos e de medidas de proteção individual e coletiva, controlando-se o risco aumentado pelas atividades recreativas e sociais, atualmente descontroladas pela falta de liderança.

A vacina segue sendo explorada, de forma irresponsável, por autoridades que podem se merecer, mas o povo brasileiro não os merece.

Para se evitar uma tragédia ainda maior, é imprescindível a priorização da avaliação técnica das diferentes vacinas e a imediata liberação de todas as que forem aprovadas pela Anvisa.
Há necessidade premente da vacinação, como ocorre em outros países, nos quais, inclusive, já vem sendo aplicada.

Não há razão para punirmos mais o Brasil com a morosidade proposta de se aguardar meses.

Estamos muito atrasados e precisamos construir estratégia sólida que permita, já no início de 2021, a realização segura da vacinação em massa da população. É impossível a vacinação contra a Covid-19 dar certo com planos nacionais e estaduais paralelos. Uma irresponsável disputa levou à perda de precioso tempo na definição de um plano nacional de imunização efetivo, apesar de termos um extraordinário e bem-sucedido programa nacional de imunizações pelo SUS, reconhecido mundialmente por sua qualidade.

Além da vacina, é necessário educar e estimular exemplos e programas de informação adequados para o uso obrigatório de máscaras, do afastamento entre as pessoas, de coibir, a todo custo, as aglomerações.
A testagem em massa é outra medida imprescindível, capaz de detectar casos e definir medidas epidemiológicas e de saúde pública que reduzam drasticamente a propagação da epidemia. Enfim, uma coordenação das ações de forma eficiente em todas as esferas.

Na defesa de milhares e milhares de vidas que certamente serão ainda perdidas, se essa política suicida e criminosa não for de imediato inteiramente modificada, a Academia Nacional de Medicina, mais uma vez, manifesta enorme preocupação e conclama a todos da sociedade brasileira a exigir de nossos governantes e políticos o que o Brasil tem direito e não vem recebendo.”

Academia Nacional de Medicina
Rubens Belfort Jr.
Presidente

*****

Nota oficial da Academia Nacional de Medicina, publicada hoje no site da AMN e no O Globo. Como um cidadão livre e consciente, assino embaixo.

Sine Qua Non

Foto: Carlos Emerson Jr.

O barulho da chuva caindo no telhado, escorrendo pelas correntes das calhas e o cheiro da terra molhada. O verde forte da vegetação encharcada. O Caledônia oculto nas nuvens escuras regando nossa cidade e todas as criaturas.

O lusco-fusco entre o entardecer e o anoitecer. As cores das nuvens, alternando do branco ao laranja. As estrelas brilhando no céu limpo do inverno. A Lua Cheia sorrindo, iluminando a mata e ofuscando o pisca-pisca dos vagalumes que ainda resistem por aqui. A lareira acesa aquecendo corpos e corações.

A revoada e os gritos das maritacas nas manhãs da Primavera. O chamado do Quero-Quero no telhado da casa vizinha. O canto marcante de um Bem-Te-Vi. A altivez de uma Dália em um jardim numa rua. Um muro de heras todo florido com Esponjinhas. A beleza exótica das Orquídeas. As duas semanas de floração das Cerejeiras.

Ter passeado em Paris antes de morrer. Trabalhar com o que gosta e saber se reinventar. Viajar. Velejar. Nadar. Conhecer e viver uma vida inteira com o amor de sua vida. As filhas, hoje adultas, amigas para todas as horas. Rezar no fim do dia. Dormir com a boa sensação de estar vivo.

Isso é essencial. Sine Qua Non.

Só faltam 23 dias!

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Mais uma segunda-feira! Mais uma semana! Menos de um mês! 2021 vem aí! Sim, e daí? Sua vida vai mudar? O isolamento vai acabar? O vírus vai ter cura? E os empregos, vão voltar? Vamos viajar outra vez? Sair à noite, encontrar os amigos, festejar qualquer coisa, ir à Igreja rezar? Deixaremos de achar “normal” 6.605.245 casos de Covid-19? E as 177.006 mortes confirmadas?

Quando percebo que a gestão da pandemia, pelo menos aqui no Brasil, não passa de uma piada de péssimo gosto, comandada por gente sem a menor condição de conduzir sequer um pelotão, dando valor a “pseudo lendas” ao invés de se ater aos fatos reais, atiçando a cobiça dos corruptos eternamente de plantão, vendendo gato por lebre de olho em uma reeleição, fico com dúvidas se realmente 2021 será um “feliz ano novo”, cheio de esperanças, paz e saúde ou se os dias sombrios e mortais se repetirão.

Sei não… Parece que 2020 não tem data para terminar.

Renascer

Foto: Carlos Emerson Jr.

Algum dia, não sei quando, desapareceremos do planeta Terra, nossa casa tão mal tratada. Não importa se será em consequência de uma catástrofe ambiental, uma guerra nuclear ou, simplesmente, pela apatia e desinteresse em prosseguir uma jornada de violência, destruição, ódio e desamor.   Nossas lembranças, virtudes e cultura ficarão como um legado para ninguém.

