Luzes no céu

Finalmente o governo americano admitiu que objetos voadores não identificados tem sido avistados por aviões civis e militares, captados pelos radares e rastreados por satélites desde que, sei lá, eu nasci! Demorou e aproveitando a deixa, resolvi abrir os meus próprios arquivos “X” e narrar a única experiência que tive com esse “fenômeno”, no final da década de 60.

E sem mais delongas, senta que lá vem história, como dizem os “influencers” do YouTube.

O ano de 1969 foi difícil para todo mundo. Dois presidentes (Costa e Silva e Médici) e uma junta militar governaram o Brasil,  o embaixador dos Estados Unidos foi sequestrado, a Lei de Segurança Nacional decretada, o Congresso reaberto, uma nova Constituição promulgada, a reação ao poder crescia e eu, bom, prestava o  serviço militar obrigatório durante o dia, estudava à noite e tentava planejar o resto da minha vida. 

Uma bela noite, lá no antigo Forte Imbuhy, em Niterói, depois de uma longa marcha morro acima e floresta abaixo, carregando fuzil, cantil, munição, sabre, mochila e todo o tipo de equipamento militar, retornamos exaustos, doidos para tirar toda a tralha das costas, tomar um banho, enfrentar a janta, ou melhor, o rancho noturno, cair na cama e dormir até às cinco da manhã do dia seguinte, para encarar outra marcha… 

Exausto, deitei no gramado de um campo de futebol ao lado de um grupo que discutia a morte da bezerra ou algo parecido quando alguém comentou:

– aquele avião é estranho, parece que não sai do lugar.

Olhamos na direção indicada, algum ponto no céu do Rio acima do mar e realmente vimos uma luz amarelada parada, ou melhor, se elevando lentamente, em uma linha perfeitamente reta.

–  que avião, cara, é um balão e dos grandes!

Balão? Em pleno mês de abril? Perto do Forte de Copacabana?  Se for vai ser derrubado com tiro de canhão, coitado! Caímos na gargalhada que cessou repentinamente quando vimos mais duas luzes se erguendo lentamente em  direção à primeira, que estava  parada como que aguardando a chegada de suas companheiras. O mais impressionante é que elas pareciam ter saído de dentro do mar. 

–  acho que a gente devia avisar o comandante…

Nem foi preciso falar duas vezes, o ordenança que estava conosco saiu correndo à procura de um oficial. A essa altura já estávamos todos de pé, na murada de pedra da fortaleza centenária tentando entender o que era aquilo. As três luzes estavam perfeitamente alinhadas e estranhamente paradas, como se estivessem aguardando alguma coisa. Acho que todo o efetivo da bateria, cerca de 80 pessoas, parou para assistir.

Um tenente se aproximou com um potente binóculo nas mãos. Nem deu para usar, as três luzes, uma ao lado da outra, retomaram a subida e repente, sem aviso, dispararam a toda velocidade em direção ao espaço, sem deixar um rastro sequer de sua passagem. É até difícil descrever, mas quem conhece Jornada nas Estrelas sabe,  o efeito foi quase igual a aceleração da Enterprise em velocidade de dobra, só que na cor amarela. Ficamos literalmente boquiabertos.

–  Meu Deus, discos voadores!

A exclamação em voz alta de um companheiro nos tirou daquele torpor. Pior, desencadeou uma discussão enorme entre os que apostavam em alienígenas, fogo fátuo, balões meteorológicos, satélites, aviões, fogos de artifício, alucinação coletiva ou aparição divina, encerrada pelo nosso comandante, mandando todo mundo calar a boca e se encaminhar acelerado para o refeitório: o jantar finalmente estava servido.

Pois é, já se passaram 52 anos e nunca mais vi nada além de nuvens, aviões, pássaros e alguns balões nos céus dos lugares por onde passei. Eu mudei, é claro. Na época, com 18, 19 anos, anos 60, contracultura, um país em chamas e muito rock, acreditei piamente que tinha testemunhado a existência de vida extraterrena, inteligente,  uma esperança de um futuro melhor. 

Hoje não sei se hoje faria tal afirmação com tanta assertividade. O tempo sempre nos ensina alguma coisa e quanto mais vivemos vamos percebemos que nada é eterno e imutável. No final, o futuro será sempre o que fizemos por merecer, com ou sem alienígenas e suas luzes amarelas.  A verdade é que a visão que compartilhamos numa noite de 1969 não teve relevância alguma mas, sem dúvida, foi para todos um baita acontecimento. 

Daqueles que a gente guarda lá no fundo do peito, para nunca mais esquecer. 

Nova Friburgo, agosto de 2021

Por Carlos Emerson Junior

Sou carioca, escritor, cronista e fotógrafo. Moro em Nova Friburgo, na serra fluminense. Transformar em letras um fato banal do quotidiano é fascinante, talvez por juntar um pouco de jornalismo, literatura e muita imaginação. Acredito que é por aí que nascem as crônicas nossas de cada dia. Sejam bem-vindos e boa leitura.

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