Hora de invernar

Carlos Emerson Junior (2021)

E o mês de junho chegou, trazendo o frio do inverno serrano. Hora de ligar lareiras e aquecedores, tirar casacos, xales e meias de lã dos armários. Ficar mais tempo em casa, dormir embaixo de um bom edredom, tomar sopas quentinhas à noite com a companhia de um bom vinho tinto e, é claro, diminuir a água fria dos banhos.

Quem mora na serra sabe que a rotina muda completamente: o relógio desperta na mesma hora o ano inteiro mas agora lá fora ainda é noite, quando clareia você só enxerga o nevoeiro escondendo toda a cidade e faz frio, muito frio. O corpo e a mente só desejam voltar para a cama e suas cobertas.

Em compensação, com a típica escassez das chuvas nessa época do ano, os dias ficam incrivelmente solares, o azul do céu chega a ficar indecente de tão bonito. A cidade ganha um brilho novo, caminhar pelas ruas ganha um novo significado, se aquecer ao sol e redescobrir novos coloridos da natureza.

Somos a cidade mais fria do Estado do Rio de Janeiro mas, como em todas as cidades brasileiras, uma parcela de nossos cidadãos não tem o menor motivo para festejar a estação. Muito pelo contrário, o tempo frio cobra um preço alto e ingrato dos mais necessitados. Faltam casas, agasalhos, saúde, alimentação, perspectiva e esperança de dias melhores.

A população se mobiliza e ajuda como pode: distribuição de cestas básicas, doação de roupas e cobertores de frio, ajuda financeira, médica, odontológica. Fazemos o que nos é possível. O Brasil sente os efeitos da pandemia e de gestões federais, estaduais e municipais sem nenhum plano de governo, falta de empatia com seu povo, incompetentes, corruptas ou coisa pior.

Enfim, o inverno começa oficialmente no dia 21 de junho, uma segunda-feira, apesar das temperaturas, principalmente à noite, já terem chegado abaixo dos 2 dígitos, principalmente na zona rural de Nova Friburgo. As restrições impostas para o combate ao Coronavírus restringem o turismo e, mais uma vez, não veremos aquele povo de todo o país que gosta ou quer conhecer um inverno de verdade em plena região sudeste do Brasil.

Aliás, que tal aproveitarmos nossa melhor estação ajudando a quem precisa? Em vez de ficarmos destilando ódio (um sentimento horroroso) contra quem não pensa como nós, vamos procurar associações, ongues, igrejas e prefeituras que estão pedindo qualquer tipo de colaboração para amparar quem sente frio e fome e não tem como se proteger.

Depende apenas da gente.

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