Prova de vida

Ah, aposentadoria, que sonho bom… Você contribui para o governo com uma parte dos ganhos do seu trabalho durante 35 anos e recebe de volta um lauto salário mensal até o fim de seus dias. Imagine, em plena terceira idade aproveitar o ócio dos justos, viajar o mundo inteiro, conhecer novas pessoas, costumes, línguas!

E tem mais! Comprar sua casa de praia, um carro esporte conversível, sair para dançar com a patroa todas as noites, comemorar a vida com champanhe sob a luz do luar em um resort de Bali, quem sabe arranjar uma mulher 40 anos mais nova. Um sonho e o melhor, ao alcance de todos os brasileiros, independente de raça, credo, sexo e religião (ou falta de).

O único aborrecimento nesse novo mundo tão “maravilhoso” é a tal da “prova de vida”, herança mal resolvida dos tempos em que uns tudo podiam e outros não tinham nada. Como o próprio nome já diz, uma vez por ano é necessário se apresentar nas agências do INSS ou dos bancos onde o benefício é pago, para provar que você ainda está vivo. O não cumprimento dessa exigência pode acarretar a suspensão ou o cancelamento do benefício, simples assim.

Ontem, pela primeira vez, comprovei oficialmente que estou vivo. Cheguei na agência bem cedinho, fui ao caixa, apresentei minha carteira de identidade e o cartão do banco, digitei minha senha e… recebi um comprovante onde se lê inequivocamente o seguinte:

“Prova de vida realizada em 24 de maio de 2021 – 09:29. Validade de 12 meses a partir desta data.

Pois é, durante um ano vou processar quem vier me falar que “você morreu e não sabe”. Experimentem!

Infelizmente a necessidade da prova de vida compulsória, criada para combater fraudes, confirma a tese de que a malandragem do brasileiro nunca dá certo e ainda por cima provoca efeitos colaterais, como esse ritual anual. Quem tem uma mãe, pai ou avô com dificuldades físicas para se deslocar, sabe o que estou falando. Minha sogra com quase cem anos teve que ir de táxi até uma agência do INSS para ser “vistoriada” por um funcionário na rua. É pra isso que a gente envelhece?

É claro que não! É por essas e outros que ao sair da agência bancária fui até o quartel da PM, onde fica o heliporto de Nova Friburgo, embarquei no Bell 429 que estava me aguardando e voamos em direção meu haras, entre Carmo e Sumidouro, aqui no Estado do Rio mesmo. O plano é passar o dia cavalgando, tomando um uisquinho, curtindo um churrasco e ouvindo muito jazz. Tudo por conta da aposentadoria, é claro!

3 comentários em “Prova de vida

  1. Entrei nessa categoria também e já provei que estou vivinha da silva. Semana passada, minha tia que está acamada sem condições de se locomover, teve que ser deslocada até uma agência para provar que ainda vive. Muito desgastante e humilhante mas enfim, c’èst la vie! Cara, ainda não tive tempo de me deslocar para o haras familiar, rs. Abraço e curta ao máximo a vida de aposentado.

    Curtido por 1 pessoa

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