Desse dia em diante, as cidades serão apenas ruínas, os imensos pastos do interior brasileiro serão tomados pelas matas mas, infelizmente, milhões de animais que dependem de uma forma ou outra dos homens, perecerão com fome e sede. Em compensação, outros milhares, selvagens e mais adaptados e buscarão alimentos e abrigos no que restou das fábricas, usinas, barragens, hotéis, hospitais, quartéis e demais construções e espaços construídos pelo homem.

Os rios voltarão aos leitos originais e correrão para o mar limpos e piscosos como todos os rios já foram um dia. Os oceanos, por sua vez, livres de vazamentos de óleo, naufrágios de cargas poluentes, despejo de esgoto e lixo radioativo e todo o tipo de mazelas, explodirão de vida marinha, nutrientes e, quem sabe, algum dia seja berço de uma nova vida inteligente, mais adaptada. O ar que um dia respiramos será completamente diferente, limpo e saudável. 

Algum dia, não sei quando, a humanidade se vai e o planeta Terra renascerá e viverá em paz.

Suspeita clínica não é uma clínica suspeita

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Ou o suspeito é sempre o culpado. A palavra, não o cidadão, que tem à sua disposição o direito de defesa em primeira, segunda, terceira, quarta e sei lá quantas instâncias, ainda mais se for amigo de um magistrado ou puder pagar um advogado de primeira linha. 

Mas vamos ao caso: a suspeita caminhava de maneira suspeita por uma suspeitíssima viela numa comunidade carioca prá lá de suspeita. Por sua vez, em uma viatura da policia, suspeita, é claro, policiais observaram a atitude suspeita da suspeita e, de uma forma muito suspeita, a abordaram. Um “di menor” que passava por ali, viu a cena e, suspeitosamente saiu correndo morro acima.

Pois é, hoje a imprensa usa e abusa do suspeito, mesmo quando o elemento é pego com a mão na botija ou melhor, com uma arma na mão atirando em uma infeliz vítima. Querem um exemplo? Aquele monstro que trancou duas mulheres no banheiro da casa , incendiou o imóvel e fugiu, matando as duas queimadas. Alguns jornais do Rio chegaram a noticiar que o suspeito estava exaltado, o suspeito foi preso, o suspeito é isso, o suspeito é aquilo e por aí vai.

Um cidadão acima de qualquer suspeita. Já ouviram muito essa expressão, não é mesmo? Ela é clara, objetiva, curta e grossa; trata-se de uma pessoa com a reputação ilibada, que não pode ser acusada de nenhuma falta, um cidadão honesto e confiável. Quanto governadores do Estado do Rio, legitimamente eleitos, estão presos por, digamos, mal feitos?

No Direito “suspeito é uma pessoa relativamente à qual existam indícios não muito fortes que revelem sua proximidade com um crime que cometeu, participou, ou prepara-se para participar”. Ou em português claro, o cidadão pode ser um safadão, mas não temos como afirmar isso sem provas, correndo o risco de  incorrer em uma injustiça.

Se pararmos para pensar, somos todos suspeitos de alguma coisa e isso traz consequências desastrosas, como o da Escola de Base em São Paulo, caso típico de linchamento moral totalmente equivocado ou de má-fé, precursor dos famigerados cancelamentos que tomaram conta das redes sociais e tentam colocar sob suspeita qualquer um que escreva, fale ou filme algo que não agrade o sem noção da vez.

E piora: maridos suspeitando (e matando) suas companheiras. Policiais e similares prendendo, batendo e até mesmo eliminando negros com a infame desculpa que o “indivíduo estava em atitude suspeita”! E o que seria, para essa gente, uma atitude suspeita? Tratar mal uma pessoa humilde porque ela é isso, simplesmente humilde, automaticamente uma suspeita em potencial? Quem somos nós para julgar alguém?

É óbvio que a maioria dos suspeitos de hoje são bandidos mesmo, dos brabos, sem a menor suspeita, mas cabe somente à Justiça e a Deus decidir o seu destino. Nossa indignação é justa e necessária, até mesmo para cobrar seriedade, celeridade e correção nas investigações, mas daí a querer fazer justiça com as próprias mãos é incorrer em um crime maior ainda.

Enfim, não sou (até onde sei) suspeito de nada, a não ser, talvez, não saber quando terminar uma crônica. Ah sim, suspeita clínica é uma expressão médica designado a hipótese do diagnóstico de um paciente. Já uma clínica suspeita… Bom, quando eu era criança (e coloca décadas nisso) era aquele lugar também conhecido como fábrica de anjinhos, sem suspeita mesmo! Hoje em dia nem imagino o que fazem.

Uma boa semana para todos e vamos suspeitar menos e amar mais. Faz bem para a saúde e para a alma.

Flores de Novembro

Fotos: Carlos Emerson Jr.

Para um domingo sem eleição (Nova Friburgo não tem segundo turno), que tal umas flores para amenizar o ambiente e alegrar o final do dia, vença quem vencer? Uma curiosidade, hortências são muito comuns por aqui mas em dezembro e janeiro, com o calor. Essa da foto, pelo visto, gosta de um friozinho…

Uma boa semana.